|
Manuel Diégues Junior
Artigo publicado em 07 de março de 1954
O estudo das ciências antropológicas não dispensa a base geográfica, isto é, o
meio em que se desenvolvem os fatos culturais. Habitat e cultura se relacionam.
O conceito de área cultural, tão importante na etnologia contempôranea, revela
juntamente a importância da base física em que se desenrola a cultura; área
cultural se conceituando, portanto, como uma área geográfica onde se encontram
elementos culturais relativamente uniformes e tendo continuidade em sua
distribuição.
Não só é importante o conceito de área cultural, nem basta considerar a
interrelação entre habitat e cultura. Geografia é ciência que modernamente
colabora de maneira feliz no desenvolvimento dos estudos etnológicos: e, em
particular, nos estudos folclóricos. Pois em folclore é de fundamental
significação a área em que se localiza o fato, de modo a ser conhecido
geograficamente em condições a contribuir para que se elucidem os elementos que
concorreram na sua formação ou difusão. Esta particularidade regional, pois,
de área geográfica ou física, não contradiz a universalidade do fenômeno
folclórico, ao contrário, serve para mostrar sua origem, sua expansão, seu
alargamento.
Daí o interesse com que se devem acolher estudos que procuram através da
geografia, ou melhor do método geográfico, esclarecer os fatos folclóricos, ou
que procuram interpretar os fenômenos culturais folclóricos em face do
respectivo ambiente; e, sobretudo, contribuir para a elaboração de atlas de
folclore. É o caso do ensaio do professor F. Kruger, hoje diretor do Instituto
de Lingüística da Faculdad de Filosofia y Letras da Universidad de Cryo
(Argentina). Gêographie des traditions populaires en France é este ensaio, em
que o autor desenvolve o tema a que se propõe, considerando as relações
estreitas que existem entre a geografia das tradições populares e a geografia
propriamente dita. O professor Kruger traz assim, preciosa contribuição ao
folclore francês, ao examinar sua geografia.
Evidentemente, não se trata de novidade, esta relação entre geografia e
folclore. Não são poucas as obras e contribuições a arrolar neste terreno,
sobretudo na literatura de língua alemã e francesa. Também vale assinalar o
ensaio de um método de geografia folclórica, que se deve a Menendez Pidal, e que
data de 1920. O ensaio do professor Kruger se baseia em elementos recolhidos,
observados e analisados até 1948, e é, pois, um trabalho atualíssimo.
|
Partindo dos estudos regionais, em que o folclore é examinado no conjunto das
tradições populares de uma região, salienta a importante contribuição de Van
Gennep; no domínio do folclore propriamente dito — assinala — Van Gennep aplicou
métodos rigorosamente criados por ele próprio. Para tanto utilizou vasta
documentação e muniu-se das mais diversas fontes, tornando-se rico o material em
que baseou seus estudos. Salienta igualmente o professor Kruger o valor dos
estudos lingüísticos, através de monografias que permitam conhecer uma linguagem
regional, tal como a do patois.
Passa depois a examinar os estudos gerais. Obras, pesquisas coletivas, geografia
lingüística e das tradições populares, áreas regionais francesas, palavras e
coisas (weerter und sacken), costumes populares são aspectos que não escapam ao
registro e observação do professor Kruger, sempre os acompanhando de exemplos
característicos de temas folclóricos das diversas regiões francesas. Este
capítulo segundo é rico de sugestões para o estudioso, abrindo perspectivas e
esclarecimentos capazes de assegurar uma orientação dos pesquisadores e
analistas. Não menos interessante, e talvez de mais amplo valor, e o terceiro
capítulo, quando o professor Kruger encara, num conjunto sistemático, a
distribuição geográfica dos fatos folclóricos.
Quer a agricultura, com o regime agrário, com instrumentos de trabalho adotados,
com processos de colheita, quer os meios de transportes, quer a habitação, a
casa rural em particular, com suas peculiaridades — disposição, interior,
cozinha, ornamentação, anexos — quer a alimentação, os costumes, as crenças, a
religiosidade, as opiniões públicas — são todos estes aspectos que o professor
Kruger estuda, do ponto de vista folclórico, quanto à sua presença em regiões
francesas, analisando sua distribuição e interpretando sob as nuances que cada
um apresenta. E isto através de metodologia que se pode considerar modelar,
fundamento que é de todo o seu ensaio.
Ensaio sólido e erudito, enriquecido por vasta e selecionada bibliografia, a
Géographie des traditions populaires en France constitui um livro de valor para
estudiosos e mestres; e representa sobretudo uma contribuição para maior
desenvolvimento dos estudos que, através das relações entre geografia e
folclore, possam ressaltar a importância dos fatos folclóricos em sua
localização. A base física do folclore é essencial para se compreender muitos
dos fenômenos de cultura popular, que a memória coletiva vai transmitindo, de
geração a geração. Neste sentido, e através do ensinamento metodológico que
representa, o livro do professor Kruger merece o interesse e a atenção dos
estudiosos das tradições populares.
(Diégues Júnior, Manuel. "Geografia e tradições populares". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 07 de março de 1954)
|