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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Almanaque
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Os professores e o folclore, por Renato Almeida

Geografia e tradições populares, por Manuel Diégues Junior

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Geografia e tradições populares

Manuel Diégues Junior

 

Artigo publicado em 07 de março de 1954

O estudo das ciências antropológicas não dispensa a base geográfica, isto é, o meio em que se desenvolvem os fatos culturais. Habitat e cultura se relacionam. O conceito de área cultural, tão importante na etnologia contempôranea, revela juntamente a importância da base física em que se desenrola a cultura; área cultural se conceituando, portanto, como uma área geográfica onde se encontram elementos culturais relativamente uniformes e tendo continuidade em sua distribuição.

Não só é importante o conceito de área cultural, nem basta considerar a interrelação entre habitat e cultura. Geografia é ciência que modernamente colabora de maneira feliz no desenvolvimento dos estudos etnológicos: e, em particular, nos estudos folclóricos. Pois em folclore é de fundamental significação a área em que se localiza o fato, de modo a ser conhecido geograficamente em condições a contribuir para que se elucidem os elementos que concorreram na sua formação ou difusão. Esta particularidade regional, pois, de área geográfica ou física, não contradiz a universalidade do fenômeno folclórico, ao contrário, serve para mostrar sua origem, sua expansão, seu alargamento.

Daí o interesse com que se devem acolher estudos que procuram através da geografia, ou melhor do método geográfico, esclarecer os fatos folclóricos, ou que procuram interpretar os fenômenos culturais folclóricos em face do respectivo ambiente; e, sobretudo, contribuir para a elaboração de atlas de folclore. É o caso do ensaio do professor F. Kruger, hoje diretor do Instituto de Lingüística da Faculdad de Filosofia y Letras da Universidad de Cryo (Argentina). Gêographie des traditions populaires en France é este ensaio, em que o autor desenvolve o tema a que se propõe, considerando as relações estreitas que existem entre a geografia das tradições populares e a geografia propriamente dita. O professor Kruger traz assim, preciosa contribuição ao folclore francês, ao examinar sua geografia.

Evidentemente, não se trata de novidade, esta relação entre geografia e folclore. Não são poucas as obras e contribuições a arrolar neste terreno, sobretudo na literatura de língua alemã e francesa. Também vale assinalar o ensaio de um método de geografia folclórica, que se deve a Menendez Pidal, e que data de 1920. O ensaio do professor Kruger se baseia em elementos recolhidos, observados e analisados até 1948, e é, pois, um trabalho atualíssimo.

Partindo dos estudos regionais, em que o folclore é examinado no conjunto das tradições populares de uma região, salienta a importante contribuição de Van Gennep; no domínio do folclore propriamente dito — assinala — Van Gennep aplicou métodos rigorosamente criados por ele próprio. Para tanto utilizou vasta documentação e muniu-se das mais diversas fontes, tornando-se rico o material em que baseou seus estudos. Salienta igualmente o professor Kruger o valor dos estudos lingüísticos, através de monografias que permitam conhecer uma linguagem regional, tal como a do patois.

Passa depois a examinar os estudos gerais. Obras, pesquisas coletivas, geografia lingüística e das tradições populares, áreas regionais francesas, palavras e coisas (weerter und sacken), costumes populares são aspectos que não escapam ao registro e observação do professor Kruger, sempre os acompanhando de exemplos característicos de temas folclóricos das diversas regiões francesas. Este capítulo segundo é rico de sugestões para o estudioso, abrindo perspectivas e esclarecimentos capazes de assegurar uma orientação dos pesquisadores e analistas. Não menos interessante, e talvez de mais amplo valor, e o terceiro capítulo, quando o professor Kruger encara, num conjunto sistemático, a distribuição geográfica dos fatos folclóricos.

Quer a agricultura, com o regime agrário, com instrumentos de trabalho adotados, com processos de colheita, quer os meios de transportes, quer a habitação, a casa rural em particular, com suas peculiaridades — disposição, interior, cozinha, ornamentação, anexos — quer a alimentação, os costumes, as crenças, a religiosidade, as opiniões públicas — são todos estes aspectos que o professor Kruger estuda, do ponto de vista folclórico, quanto à sua presença em regiões francesas, analisando sua distribuição e interpretando sob as nuances que cada um apresenta. E isto através de metodologia que se pode considerar modelar, fundamento que é de todo o seu ensaio.

Ensaio sólido e erudito, enriquecido por vasta e selecionada bibliografia, a Géographie des traditions populaires en France constitui um livro de valor para estudiosos e mestres; e representa sobretudo uma contribuição para maior desenvolvimento dos estudos que, através das relações entre geografia e folclore, possam ressaltar a importância dos fatos folclóricos em sua localização. A base física do folclore é essencial para se compreender muitos dos fenômenos de cultura popular, que a memória coletiva vai transmitindo, de geração a geração. Neste sentido, e através do ensinamento metodológico que representa, o livro do professor Kruger merece o interesse e a atenção dos estudiosos das tradições populares.

 

(Diégues Júnior, Manuel. "Geografia e tradições populares". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 07 de março de 1954)