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Renato de Almeida
Deveríamos ensinar, em nossas escolas normais, às futuras professoras, os meios
de discriminar para utilização na escola, os elementos folclóricos. Em cada
jogo, em cada história, em cada cantiga é necessário aproveitar o que se ensina,
ou mesmo gravar no espírito da criança as constantes tradicionais do nosso povo.
Não se lhes deve falar em monstros, em gestos de bandoleiros, em superstições ou
magia, nem em coisa que lhe possam excitar a imaginação ou criar temores, mas no
que for intrutivo e agradável, no que contribuir para amar mais ao país e a
melhor conhecer os seus aspectos ou tiver condições educacionais. A gradação dos
meios folclóricos utilizáveis seria uma propedêutica a ensinar e retificar com a
prática.
E, se interessarmos o folclore no ensino, os seus estudos é que muito lucrarão,
não só pelo entusiasmo e vocações que vão despertar, como pela cópia
incomensurável de informantes que mobilizará, germinando uma magnífica florada,
cuja antecipação emociona qualquer folclorista. Mas, antes mesmo que se adotem
oficialmente quaisquer providências para esse fim, poderão as nossas professoras
primárias ministrar nos recreios nas canções, nos brinquedos, nas histórias, nos
trabalhos manuais, nas festas escolares, elementos folclóricos, de sorte a
despertar na juventude, desde os bancos primários, o amor às artes populares.
Creio que assim serviríamos bem ao Brasil, aflorando os mistérios das lendas e
das tradições de sua gente.
Há ainda a considerar o índio e, se uma grande parte de suas atividades se
prendem à etnografia, muitas delas podem, devem e têm de ser estudadas
folcloricamente, já que se incorporam aos fatores tradicionais das artes e dos
costumes populares. Além da parte de muitos, de contos, de mágica, da
contribuição ameríndia, temos de considerar dois elementos: o decorativo, que se
revela sobretudo na indumentária, penas, colares, cocares, tudo garrido e
alacre; e o misterioso, que traduz certos característicos temperamentais dos
silvícolas e ou são conservados como sobrevivências (principalmente na magia) ou
são imitados, nesse perpétuo esforço nacional de indianismo.
A indumentária indígena é uma sedução constante e vemos hoje, nos congos, por
exemplo, que é um bailado essencialmente negro, os figurantes pretos usando
vistosos cocares. O misterioso está no caboclo desconfiado, como acontece sempre
em todas suas danças dramáticas, ou no elemento mágico, que se revela na
pagelança, no catimbó ou no candomblé de caboclo. A proporção que os ritos
negros vão do Rio de Janeiro para o norte sofrem o sincronismo de elementos
indígenas, até aquele primeiro culto, puramente nativo, de base zoolátrica, pois
não são evocadas as deidades africanas, ou os mestres catimbozeiros, mas os
bichos fabulosos, a cobra grande, a mãe do lago ou a jacaretinga.
Nesse particular, do índio no folclore, há um grande esforço a realizar, mesmo
porque os românticos deformaram patrioticamente o indígena e ainda não fizemos
(embora haja inestimáveis contribuições, coletâneas preciosas e alguns trabalhos
notáveis de exegese), um estudo sistemático, bastando recordar, como
recentemente observou, na Comissão Nacional de Folclore, dona Heloísa Torres, que
"a própria linguística de nossos aborígenes está por estudar, a fim de
promover-se a perpetuação literária de formas de procedimento dos povos
iletrados, que constituíram as populações primitivas do Brasil".
Se a UNESCO realizar, como se espera o Instituto Internacional da Hiléia
Amazônica, ter-se-á aberto um novo e admirável campo experimental, onde
etnografia e folclore poderão concluir uma tarefa extraodinária, uma melhor
fixação do elemento tradicional ameríndio.
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O nosso folclore é de uma grande beleza, com seus maravilhosos, de jurupari, o
deus musical, que baniu o matriacardo e fez de suas trombetas tabus para as
mulheres; do curupira, o tapuio de pés às avessas que protege as matas; do
terrivel saci, negrinho de uma perna só, pulando que nem cotia e divertindo-se
em pregar peças aos viajantes, com diabruras incríveis; do horrendo quibundo,
meio gente e meio bicho, com um buraco nas costas, por onde come meninos; ou do
coca, papão das crianças; com os desafios onde a sagacidade, a argúcia, o estro
dos cantadores realizam prodígios; com os romances tradicionais, as xácaras, as
modas e toda essa abundante riqueza lírica de portentosa imagética. E quanta
riqueza no folclore infantil — rodas, cantingas, jogos, parlendas e não sei
quantas formas de brinquedos, que Alexina de Magalhães Pinto colecionou em livro
admirável, digno de reedição para ser usual em nossas escolas, bem como o das
professoras Mariza Lira e Leonor Posada. E os autos e danças dramáticas? O
formidável bumba-meu-boi, boi-bumbá no Pará o mais belo e mais completo bailado
brasileiro, em torno do boi, um dos grandes animais folclóricos do mundo e
com enorme papel social e econômico no Brasil; os espetaculares congos negros,
os fandangos, barcas e marujadas, rememorando a história tráfico-marítima
lusitana; os tapuios e caiapós, reminiscências ameríndias; os bailes pastoris,
os pastoris pernambucanos, os ternos e ranchos de Reis baianos, esses últimos do
ciclo do Natal — e isso para citar apenas alguns.
Mas, se deixarmos a literatura oral e vamos à etnografia tradicional, que
encontram material a aguçar nosso interesse e a exigir nossa atenção. As bonecas
e bruxas de pano, que Cecília Meireles coleciona com tanto amor: as famosas
rendas do Nordeste; as figuras de proa das barcaças do rio São Francisco; as
loucinhas de barro, que fizeram o encanto de minha meninice da Semana Santa,
quando eram vendidas na cidade de Nazaré, na Bahia; as figuras de presepe; as
redes e objetos de pescaria; as flores de pano, papel e penas; os objetos de
osso e chifre; as roupas e chapéus de couro, em sua toda a produção popular de
fundo tradicional e feita sem recursos de técnica, pelas mãos grosseiras mas
habilidosas da nossa gente do povo.
Eis o campo imenso rico e variado de nosso folclore, através de alguns exemplo.
O interesse que vem despertando é enorme, embora não se deva confundir folclore
com essa intensa produção popularesca, mas urbana que invade os rádios. Um samba
de morro será folclórico, mas uma composição de Ary Barroso ou Dorival Caymmi
jamais o será, ainda que possam ser construídas sobre motivos folclóricos. Assim
como o folclore é uma fonte inspiradora de grandes artistas, Villa-Lobos ou
Portinari, é natural que inspire também, talvez com mais forte razão, os autores
popularescos de marca urbana, Catulo da Paixão Cearense foi um grande poeta
popularesco, mas não foi um cantador como Fabião das Queimadas ou Inácio
da Catingueira, que andaram na porfia poética, pelo sertão nordestino afora,
carregando ondas de lirismo tradicional, a que juntavam a sua contribuição para
se perder no fluxo anônimo das vozes poéticas do povo.
Estudemos o nosso folclore com amor e entusiasmo e estudemos nós, professores,
para ensiná-lo aos nossos alunos como uma das revelações profundas da alma
brasileira.
(Almeida, Renato de. "Os professores e o folclore". O Jornal. Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1948)
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