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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Almanaque
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Os professores e o folclore, por Renato Almeida

Geografia e tradições populares, por Manuel Diégues Junior

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Os professores e o folclore

Renato de Almeida

Deveríamos ensinar, em nossas escolas normais, às futuras professoras, os meios de discriminar para utilização na escola, os elementos folclóricos. Em cada jogo, em cada história, em cada cantiga é necessário aproveitar o que se ensina, ou mesmo gravar no espírito da criança as constantes tradicionais do nosso povo.  Não se lhes deve falar em monstros, em gestos de bandoleiros, em superstições ou magia, nem em coisa que lhe possam excitar a imaginação ou criar temores, mas no que for intrutivo e agradável, no que contribuir para amar mais ao país e a melhor conhecer os seus aspectos ou tiver condições educacionais. A gradação dos meios folclóricos utilizáveis seria uma propedêutica a ensinar e retificar com a prática.

E, se interessarmos o folclore no ensino, os seus estudos é que muito lucrarão, não só pelo entusiasmo e vocações que vão despertar, como pela cópia incomensurável de informantes que mobilizará, germinando uma magnífica florada, cuja antecipação emociona qualquer folclorista. Mas, antes mesmo que se adotem oficialmente quaisquer providências para esse fim, poderão as nossas professoras primárias ministrar nos recreios nas canções, nos brinquedos, nas histórias, nos trabalhos manuais, nas festas escolares, elementos folclóricos, de sorte a despertar na juventude, desde os bancos primários, o amor às artes populares. Creio que assim serviríamos bem ao Brasil, aflorando os mistérios das lendas e das tradições de sua gente.

Há ainda a considerar o índio e, se uma grande parte de suas atividades se prendem à etnografia, muitas delas podem, devem e têm de ser estudadas folcloricamente, já que se incorporam aos fatores tradicionais das artes e dos costumes populares. Além da parte de muitos, de contos, de mágica, da contribuição ameríndia, temos de considerar dois elementos: o decorativo, que se revela sobretudo na indumentária, penas, colares, cocares, tudo garrido e alacre; e o misterioso, que traduz certos característicos temperamentais dos silvícolas e ou são conservados como sobrevivências (principalmente na magia) ou são imitados, nesse perpétuo esforço nacional de indianismo.

A indumentária indígena é uma sedução constante e vemos hoje, nos congos, por exemplo, que é um bailado essencialmente negro, os figurantes pretos usando vistosos cocares. O misterioso está no caboclo desconfiado, como acontece sempre em todas suas danças dramáticas, ou no elemento mágico, que se revela na pagelança, no catimbó ou no candomblé de caboclo. A proporção que os ritos negros vão do Rio de Janeiro para o norte sofrem o sincronismo de elementos indígenas, até aquele primeiro culto, puramente nativo, de base zoolátrica, pois não são evocadas as deidades africanas, ou os mestres catimbozeiros, mas os bichos fabulosos, a cobra grande, a mãe do lago ou a jacaretinga.

Nesse particular, do índio no folclore, há um grande esforço a realizar, mesmo porque os românticos deformaram patrioticamente o indígena e ainda não fizemos (embora haja inestimáveis contribuições, coletâneas preciosas e alguns trabalhos notáveis de exegese), um estudo sistemático, bastando recordar, como recentemente observou, na Comissão Nacional de Folclore, dona Heloísa Torres, que "a própria linguística de nossos aborígenes está por estudar, a fim de promover-se a perpetuação literária de formas de procedimento dos povos iletrados, que constituíram as populações primitivas do Brasil".

Se a UNESCO realizar, como se espera o Instituto Internacional da Hiléia Amazônica, ter-se-á aberto um novo e admirável campo experimental, onde etnografia e folclore poderão concluir uma tarefa extraodinária, uma melhor fixação do elemento tradicional ameríndio.

O nosso folclore é de uma grande beleza, com seus maravilhosos, de jurupari, o deus musical, que baniu o matriacardo e fez de suas trombetas tabus para as mulheres; do curupira, o tapuio de pés às avessas que protege as matas; do terrivel saci, negrinho de uma perna só, pulando que nem cotia e divertindo-se em pregar peças aos viajantes, com diabruras incríveis; do horrendo quibundo, meio gente e meio bicho, com um buraco nas costas, por onde come meninos; ou do coca, papão das crianças; com os desafios onde a sagacidade, a argúcia, o estro dos cantadores realizam prodígios; com os romances tradicionais, as xácaras, as modas e toda essa abundante riqueza lírica de portentosa imagética. E quanta riqueza no folclore infantil — rodas, cantingas, jogos, parlendas e não sei quantas formas de brinquedos, que Alexina de Magalhães Pinto colecionou em livro admirável, digno de reedição para ser usual em nossas escolas, bem como o das professoras Mariza Lira e Leonor Posada. E os autos e danças dramáticas? O formidável bumba-meu-boi, boi-bumbá no Pará o mais belo e mais completo bailado brasileiro, em torno  do boi, um dos grandes animais folclóricos do mundo e com enorme papel social e econômico no Brasil; os espetaculares congos negros, os fandangos, barcas e marujadas, rememorando a história tráfico-marítima lusitana; os tapuios e caiapós, reminiscências ameríndias; os bailes pastoris, os pastoris pernambucanos, os ternos e ranchos de Reis baianos, esses últimos do ciclo do Natal — e isso para citar apenas alguns.

Mas, se deixarmos a literatura oral e vamos à etnografia tradicional, que encontram material a aguçar nosso interesse e a exigir nossa atenção. As bonecas e bruxas de pano, que Cecília Meireles coleciona com tanto amor: as famosas rendas do Nordeste; as figuras de proa das barcaças do rio São Francisco; as loucinhas de barro, que fizeram o encanto de minha meninice da Semana Santa, quando eram vendidas na cidade de Nazaré, na Bahia; as figuras de presepe; as redes e objetos de pescaria; as flores de pano, papel e penas; os objetos de osso e chifre; as roupas e chapéus de couro, em sua toda a produção popular de fundo tradicional e feita sem recursos de técnica, pelas mãos grosseiras mas habilidosas da nossa gente do povo.

Eis o campo imenso rico e variado de nosso folclore, através de alguns exemplo. O interesse que vem despertando é enorme, embora não se deva confundir folclore com essa intensa produção popularesca, mas urbana que invade os rádios. Um samba de morro será folclórico, mas uma composição de Ary Barroso ou Dorival Caymmi jamais o será, ainda que possam ser construídas sobre motivos folclóricos. Assim como o folclore é uma fonte inspiradora de grandes artistas, Villa-Lobos ou Portinari, é natural que inspire também, talvez com mais forte razão, os autores popularescos de marca urbana, Catulo da Paixão Cearense foi um grande poeta popularesco, mas não foi um cantador como Fabião das Queimadas ou Inácio da Catingueira, que andaram na porfia poética, pelo sertão nordestino afora, carregando ondas de lirismo tradicional, a que juntavam a sua contribuição para se perder no fluxo anônimo das vozes poéticas do povo.

Estudemos o nosso folclore com amor e entusiasmo e estudemos nós, professores, para ensiná-lo aos nossos alunos como uma das revelações profundas da alma brasileira.

 

(Almeida, Renato de. "Os professores e o folclore". O Jornal. Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1948)