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Agosto 2009 - Ano XI - nº 127


Sumário

Festança
Cabocleiro ou brinquedo de caboclo
José Renato Costa Pacheco

Cancioneiro
A doença do rico é a saúde do pobre
Jota Rodrigues

Imaginário
A lenda do frade e freira
Maria Stella de Novaes

Colher de Pau
A maior quituteira da Bahia
Deise Sabbag

Oficina
Outros pregões
C. D. A.

Palhoça
O gato
Laura Della Monica

Panacéia
Benzeduras catarinenses
Franklin J. Cascaes

 

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A lenda do frade e freira

Maria Stella de Novaes

Frade e Freira é o conjunto de dois rochedos, que se defrontam, num mesmo alcantil, como se fossem esculturas, de determinado plano, para representar as figuras de um monge e uma devota. Esta envolta num manto, em atitude contrita.

Maravilhosa disposição da natureza!

Encontra-se na estrada de rodagem "Vitória ao Rio de Janeiro", nos limites dos municípios de Rio Novo e Cachoeiro do Itapemirim, ponto de deslumbrante paisagem!

Sempre imaginoso, o povo batizou aquela beleza natural: Frade e Freira, e celebrizou o granito, numa das lendas mais belas e expressivos da terra capixaba. Lenda de amor cruciante e silencioso de uma silvícola. Lenda que, na verdade, é esta, agora descrita. Gira em torno de uma indiazinha e um missionário, com a maior pureza de sentimentos. Mesmo porque, somente no século XX chegaram as religiosas para o Espírito Santo — as Irmãs de Caridade, em Vitória. E os frades, no século XVI — os franciscanos, que se instalaram, igualmente na capital.

Uma lenda não pode incidir num anacronismo. Nem discrepar da história.

Vejamos:

Encontram-se dois seres humanos, quando as matas cobriam ainda com toda exuberância, o solo da Capitania. Ele, no vigor da juventude, para voltar-se, fervoroso à catequese dos silvícolas, certa vez, na beleza e inocência de uma goitacá, descobriu o sentido da vida, que se irradiava de um olhar apaixonado!

Algo estranho os conduz a descerem às praias de Benevente. Andaram, até as brenhas do futuro Rio Novo.

Sobem...

Ele descreve e exalta as verdades evangélicas e a grandeza do amor divino.

Ela coberta com um manto, parecias as figuras da Virgem, vistas na igreja. Apaixonada, crente na força de Tupã, arrasta-o naturalmente à contemplação do ocaso, do belo, descortinado além, do alto do monte. Incapaz de compreendê-lo, (ora... Deseja que ali permaneçam, longe, bem longe das criaturas!)

Guerra a plenitude ao amor!

Ajoelha-se!

Então, forte, curvado, perante o dever, o missionário procura abençoá-la e erguê-la para retornarem o caminho da aldeia. Sentem, porém, um fragor, na montanha.

Ela exclama: — Tupã!

E, ali, permanecem soterrados.

No decorrer do tempo, à mexida que se erguiam, misteriosas, no cimo do monte, as esculturas de granito, foram morrendo as árvores, que deixavam, descobertos, dois bustos simbólicos naturais, decantados, posteriormente pelos vates capixabas, fixados pelos artistas e admirados pelos que transitam, na estrada de Cachoeiro de Itapemirim ao Rio Novo.

É um quadro grandioso quando o sol doura a figura do Frade ou na fúria das tempestades, a fronte do rochedo surge iluminada, pelos clarões do relâmpago.

A chuva parece aumentar a tristeza da Freira!

(Novaes, Maria Stella de. "A lenda do frade e freira". Jornal do Comércio, 16 de dezembro de 1962)

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