Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2008 - Ano X - nº 115


Sumário

Festança
Ciriri de Mato Grosso
Rossini Tavares de Lima

Cancioneiro
Peleja de Laurindo Gato com Marcolino Cobra Verde
João Martins de Ataíde

Imaginário
A mulher da malota
Veríssimo de Melo

Colher de Pau
Como se janta na Amazônia

Oficina
O pescador de pirarucu
Laís Tostes Belo da Silva e Asená de Barros Ramos

Palhoça
O fiado no folclore

Panacéia
Das rezas e das mandigas da lua
A. Seixas Netto

 

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A mulher da malota

Veríssimo de Melo

Contaram-me esta história de assombração, que mais me parece uma crítica do povo às modas exageradas de hoje em dia:

"Uma noite, um caminhão viajava numa estrada escura do sertão. Em certo ponto, aparece uma mulher sozinha, com uma malota, fazendo sinal para que o chofer parasse o veículo. O chofer parou e ela pediu passagem até perto de uma fazenda.

– Pegue a malota dessa senhora e bote lá em cima, disse o chofer para o ajudante. E a ordem foi cumprida. Mas, quando o ajudante pegou na maleta, com uma mão só, foi mesmo que nada. A malotinha nem se abalava. Ele pegou com as duas mãos e nada, nada.

Outro homem desceu do caminhão e disse:

– Será que você não pode com esta malota?

E foi pegando. E que dê força para levantar a maleta? Botou também as duas mãos e nada, nada. O chofer impaciente, censurando a falta de força dos homens, saltou do carro e pegou na maleta. Quem foi que disse que a maleta saiu do canto? Pesava mais do que trezentas toneladas de chumbo.

Então, a mulher, vendo que ninguém podia com a maleta, saltou e falou:

– Então deixe que eu boto. (E com uma só mão pegou a maleta, como quem pega uma pena, e colocou no caminhão).

Continuaram a viagem. Os homens estavam impressionados com o peso da maletinha. Afinal, chegou no ponto combinado e a mulher pediu pra saltar. O carro parou. A mulher pegou a maleta e desceu, calmamente. E o chofer, não resistindo a curiosidade perguntou:

– Mas me diga uma coisa, dona: O que é que a senhora leva dentro dessa maleta?

A mulher respondeu:

– Perna raspada, sobrancelha arrancada, unhas pintadas, braços nus e vestidos decotados.

E dizendo isto desapareceu num segundo.

Era uma alma do outro mundo. Os homens ficaram assombrados, de boca aberta. O chofer ligou de primeira força e abriu no mundo. Adiante, veio a saber, numa fazenda, que não era a primeira vez que a mulher da maleta aparecia por aquelas estradas.

E desde este dia o chofer nunca mais parou o caminhão, pra ninguém, por aqueles lados."

(Melo, Veríssimo de. "A mulher da malota". A República, 11 de julho de 1948)

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