O primeiro registro do ciriri como dança de adultos foi feito por Max Schmidt, no livro Estudos de etnologia brasileira, em 1900. Dizia ele então, que é uma dança muito apreciada no Mato Grosso. Dançava-se ao relento por elementos da população escura. "Como não se dispunham de mais instrumentos, cobriram-se algumas cadeiras com couro, à guisa de tambores, e os pratos fizeram de caracaxi (reco-reco), em que tocavam ritmicamente por meio de garfos". Havia "muitas variações e os movimentos eram cada vez mais rápidos, principalmente no fim, quando os dançarinos já não vinham em par e sim cada um de per si". No decorrer da dança, os participantes cantavam quadras assim:
Me mandaram esperar
Na tranqueira do capim:
Esperei, desesperei,
Quem quer bem não faz assim.
Fui andando pela rua
Fui tomar o meu café,
Encontrei uma papuda
Tinha o papo macumbê.
Lá em cima daquele morro
Tem um pé de alfavaca,
O homem que não tem rede
Dorme no couro de vaca
Em 1942, Gabriel Pinto de Arruda, no artigo Um trecho do Oeste Brasileiro, também refere-se ao ciriri dizendo: "Dança de homens e mulheres. Um dá início à dança, ao som de canto rápido e apropriado, acompanhado do bater contínuo, com um banquete de mocho de madeira ou forrado de couro. Com um lenço preso entre os dedos da mão direita ou sem ele, revoluteia no meio daquele círculo imóvel, geralmente no terreiro da casa, cantando e fazendo os mais variados requebros. Depois de cantar e dançar, ajoelha-se rápido ou fazendo com a cabeça um cumprimento para um dos circunstantes, convidando-o para dançar. Este, então, sai e assim prossegue a dança, acompanhada de cachaça a noite inteira."
Pouco depois, mencionando o acompanhamento de violas, Francisco Brasileiro escreve que o ciriri é uma dança típica cuiabana e a descreve: "... abre-se uma clareira que é ocupada por um único dançarino, que improvisa sapateado. Aproxima-se de um dos circunstantes e com uma mesura tira-o para dançar, voltando para o seu lugar. Palmas e canto. Simples quadrinhas de versos amáveis":
Alecrim verde arrancado
Chora a terra em que nasceu,
Como não hei de chorar
Um amor que já foi meu.
Afinal, através do nosso informante, Joaquim Damasceno Silva, natural de Caceres, no Estado de Mato Grosso, tivemos a oportunidade de conhecer a variante dessa cidade. Ela obedece à organização de fileiras frente a frente, colocando-se de um lado os homens e do outro as mulheres.
O acompanhamento é feito com tambor e reco-reco, e os tocadores desses instrumentos se colocam no centro da fileira dos dançadores. Para começar a dança, os homens, ao som do instrumental, e fazendo-se acompanhar de palmas, cantam o baixão em "si, lai lai lai". Logo, terminado este, um cantador joga uma quadrinha, que não demora a ser repetida por todos. E com os instrumentos a tocar, o bater de palmas, um e outro dançador saem a procurar as damas, e com estas eles vêm num dançar cadenciado e sambado, sem lhes tocar as mãos, até o lugar de onde partiram. As damas, então, procuram outros dançadores e dessa maneira prossegue o ciriri, descrito pelo nosso informante, o qual lembra, nos passos, o samba lenço de São Paulo. Deve-se registrar que as damas ou cavalheiros que não dançam, ficam a balancear.
Recordando o ciriri, o nosso informante cantou estas quadrinhas:
Ciriri de Mato Grosso
Veio prá esta capitá
Tomá parte no folcrore
Porque é dança nacioná.
Marrequinha da lagoa
Tuiuiu do pantaná
Marrequinha pega o peixe
Tuiuiu já vem tomá.
Não temos dúvida em dizer que o ciriri talvez seja uma modalidade de samba e esta quadrinha vem comprovar o nosso ponto de vista:
Ciriri, gambá ô lé
Ciriri, gambá ô lé
Desaperte o meu culete
Que eu quero é sambá.
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