Na Paraíba do Norte
entre Curato e Batalha
morava Laurindo Gato
cantador de profissão
foi ele o melhor poeta
que andou o alto sertão
Quando afinava a viola
para tocar um baiano
seu repente era seguro
no martelo era tirano
nunca foi repreendido
nem sequer por um engano
Marcolino Cobra Verde
um cantador do sertão
tendo ido à Paraíba
em casa dum seu irmão
ouviu de Laurindo Gato
a fama de sabichão
Marcolino Cobra Verde
na minha casa cantou
com o tal Laurindo Gato
das suas mãos apanhou
eu vou dizer mais ou menos
como o caso se passou
Eu cantei no Maranhão
depois cantei no Curato
quando fui à Paraíba
passei em vila de "Pato"
por uma casualidade
encontrei Laurindo Gato
Quando a notícia espalhou-se
que eu tinha ali chegado
que com o Laurindo Gato
havia me encontrado
foram fazer um enredo
na casa do delegado
Era o capitão Chico
o mais rico do lugar
o qual mandou-me um bilhete
mandando então me chamar
para com Laurindo Gato
em sua casa cantar
Eu para lá botei
às quatro horas da tarde
dizendo com os meus botões
meu lombo hoje é quem arde
e nas unhas daquele Gato
eu hoje viro covarde
Assim que lá eu cheguei
o Laurindo já estava
a casa cheia de gente
que há tempo me esperava
para ver daquela vez
de nós dois quem apanhava
Eu entrei desconfiado
fui tirando o meu chapéu
tinha moça nesta sala
que só estrelas no céu
e mais o chefe de polícia
Capitão Pedro Minéu
Laurindo estava decente
parecia um bacharel
de jaquetão e gravata
no dedo um bonito anel
trazia mais dois cunhados
Pedro Zumba e Rafael
Todos ali já diziam
que eu levava uma carreira
porque Laurindo Gato
não era de brincadeira
cantador na unha dele
bancava na capoeira
Então o povo da sala
que estava ali ouvindo
fizeram logo um cota
jogaram tudo em Laurindo
ele estava tão contente
que chegou a ficar sorrindo
Então disse dona Amália
uma menina bonita
quem ganhar esta porfia
recebe um laço de fita
um lindo buquê de flores
e um beijo de Rosita
Quando falaram no beijo
eu fiquei desconfiado
porque a tal moça era
sobrinha do delegado
eu disse: este negócio
não fica bem pra meu lado
Também dos dois quem perder
a guela não estando rouca
no mesmo instante recebe
um lindo beijo na boca
do marmanjo Pedro Zumba
com o seu bigode de sopa
Tinha tocado seis horas
naquela reunião
me deram para cear
uma fatia de pão
e deram a Laurindo Gato
cabidela com feijão
Eu tirei minha viola
Laurindo tirou a sua
a dele toda bonita
e a minha feia e nua
eu disse com meus botões
a volta hoje aqui é crua
M - Amigo Laurindo Gato
desculpe minha expressão
eu sabendo que você
tem a fama de valentão
vou tirar sua bravura
na sola do cinturão
L - Você já vem insultando
sem conhecer meu valor
eu lhe aviso como amigo
se não é bom cantador
começa a cantar na sala
termina no corredor
M - Eu estou acostumado
lá em cima no sertão
tirar o couro de gato
espichar ele no chão
apertar o rabo dele
forçando comer sabão
L - Pode ser muita verdade
tudo quanto o senhor diz
pois da nossa consciência
cada um mesmo é juiz
na terra que eu não vou
feijão bota na raiz
M - Marcolino Cobra Verde
no lugar onde se assanha
nunca temeu cantador
qualquer um que vem apanha
como vai comer um gato
leprento que come aranha
L - Eu já peguei uma cobra
que andava em meu roçado
mordendo os trabalhadores
acabando com o meu gado
matei e tirei o couro
fiz dela um cinto empolado
M - Só pode acreditar isto
quem a você não conheça
muito embora suas frases
para mim valor mereça
o gado que bem possuis
é piolho na cabeça
L - Se quiser acreditar
vamos a minha fazenda
ver tudo quanto eu possua
muito gado e uma venda
grande fazenda de gado
e de ferreiro uma venda
M - Tu és um rapaz bem rico
eu vi uma ocasião
enterrando uma fortuna
encostado a um paredão
todos sabem o que o gato
enterra sempre no chão
L - Deixe de ser tão afoito
sujeito mal educado
eu hoje pego-te aqui
dou-te um surrote danado
depois te boto no tronco
tens de morrer amarrado
M - Eu entrando no teu bucho
com dois minutos eu te mato
faço o que faz o anum
quando pega o carrapato
juro que na tua vida
nunca mais pegarás rato
L - Mas eu possuo sete fôlegos
não poderás me vencer
brigo contigo três dias
tu tens de raiva morrer
e garanto Cobra Verde
que não hás de me morder
M - Marcolino Cobra Verde
me conheça por patrão
o nó que eu der com o pé
não desatas com a mão
se quiseres vamos ver
se sou verdadeiro ou não
M - Pode vir quando quiser
gato leproso amarelo
hoje tens de conhecer
o peso do meu cutelo
da tua cara hei de dar
com a sola do chinelo
L - Marcolino Cobra Verde
você está enganado
eu sou homem de riqueza
meu nome é bem ilustrado
gente assim de sua igualha
trabalha no meu roçado
M - Eu sei que você é rico
desde o tempo de solteiro
tem uma grande fortuna
e também é fazendeiro
com as galinhas dos outros
que vais roubar no poleiro
M - Eu dou-te um surrote
gato desgraçado
te deixo espichado
lastimando a sorte
desde o Sul ao Norte
te ouvem miar
hoje nesta sala
ficando sem fala
tu tens de apanhar
sem poder andar
L - Se eu te pegar
amarro e contendo
tiro-te o veneno
mando-te queimar
e depois de botar
os teus pés eu puxo
boto para fora
Cobra Verde chora
já se acaba o luxo
M - Se pegar um gato
uma faca eu amolo
capo ele esfolo
sacudo no mato
não come mais rato
janta tapuru
chegando urubu
faz dele um guisado
Gato condenado
do rabo suru
L - Cobra desgraçado
não faça vergonha
pudim de peçonha
quarto derrengado
serás açoitado
todo mundo vendo
estás esmorecendo
de tanto apanhar
cuide em te calar
animal horrendo
L - Eu canto martelo
não tenho rival
e tu és igual
a um pinto nuelo
eu hoje te pelo
não deixo um canhão
te boto no chão
arranco a moela
quebro-te a costela
rasgo o coração
M - Eu hoje te agarro
covarde bandido
sujeito atrevido
no focinho escarro
tu comes catarro
dizendo: é canjica
te meto a tabica
nesse cabelouro
arranco-te o couro
sujeito marica
L - Eu pego uma cobra
sendo verde assim
dou-lhe logo fim
ela assim não logra
pois minha manobra
qualquer um conhece
e quem vem padece
neste mau rojão
se não for valentão
comigo enlouquece
M - Gato assim leprento
comigo não pode
corto-te o bigode
bicho rabugento
vai morrer, nojento
deitado na linha
neto da murrinha
aqui não cochila
filho da quizila
ladrão de cozinha
L - Pego um cantador
desta qualidade
dou sem piedade
seja com que for
ele diz: senhor
não me mate agora
o perdão implora
sem poder falar
e hás de chorar
muito nesta hora
L - Agora quero saber
se é homem de ciência
porque tua cantinela
não tem nenhuma cadência
quero que digas ligeiro
M - Por exemplo uma criança
que ainda vive a mamar
não conhece mal e o bem
nem tampouco sabe andar
passando os dias somente
a sorrir e a chorar
L - Agora quero que digas
teu talento quero ver
o que é que quem não tem
também não deseja ter
e quando tem só procura
é lutar pra não perder
M - Laurindo lá vem você
com esta adivinhação
já disse torno a dizer
e seguro o meu rojão
isto que querer saber
afirmo ser a questão
L - Vou perguntar outra coisa
e julgo que mal não faz
se responder acredito
no teu talento rapaz
o que a mulher tem na frente
e o homem carrega atrás?
M - O que a mulher tem na frente
isto é muito singular
apenas a letra M
que no homem vai findar
repare bem com cuidado
com certeza há de encontrar
M - Laurindo você agora
responda o que perguntar
vou dizer uma toada
para você desmanchar
quem rapa ripa sorrindo
rindo a ripa há de ripar
M - Você pra cantar comigo
vá pra escola Laurindo
está mangando de ti
o povo que está ouvindo
rindo a ripa há de ripar
quem rapa a ripa sorrindo
L - Meu amigo Cobra Verde
o seu cantar é perfeito
eu sei que nesta peleja
estou perdendo o conceito
repita isto outra vez
porque não ouvi direito
M - Hoje estou vendo que isto
você não quer decorar
eu vou dizer outra vez
ouça e não deixe passar
quem rapa a ripa sorrindo
rindo a ripa há de ripar
L - Agora sim Cobra Verde
foi que pude decorar
a toada que me deste
vou depressa desmanchar
quem rompe a roupa sorrindo
roupa ripa há de ripar
Ali o povo da sala
caiu numa gargalhada
capitão Pedro Minéu
chamou a sua afilhada
para abraçar Cobra Verde
por ter vencido a parada
Também chamou Pedro Zumba
com sua boca de ninho
e disse a Laurindo Gato
sem amor e sem carinho
venha cá cabra de peia
receber o seu beijinho
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