O sertanejo é homem prático. Talvez tenha sido o flagelo da seca a maior influência na sublimação daquele seu predicado. Não apenas a seca, mas também o excesso de chuva, prejudicando tudo, arrombando açudes, destruindo casas e arrastando animais nas águas do rio que se encheu subitamente. Os contrastes fizeram com que ele sofresse muito. E do sofrimento ficou a boa lição de encarar a vida através de um sentido profundamente prático. Gosta de fazer as suas experiências. Conta com luxuoso acervo de conhecimentos adquiridos por maneira direta, isto é, ninguém lhe disse isso ou aquilo para adotar como dogma, foi preciso sentir e tirar pessoalmente as conclusões e, porque ande por caminhos assim, conseguiu amealhar um bocado do que chama por modo singelo — "coisas da vida".
Entre estas vale apenas mostrar como se conduz em certas emergências. O homem do sertão tem fortes propensões patriarcais. A sua família é sempre numerosa. Os tipos varonis da casa não são olhados com maior interesse. Ou melhor: seguem a rotina do estudo, quando podem, educando-se fora do lar. E a maioria fica no comércio da fazenda de gado e algodão. Mas o mesmo não ocorre com as filhas-moças. Esta constituem permanente cuidado do chefe no que se refere à existência fora do lar. Esse negócio de liberdade excessiva não foi feito para as donzelas. Os homens, vá lá; as mulheres, não. Demais o olho fiscalizador da dona da casa não permite que as meninas fiquem abanando as mãos sem nenhuma ocupação doméstica. Têm que se ocupar em alguma coisa prática — e material.
Assim é como se vive. E um dia se sabe de namoro de fulana com sicrano. A notícia chega aos cochichos, um tanto medrosa, até que os pais tomam conhecimento do caso, continuando, entretanto, a fingir que tudo ignoram. Porém o desfecho terá de vir. E vem. Na festa do galo o pretendente manda aviso por pessoa amiga, prevenindo das suas intenções, as quais serão materializadas com protocolar visita, o pedido e o desafogo. Muito bem. No dia marcado — e que pode ser ainda nos festejos de São João, São José ou Nossa Senhora do Rosário — o candidato se apeia de seu cavalo arreado, no terreiro da fazenda, vestido de branco, todo engomado, bom rebenque e esporas tinindo. Dentro de casa o reboliço é grande. As moças se escondem. Ninguém quer aparecer, com vergonha. Então surge na porta de entrada o chefe da família e recebe o seu futuro genro com uns ares de cerimônia.
Mas as providências cautelosas já foram tomadas previamente. Dentro de dois dias só se comerá pato. Pato no almoço e pato no jantar. E às vezes pato até na ceia. Por que tanto pato capaz de empanzinar? Deve haver uma reação plausível. O motivo se resume nisto: o pato é tido como forte ou carregado — e quem tiver suas "reimas" que se agüente, pois que elas sairão do corpo com violência. Quem tiver sua dosagem de sífilis estará mal para passar [*]. E a experiência está lançada com o pretendente à mão da filha. Latagão de boa família, conhecido na redondeza como pessoa muito de bem, trabalhador e esperto, não manda fazer nada, é de seu costume ir mesmo fazer. Portanto, gente capaz, que serve, e sobre quem se pode ter saldo sensível de confiança. Mas o sangue limpo também se apresenta como principal. E daí o pato.
No dia seguinte à chegada do hóspede, já se sabe que há necessidade de acordar cedo, ir ver a gadaria no curral de vacas, apreciar a ordenha, visitar o chiqueiro das cabras, passar a vista nos cavalos — enfim, ficar senhor dos móveis e assentamentos da fazenda. Acontecendo não se levantar à hora aprazada, o futuro noivo, que ainda não fez o pedido, é porque o rapaz pelo menos está atacado de reumatismo súbito. Há mesmo sondagens a respeito. É necessário habilidade para não melindrar. E quando as conclusões são positivas, quando o caboclo tem mesmo sua sífilis, o consentimento não será dado, pode arranjar as malas e ir-se embora. Adeus, até nunca de tarde. O pato salvou a filha de futuros embrulhos perigosos.
Aliás, tudo depende do noivo. Quando ele se trata com vontade, ainda pode arranjar o casamento. Há, todavia, a possibilidade da fuga, a história dos ladrões de moça. O amor é muito fiscalizado pelo sertanejo que tem filhas para casar. Ele tem dado certo na maneira de viver como patriarca vigilante acordado como teteo da mata.
* É tradicional que o sertanejo tem o sangue limpo. As "reimas" sempre andavam mais pelas bandas do litoral. "Mas de alguns anos a esta parte, desde 1910, mais ou menos", e segundo depoimento de José de Alencar Parente, fazendeiro e criador na região do Piancó — "a sífilis entrou a figurar entre as graves doenças do sertão".
Principalmente depois que o "sorteio militar" foi estabelecido no país. Os rapazes, após o estágio nas cidades litorâneas, regressavam com o "corpo sujo", de modo que a medida do governo, entre outras razões, jamais foi olhada com simpatia pela gente sertaneja.
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