Um escriturário era uma homem pobre, padrão monetário equivalente a qualquer escriturário de hoje. Mas o emprego não constituía sinecura. Devia assinar o ponto à hora certa e recebia tarefa para entregar ao chefe de seção ao fim do dia.
Se era terceiro escriturário estava noivo ou recém-casado. Como segundo escriturário os filhos estavam na escola e todas as filhas estudavam piano. Tocar bem piano era uma das maneiras de ser da boa sociedade. Os pianos eram importados da França ou Alemanha: Bechstein, Pleyel, Stanway, Gerard. O escriturário fazia economias e alugava o piano. Pagava ao professor 30 mil réis por mês (três aulas por semana) para ver se a menina tinha vocação (além dos 10 mil réis do aluguel).
Se tinha vocação, ia mantendo o aluguel e "fazendo economias". Ao fim de três anos (25 mil réis, mais os 10 de aluguel) comprava o piano (900 mil réis).
Ainda não se imaginara o sistema de compra a prestações.
Desta necessidade de ensinar cada moça "a ter uma prenda", resultava que toda moça devia aprender a tocar piano e cada rapaz só aprenderia se tivesse vocação.
Quase todas as moças estudavam por imposição. E quase todas, quando casavam, traziam o piano como parte do mobiliário da casa.
As que aprendiam só para mostrar que eram "prestimosas", deixavam a música no primeiro mês de gravidez, e o piano era vendido "para auxiliar o parto".
As que tocavam por gosto continuavam no meio das vicissitudes, por toda a vida.
As que não se casavam continuavam a tocar com a janela aberta, na esperança de que se interessasse pela música, um espírito de artista que passasse pela calçada.
As que tocavam bem e não se casavam, faziam-se professoras de piano.
E as que eram realmente pianistas, como mais tarde Antonieta Rudge, Alice Serva, Magdalena Tagliaferro, Guiomar Novais, fizeram carreira.
Devido à divulgação do piano, ninguém atravessava a rua de bairro, desde o amanhecer até a hora do almoço, sem ouvir som de teclado. Desde o do-ré-mi, até Schubert, Chopin, Liszt, Brahms, Cezar Frank, Beethoven ou Bach.
Mas havia gente implicante.
A menina de sete anos dedilhava no vizinho, o do-ré-mi e o vem-cá-vitu? Não cessavam de esbravejar até a hora do almoço.
Se a mocinha defronte tocava variações sobre Chopin, irritavam-se "por aquele barulho". Se escutavam Bach, diziam que "a polícia devia proibir isto".
Em todo caso naquele tempo era possível percorrer a rua pela manhã, virar à esquerda, tomar à direita, sempre ouvindo música. Era, numa imagem audaciosa, algo como as Noites no jardins de Espanha, de Manoel de Falla. Só que era pela manhã. Com muito boa vontade, talvez fosse mesmo como Manoel de Falla. E creio que o era, pois, tantas vezes, pela manhã, fui acordando aos poucos, ao som do piano! Afinado, ou desafinado, pouco importa. Dó-ré-mi ou Bach, pouco importa. Era a aspiração remota da arte ou era arte. Mas era a parcela insignificante do infinito, que me cabia, e dentro do qual eu me sentia integrado.
Jangada Brasil © 1998-2007 | Termos e condições de uso