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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

A bela festa do Alardo

Guilherme Santos Neves

Dos festejos folclóricos em Conceição da Barra, atualmente o mais sério e constante é, sem dúvida, o Alardo — dramatização imponente de embaixadas e lutas entre mouros e cristãos, envolvidos em árduas pelejas pela posse da imagem de São Sebastião.

Durante meses, as figuras do Alardo ensaiam a sua parte na festa, concertando os golpes e contra-golpes das lanças e alabardas, espadas e adagas; preparando, com especial cuidado e carinho, as suas vestimentas de seda azul — os cristãos — e encarnada — os mouros, escolhendo e espichando o couro dos tambores das duas facções; limpando e lustrando as velhas carabinas de pólvora seca; fazendo bordar os dois belos pavilhões — um azul, com a cruz de prata ao centro e com franjas prateadas; o outro — vermelho, com o crescente e a estrela em amarelo-ouro ao centro, e também franjado e vistoso.

Os dois embaixadores — cristão e mouro — as mais importantes figuras do Alarde — decoram a sua longa fala ou embaixada, onde pontilham frases de atrevida arrogância; também os dois capitães procuram guardar na memória, para os momentos patéticos do drama, a resposta altiva que devem dar ao embaixador das hostes inimigas.

Nas vésperas da grande festa, arma-se, no campo fronteiro à igreja, a fortaleza moura, enfeitada e ampla e, no meio do campo, separando os arraiais dos dois bandos, enorme arco de bambus com bandeiras.

Tudo isso leva tempo, consome dinheiro, e prende meses a fio quase inteiramente, a atenção desses valorosos homens, empenhados na reconstituição da tradicional festa do Alardo.

E no dia marcado, lá estão eles, compenetrados, sérios e solenes, desenvolvendo garbosamente, aos olhos curiosos e brilhante do povo, aos olhos da sua gente — todas as impressionantes peripécias do Alardo; a "tomada das figuras", a reverência cristã a São Sebastião, e a luta que se desdobra em variados lances, todos eles agressivos e com tal sensação de realidade, que não se sabe como não se decepam uns aos outros, nas cutiladas violentas, aqueles bravos soldados de Deus e do Islã...

Luta-se no campo de batalha, luta-se em frente à igreja, luta-se nas ruas da mimosa cidade, luta-se durante a procissão dos santos. Afinal, são vencidos os mouros e, subjugados, prostram-se reverentes e submissos ante o padre, para o "batismo final".

A população não aplaude as cenas do Alardo, não bate palmas a vitória da falange azul; mas, — sente-se — acompanha com vivo interesse, com mal contida emoção e entusiasmo, os cristãos e os mouros no desempenho fiel da sua parte na dramatização empolgante. E esse entusiasmo, essa emoção e interesse do povo pelo desenrolar do Alardo, bem como a louvável compreensão das autoridades eclesiásticas e municipais e que dão alento e força aos figurantes do drama, e os animam a virem à rua todos os anos representar o Alardo, em louvor e honra do glorioso São Sebastião.

Boa gente essa de Conceição da Barra, gente que compreende e sabe aquilatar a necessidade e importância desses festejos tradicionais, estimulando-os, por todos os meios, como real e firme garantia da continuidade e preservação do patrimônio cultural que tais festas representam.

Que belo passo daria o nosso Espírito Santo no sentido dessa defesa e salvaguarda, se, governo e povo de todos os municípios capixabas prestigiassem, com o seu apoio e aplauso — como se faz em Conceição da Barra com o Alardo, e na Serra com a Puxada do Mastro — os velhos e tradicionais folguedos do povo tantos deles, infelizmente, já estão esquecidos e mortos.

 

(Neves, Guilherme Santos. "A bela festa do Alardo". Correio Trabalhista. Vitória, 22 de janeiro de 1951)

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