Festança
A bela festa do Alardo
Guilherme Santos Neves
Cancioneiro
Folclore guasca e açoriano
Cecília Meireles
Imaginário
Yacy taperê, diabo menor
Ruth Guimarães
Colher de Pau
Adendo sobre boas maneiras à mesa
R. C. M.
Oficina
Rendas na ilha de Santa Catarina
Dorálécio Soares
Palhoça
Pianos (1901)
Jorge Americano
Panacéia
Experiência de saúde
Ademar Vidal
Dos festejos folclóricos em Conceição da Barra, atualmente o mais sério e constante é, sem dúvida, o Alardo — dramatização imponente de embaixadas e lutas entre mouros e cristãos, envolvidos em árduas pelejas pela posse da imagem de São Sebastião.
Durante meses, as figuras do Alardo ensaiam a sua parte na festa, concertando os golpes e contra-golpes das lanças e alabardas, espadas e adagas; preparando, com especial cuidado e carinho, as suas vestimentas de seda azul — os cristãos — e encarnada — os mouros, escolhendo e espichando o couro dos tambores das duas facções; limpando e lustrando as velhas carabinas de pólvora seca; fazendo bordar os dois belos pavilhões — um azul, com a cruz de prata ao centro e com franjas prateadas; o outro — vermelho, com o crescente e a estrela em amarelo-ouro ao centro, e também franjado e vistoso.
Os dois embaixadores — cristão e mouro — as mais importantes figuras do Alarde — decoram a sua longa fala ou embaixada, onde pontilham frases de atrevida arrogância; também os dois capitães procuram guardar na memória, para os momentos patéticos do drama, a resposta altiva que devem dar ao embaixador das hostes inimigas.
Nas vésperas da grande festa, arma-se, no campo fronteiro à igreja, a fortaleza moura, enfeitada e ampla e, no meio do campo, separando os arraiais dos dois bandos, enorme arco de bambus com bandeiras.
Tudo isso leva tempo, consome dinheiro, e prende meses a fio quase inteiramente, a atenção desses valorosos homens, empenhados na reconstituição da tradicional festa do Alardo.
E no dia marcado, lá estão eles, compenetrados, sérios e solenes, desenvolvendo garbosamente, aos olhos curiosos e brilhante do povo, aos olhos da sua gente — todas as impressionantes peripécias do Alardo; a "tomada das figuras", a reverência cristã a São Sebastião, e a luta que se desdobra em variados lances, todos eles agressivos e com tal sensação de realidade, que não se sabe como não se decepam uns aos outros, nas cutiladas violentas, aqueles bravos soldados de Deus e do Islã...
Luta-se no campo de batalha, luta-se em frente à igreja, luta-se nas ruas da mimosa cidade, luta-se durante a procissão dos santos. Afinal, são vencidos os mouros e, subjugados, prostram-se reverentes e submissos ante o padre, para o "batismo final".
A população não aplaude as cenas do Alardo, não bate palmas a vitória da falange azul; mas, — sente-se — acompanha com vivo interesse, com mal contida emoção e entusiasmo, os cristãos e os mouros no desempenho fiel da sua parte na dramatização empolgante. E esse entusiasmo, essa emoção e interesse do povo pelo desenrolar do Alardo, bem como a louvável compreensão das autoridades eclesiásticas e municipais e que dão alento e força aos figurantes do drama, e os animam a virem à rua todos os anos representar o Alardo, em louvor e honra do glorioso São Sebastião.
Boa gente essa de Conceição da Barra, gente que compreende e sabe aquilatar a necessidade e importância desses festejos tradicionais, estimulando-os, por todos os meios, como real e firme garantia da continuidade e preservação do patrimônio cultural que tais festas representam.
Que belo passo daria o nosso Espírito Santo no sentido dessa defesa e salvaguarda, se, governo e povo de todos os municípios capixabas prestigiassem, com o seu apoio e aplauso — como se faz em Conceição da Barra com o Alardo, e na Serra com a Puxada do Mastro — os velhos e tradicionais folguedos do povo tantos deles, infelizmente, já estão esquecidos e mortos.
