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Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Folclore guasca e açoriano

Cecília Meireles

Dois acasos felizes colocam nas minhas mãos o Cancioneiro guasca, de João Simões Lopes Neto — obra que, embora impressa ainda em 1928, parece já raridade — e o Cancioneiro popular açoriano coligido pelo poeta micaelense Armando Côrtes-Rodrigues.

Sobre este cancioneiro açoriano haveria muito a dizer, considerando que nele se encontram cantigas de todo o arquipélago, discriminadas ilha por ilha. Mais ainda haveria a dizer sobre o seu autor, um dos mais finos poetas da língua portuguesa que apenas a fatalidade do Atlântico conserva, como a outros valores literários, um pouco fora do nosso alcance.

Infelizmente, o cancioneiro ainda não está impresso senão até a letra C -— de acordo com a ordem alfabética adotada na classificação das quadras. Mas, ainda assim, essa parte, que por cortesia do autor nos foi dado conhecer, abrange oitocentas e quarenta e seis cantigas açorianas, cujo confronto com as do Cancioneiro guasca é bastante curioso, sobretudo se recordarmos as antigas relações do Rio Grande do Sul com os Açores, pelos caminhos da emigração.

Muitas cantigas açorianas existem naturalmente, também, nos cancioneiros do continente, como muitas destas cantigas guascas figuram no cancioneiro geral do Brasil. Mas, como todos sabem, à medida que uma cantiga popular vai caminhando, sofre modificações de tempo e lugar — salvo os raros casos em que se estabiliza como indestrutível — e a aproximação das versões açoriana e guasca é o que ora pretendemos fazer, sem nenhum propósito imponente — apenas para pôr em contato gaúchos e açorianos, e recordar sua estirpe lírica, ainda vibrante.

Das quadras comparadas, a mais fielmente repetida é a que Simões Lopes Neto registrou assim:

Aqui tens meu coração
E a chave para o abrir;
Não tenho mais que te dar
Nem tu o que me pedir.

A versão da Ilha Terceira reza:

Aqui tens meu coração
E as chaves para o abrir;
Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.

Como costuma acontecer freqüentemente, um ciclo de cantigas se desenvolve sobre o motivo desses dois primeiros versos. Mesmo no Cancioneiro popular açoriano vem registradas quatro, das quais a mais bela, sem dúvida, é esta, da ilha de São Miguel:

Aqui tens meu coração,
A chave para o abrires,
A c´roa para c´roares,
A seta para o ferires.

* * *

Lê-se no Cancioneiro guasca:

As estrelas do céu correm
Todas elas, carreirinhas;
Assim correm os amores
Das tuas mãos para as minhas.

A cantiga-tipo desse ciclo parece a que se canta no continente:

As estrelas do céu correm
Todas numa carreirinha;
Assim corresse a fortuna
Das mãos de Deus para a minha.

Em termos mais sentimentais, além da canção guasca já transcrita (com uma interessante confusão no segundo verso), se encontram estas duas versões também açorianas, a primeira da ilha de Santa Maria, a segunda da ilha de São Jorge:

1
As estrelas do céu correm
Todas numa carreirinha;
Assim corressem as prendas
Da tua mão para a minha.

2
As estrelas do céu correm
Todas numa carreirinha;
Assim corressem os beijos
Da tua boca na minha.

* * *

Pertence à ilha de São Miguel esta versão:

Amar e saber amar
São dois pontos delicados:
Os que amam não têm conta,
Os que sabem, são contados.

E ao cancioneiro guasca:

Amar e saber amar
São dois pontos delicados:
Os que amam são sem conta
Os que sabem, são contados.

* * *

São também quase imperceptíveis as diferenças entre estes dois exemplos, o primeiro da ilha do Pico, o segundo do Cancioneiro guasca:

1
Até onde as nuvens giram
Vão meus suspiros parar,
E tu, tão perto de mim
Sem me ouvires suspirar.

2
Até onde as nuvens giram
Vão meus suspiros parar;
E tu, tão perto de mim,
Não me ouves suspirar!

Os quatros exemplos seguintes, extraídos do Cancioneiro popular açoriano, provém da ilha de São Miguel:

1
Atirei uma laranja
À porta da sacristia,
Deu na prata, deu no oiro,
Deu no amor que eu queria.

2
A rosa tem vinte folhas,
O cravo tem vinte e uma;
Anda a rosa em demanda
Por o cravo ter mais uma.

3
A laranja quando nasce,
Nasce logo redondinha;
Também tu, quando nascente,
Logo foi para ser minha.

4
Amor de perto é querido,
De longe, mais estimado;
De perto me causa pena,
De longe, pena e cuidado.

As quatro quadras correspondentes, no Cancioneiro guasca, vem a ser estas:

1
Atirei um limão verde
Por cima da sacristia;
Deu no cravo, deu na rosa
Deu na moça que eu queria.

(Convém notar que Sílvio Romero tinha coligido no Rio Grande do Sul esta variante: "Atirei um limão verde / Lá detrás da sacristia: / Deu no ouro, deu na prata, / Deu na moça que eu queria.")

2
A rosa tem vinte folhas,
O cravo tem vinte e uma;
Andam os dois em demanda
Porque a rosa quer mais uma.

3
A laranja quando nasce,
Nasce logo redondinha;
Tu também quando nasceste
Nasceste para ser minha.

4
Amor de perto é querido,
De longe mais estimado;
De perto me causa pena,
De longe, maior cuidado.

* * *

Por um rápido exame, o leitor perceberá que, nas quadras apresentadas a seguir, já se acentuam as diferenças entre as versões açorianas e as suas correspondentes guascas. Nos dois primeiro exemplos, o sentido mantém-se fiel, mesmo quando haja versos diferentes e palavras substituídas. Da ilha de São Miguel:

Antes eu nunca te vira,
Nem em ti amor pusera;
Penas não padeceria
Se eu de ti nunca soubera.

Do Cancioneiro guasca:

Antes eu nunca te viste!...
Te visse e não te quisesse!...
Trabalhos não passaria
Se eu de ti nunca soubesse.

Ainda na ilha de São Miguel:

A fala, quando arrebenta,
Arrebenta pelo pé;
Assim arrebente a língua
De quem diz o que não é.

Do Rio Grande do Sul:

A açucena quando nasce
Arrebenta pelo pé;
Assim arrebenta a língua
De quem diz o que não é.

* * *

Às vezes, porém, um verso aparece alterado, que, sem prejudicar o conceito final da quadra, lhe modifica de algum modo a intenção, como nos dois casos seguintes. Da ilha de Santa Maria:

1
Aqui tens meu coração,
Se o quiseres matar bem podes;
Olha que estás dentro dele.
Se o matas, também morres.

Da ilha de São Miguel:

2
Amar e viver ausente,
Isso faz qualquer amante;
Amar depois de ofendido,
Só eu, porque sou constante.

Correspondentes, do Cancioneiro guasca:

1
Aqui está meu coração;
Pra matá-lo, pra que corres?
Olha que estás dentro dele...
Se me matas, também morres.

2
Amar e trocar amor,
Isso faz qualquer amante,
Amar depois de ofendido,
Só eu, porque sou constante.

* * *

Noutro exemplo, só um verso da quadra permanece inalterado. Da ilha de São Miguel:

A açucena co'o pé na água
Pode estar quarenta dias:
Eu sem ti nem uma hora,
Quanto mais noites e dias."

Do Rio Grande do Sul:

Alecrim metido n'água
Pode estar quarenta dias;
Um amor longe do outro
Murcha as suas alegrias.

* * *

Sílvio Romero tinha coligido no Rio Grande do Sul a cantiga: "Nas ondas do mar se cria / Rei dos peixes nadadores: / No mundo também se criam / Olhos pretos matadores". É a trova que o Cancioneiro guasca assim registra:

Nas ondas do mar se criam
Peixes que nadam bem;
Eu também estou me criando
Para regalo de alguém.

Apesar da fraqueza do segundo verso (devia ser "Peixinhos que nadam bem"), essa versão é mais fiel ao exemplo micaelense:

À beira da água se criam
Os peixinhos nadadores;
Também eu me estou criando
Para proveito de amores.

* * *

Curioso exemplo de alteração de estrutura é o que se passa com esta quadra da ilha de São Jorge:

A viola, sem a prima,
É como a filha sem pai;
Cada corda seu suspiro,
Cada suspiro seu ai.

Os dois primeiros versos, embora não em seguimento, se encontram em muitas versões, tanto em Portugal como no Brasil. Romero recolheu, no Rio Grande do Sul: "A viola sem a prima, / A prima sem o bordão, / Parece filha sem pai, / Corrida do seu irmão". Afrânio Peixoto registra uma variante: "A viola sem a prima, / A prima sem o bordão / Parece mãe sem filha / A irmã sem irmão." (O terceiro verso, naturalmente, deve ser "Parece mãe sem a filha", como se encontra no Cancioneiro de S. Simão de Novais, de J. Pires de Lima). Todas essas variantes de parentesco parecem decorrer do nome de prima dado à primeira corda da viola. E esta é a forma com que a quadra aparece no Cancioneiro guasca:

A viola sem a prima,
A prima sem o bordão,
Parece filha sem pai,
Ausente de seu irmão.

Finalmente, chega-se a um interessante exemplo de fragmentação, com esta quadra de São Miguel:

As águas são corredias,
Correm por baixo do chão;
Por ditoso te acharias
Bebendo-as da minha mão.

Por certo aprumo de linguagem e sua dupla rima, tem-se a tentação de julgar a quadra como de origem culta. Seja como for, já Romero registrara uma versão gaúcha dessa cantiga, levemente deformada: "Águas claras, correntias, / Correm por baixo do chão; / Por ditoso me daria / Beber água da tua mão." No Cancioneiro guasca, porém, a quadra se apresenta assim:

Águas claras, correntias,
Passam por baixo do chão;
Abre-te, peito adorado,
Quero ver teu coração.

Não apenas se fragmentou a quadra; por um fenômeno de justaposição, ligou-se a dois versos que provêm de um ciclo de cantigas portuguesas encontradas no continente, e de que um dos mais belos espécimes é o que diz: "Abre-te, campa adorada, / Minha amada quero ver; / Quero beijar o seu rosto, / Antes da terra o comer."

* * *

Aproveitamos, finalmente, este exemplo, para apreciar um caso de sobrevivência folclórica de um único verso inicial, ou seja, o início de um ciclo de trovas pela constância do primeiro verso. É a quadra de São Miguel, que diz:

Ausente do bem que adoro,
Não tenho gosto de nada;
Na solidão em que vivo,
Somente o choro me agrada."

A quadra correspondente, no Cancioneiro guasca, é a seguinte:

"Ausente do bem que adoro,
Meu amor não faz mudança;
Quanto mais ausente vivo,
Mais o trago na lembrança."

Como nota final a estes breves apontamentos, é interessante observar que, na sua maioria, os exemplos confrontados pertencem à ilha de São Miguel. E não se pode deixar de lamentar que uma obra tão importante como esse cancioneiro, organizado por Armando Côrtes-Rodrigues, grande poeta e apaixonado cultor das tradições açorianas, tenha sido interrompida, — oxalá por pouco tempo — privando-nos de uma fonte de estudo comparativo que é ao mesmo tempo uma fonte de encantamento lírico, pela beleza que caracteriza a poesia popular açoriana, e especialmente a de São Miguel.

 

(Meireles, Cecília. "Folclore guasca e açoriano". Província de São Pedro. Porto Alegre, Livraria do Globo, nº 6, 1947, p.7-10)

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