Era um costume antigo firmar-se uma cruz — um cruzeiro, dizia-se — nos pontos das estradas em que houvesse ocorrido algum fato impressionante, doloroso ou trágico: morte súbita de algum viajante, desastre fatal, assassinato, visão de almas do outro mundo etc.. E o transeunte, que divisava o sinal augusto da fé, descobria-se. Raramente omitia uma prece. Rezava pelo repouso eterno do finado, ou para que Deus perdoasse a alma penada, responsável pela assombração. Quando mais fervoroso, apeava-se, para concentrar-se na Reza da cruz:
Arreda de mim, satanás
Que tu, em mim, não terás paz
No dia de Santa Cruz
Cem vezes me ajoelhei
Cem vezes me levantei
Cem vezes disse Jesus
Cem vezes beijei a cruz
Cem Ave Maria rezei
E reduzia tudo, de cem à unidade — uma genuflexão, um beijo, uma Ave Maria.
Encontrava-se, ainda o cruzeiro, num cômoro fronteiro à casa-grande de algumas fazendas, ou na encosta, à sentinela de uma vila ou cidade. Recordava, então, a passagem do diocesano, ou de missionários, em seus trabalhos apostólicos. Era o cruzeiro das Missões. Ainda em 1911, ergueram-se desses cruzeiros em Vila Velha, Argolas e outros lugares visitados pelos missionários lazaristas, entre os quais se encontrava o padre Pedro Rocha, fervoroso orador sacro.
Segundo relato pessoal e notas que tivemos o ensejo de compulsar, o padre Francisco Pimenta — o padre mestre dos velhos capixabas — um missionário que, durante doze anos percorria toda a diocese em trabalhos apostólicos, ergueu muitos cruzeiros que assinalavam as missões pelo interior do estado.
As cruzes indicavam, igualmente, pontos envoltos em mistérios ou lendas, como, por exemplo, a que existia no caminho para a fazenda de Santo Antônio, hoje bairro adiantado, na cidade de Vitória; e a cruz de Muribeca, lendária, que remontava à retirada repentina dos jesuítas. Assinalava um lugar assombrado.
A cruz de Santo Antônio indicava o sítio em que foi encontrado o cadáver de um padre muito respeitado pelas suas virtudes e que vinha celebrar a santa missa na cidade. Em sua memória, pessoas devotas colocaram ali uma cruz, substituída sempre, quando estragada pelo tempo. Assim, a 3 de maio de 1876, alguns estudantes reunidos mandaram preparar uma grande cruz, enfeitaram-na, depois de benzida pelo padre Bermudes de Oliveira, na capela do hospital da Misericórdia, e transportaram-na, com música e cânticos, até o lugar acima referido. Registra a imprensa que "a banda de música do São Francisco, ou Caramuru, acompanhou o préstito, sem moleques e negras".
Foi escolhido o dia 3 de maio, porque dedicado à exaltação da santa cruz. E tornou-se tradicional a romaria. A 3 de maio de 1886, por exemplo, os alunos da Escola Noturna da Maçonaria foram, com a banda de música, levar capelas de flores naturais para serem colocadas na cruz da fazenda Santo Antônio. Era a homenagem promovida pelo senhor Aleixo Neto.
Pelo interior do estado, muitas vezes, junto às cruzes dos caminhos, almas piedosas levantavam pequenos santuários que podiam mesmo substituí-las ou conservá-las. E, conforme o registro dos velhos jornais, existiam cruzes nas esquinas de certas ruas na cidade de Vitória. Indicavam pontos para a reza do terço, devoção promovida pela irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos que, no primeiro domingo de cada mês, saía em procissão, cantando solenemente o rosário cujos mistérios se contemplavam, assentando-se o andor, na calçada, perante uma das cruzes referidas. Em 1885, o arcipreste da província proibiu essa devoção que entrava noite a dentro e se desviava do seu piedoso fim, em conseqüência de abusos e desordem.
Representavam ainda essas cruzes, os passos visitados na via sacra, às dezessete horas, nas sextas-feiras da quaresma e que os irmãos terceiros da Penitência faziam, conduzidos pelo guardião do São Francisco.
Encontravam-se igualmente as cruzes dos caminhos, nas ladeiras extensas que alcançavam santuários ou conventos. Representavam, então, os sete passos de Jesus, numa sublime evocação do drama do Calvário. Assim, em Nova Almeida, Saint Hilaire observou sete pequenos oratórios, consagrados à tradicional devoção, notícia confirmada no Relatório da viagem ao norte da província, realizada em 1859, pelo presidente Pedro Leão Veloso, que lamentava a sua destruição.
Conhecemos ainda o registro das cruzes nos caminhos em documento firmado pelo festejado cronista padre Antunes de Sequeira, relatando visita feita ao santuário da Penha. É um testemunho valioso para a história do monumento querido de todos os capixabas. Logo junto à praia, indicando o início da romagem da fé, o padre encontrou uma cruz. Ao lado estava o nicho para o quadro da Virgem.
Continua o nomeado autor: "Nas voltas das ladeiras, que procuram a ilharga da montanha, mas fácil ao acesso, notam-se postadas cruzes, em número de sete, e que representam os sete passos dolorosos da paixão de Cristo, tendo, por termo, no fim da última, o do Calvário, onde se observa uma capelinha consagrada ao Senhor Bom Jesus daquele monte, cuja imagem entregue ao maior desalinho, ali se acha coberta de desprezo, em um altar carcomido, levantado no fundo, entre paredes úmidas, solo asqueroso e ameaçando ruína pela larga fenda que se prolonga da cimalha da pequena nave até o meio da parede que mira o alto da montanha."
Registra ainda que outrora, nessa capelinha, ouviram-se cânticos de igreja no dia consagrado à invenção da santa cruz.
As cruzes da ladeira da Penha, que representavam os passos de Jesus, foram desaparecendo com o tempo, mas até 1928 existia ainda uma, no vão do muro que se comunicou depois com a estrada de rodagem. Era o "ponto dos namorados", porque formava pequena clareira, onde em bancos improvisados nas pedras, os romeiros descansavam, merendavam e os jovens programavam suas núpcias e o seu futuro.
Além de atestar uma devoção tradicional da terra capixaba, a visão da cruz nas voltas da ladeira da Penha despertava nos romeiros um sentimento sublime de contrição e confiança, preparando-lhes o espírito para o fervor da oração perante o altar da padroeira do Espírito Santo. É o que nos relata o cronista dos Costumes do povo Espírito Santense.