Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Abril 2006 - Ano IX - nº 89


Sumário

Festança
Serração do velho e malhação de Judas
Valdemar Valente

Boi-na-vara
Doralécio Soares

Reza de índio é festa. Festa de índio é reza

Cancioneiro
O Senhor crucificado
Guilherme Santos Neves

Romance do boi da Mão de Pau
Fabião das Queimadas

A formosa tapuia

Imaginário
O famaliá
Saul Martins

O credo
Ruth Guimarães

Cobra é o diabo!
Gustavo Barroso

Colher de Pau
Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas
Yves d'Evreux

Bebidas
Renato Almeida

Adagiário de compensação
Valdemar Valente

Oficina
Cestaria
Donald Pierson

Como se pisa o tabaco; do granido e em pó; e como se lha dá o cheiro
André João Antonil

O vaqueiro
Euclides da Cunha

Palhoça
O carro musical
Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher

Passadores, porteiras e cancelas
Souza Barros

Proteção: a faca de bainha e a garrucha
Donald Pierson

Panacéia
O cólera e as procissões
Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher

Superstições
Wilson de Lima Bastos

Cruzes nos caminhos
Maria Stela de Novais

Veja o que foi publicado em Palhoça
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Palhoça
Textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Passadores, porteiras e cancelas

Souza Barros

Nem sempre os cercados sertanejos têm porteiras ou cancelas. No sertão, distingue-se a cancela da porteira. As primeiras são feitas de madeira semi-lavrada e emalhetadas entre si, depois montadas em um mourão, de maneira um pouco inclinada, para procurar, por gravidade, um outro mourão chamado de batente ou batedor. O primeiro mourão chamado de suporte. Os mourões servem também de estacas de estica para as cercas, sobretudo quando se faz uso de arame. As porteiras de curral são constituídas mais por mourões furados, a diversas alturas, e encimados por uma trave superior "emechada" aos mesmos. Pelos furos correm varões de lado a lado, formando, assim, a porteira. Os varões são chamados, geralmente, de tramelas ou ferrolhos. Às vezes, há um terceiro pau, também chamado batedor, que evita a passagem completa das tramelas, tornando a abertura da porteira mais reduzida.

Os passadores, passos, passagens, saltadores substituem, em geral, as porteiras e cancelas, nos cercados e cercas de menor uso, ou mesmo, por medida de economia. Quando as cercas são altas, os passadores são duplos, ou seja, com degraus em ambos os lados. Exceto em cercas de pedras, por serem fáceis de galgar, usa-se passadores em todos os outros tipos.

Os passadores são construídos, em certas zonas, por forquilhas, aos pares, de um lado e de outro da cerca. Estas forquilhas recebem travessões de uma para outra, formando os degraus. Nos locais onde são colocados passadores, as cercas são "aparadas" mais regularmente e com algum rebaixo, para facilitar a colocação da passagem. Os passadores ficam sempre em passagens ou caminhos que vão dar a cacimbas e locais de trabalho. Evita-se, como já dissemos, não só o custo elevado da fabricação de porteiras ou cancelas, como o perigo de crianças ou pessoas inadvertidas deixarem-nas abertas, o que daria oportunidade aos animais de penetrarem nas lavouras. Alguns passadores são armados em posição vertical, por se usar um só par de forquilhas, com vários ganchos, para receber os paus de través; mesmo assim, mulheres com potes à cabeça, ou com trouxas de feijão ou lençóis de algodão galgam esses passadores.

Todos os cercados para animais, os revezos e mangas, ou mesmo os cercados menores para apartamento, possuem porteiras ou cancelas. Pode-se distinguir, assim, que estas últimas são mais destinadas ao trânsito de animais, enquanto que os passadores e saltadores são recursos de passagens para o homem, com a preocupação de conservar sempre fechadas as cercas, afastando o perigo de penetração dos animais, nas lavouras ou campos cercados.

As porteiras menores são também conhecidas pro batedores.

Os passadores se denominam também passadiços, passagens, passos, saltadores. As designações, como sempre, diferem de uma zona a outra, significando, às vezes, uma mesma coisa ou apresentando pequenas variantes.

As porteiras de varões, de mourão furado, são chamadas também porteiras corrediças ou simplesmente corrediço, ou, ainda, pau corrido ou porteiras de correr. Existem também as de repiniquete e de vaivem.

Em certos municípios, chama-se caramujo ao tipo de passagem em S, ou de volta, para evitar a saída dos animais. Em Triunfo, dá-se a esse tipo de passador o nome de zigue-zague e em Pesqueira, de viola. Também se chama, nesse último município, cancelas de pião com viola, às cancelas de prumo, ou sejam àquelas que apoiam uma das hastes de segurança sobre uma estacota fincada ao chão, servindo de suporte para o giro da porteira.

As porteiras são feitas, comumente, de madeira lavrada (cancela), pau-a-pique, varas, varões (porteiras de correr), travancos batidos, pau-em-pé, de tábuas, de paus e arame esticado em esquadrias e de paus comuns.

As diferenciações por município, quanto a essas designações, podem ser aqui enumeradas, não só como indicação de um mesmo tipo com outros nomes, como atentando na variação dos tipos existentes:

Porteiras e cancelas: de pau-a-pique, pau-em-pé, em Exu e Salgueiro; de travancos batidos, em Salgueiro e Serra Talhada; de mourão e pau corrediço, em Petrolina; de vara, de tábua, de caibro, de volta, em Petrolândia; cancela de pau corrido, em Parnamirim; cancela comum, em Floresta; porteira de correr, em Pesqueira; porteira de mourão furado, em Bodocó; cancela de pião e viola, em Pesqueira; cancela de abrir, com gonzos, em Petrolina; porteira de pau-apique, em Salgueiro; passadiço, passos e saltadores, em Pesqueira e Manissobal; passagem, em Pedra e Jatinã; saltador, em Salgueiro e Jatinã; escada, passador, em Buique; gancho, em Petrolina; travessa e passagem, em Petrolina; caramujo, em Alagoinha; passador, em Parnamirim, Salgueiro, Pesqueira, Pedra, Custódia, Manissobal, Serrita e Triunfo.

(Souza Barros. Cercas sertanejas; Traços ecológicos do sertão pernambucano. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1959 (Os cadernos de cultura, 117), p.55-58)

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