Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Boi-na-vara

Doralécio Soares

Eis como Apolinário Porto Alegre, que assistiu à realização deste habitualismo na ilha de Santa Catarina, na localidade de Saco dos Limões, o descreve:

"Imaginem um comprido varejão forte e grosso, mas flexível, tendo seis ou sete metros de lonjura e talvez enterrado quase um metro pela extremidade mais cheia e robusta, para ficar firme no solo. Da outra extremidade pende um laço bem atado que vem prender-se às guampas dum boi escolhido, como capaz de luta. No meio do varejão há uma figura de homem em tamanho natural, feita de panos e trapos. Quando o cornígero preso estica o laço, tentando desprender-se, a vara curva-se e o boneco como que fica suspenso e ameaçador sobre sua cabeça. O boi, que o vê, arremete contra ele, e a vara volta à posição vertical, levando consigo o boneco. Aquele recua de novo, este torna ainda à segunda posição. E repetem-se assim as mesmas cenas, enfurecendo por fim a alimária, a ponto de às vezes rebentar as prisões, atirar-se em todas as direções, investindo contra o povo que cai até dentro d'água".

No município de Araquari, ao se prender o boi à vara, armam-se vários laços, a fim de se evitar a sua evasão. Em São José, à cauda do animal se amarrava uma lata, e formava-se um semicírculo de batedores de latas para irritar o boi.

Os dois bois-na-vara que presenciamos não tinham o boneco-espantalho e a alimária era irritada com um pau.

O folguedo se realiza até o completo esgotamento do animal, quando, então, matam-no e repartem a sua carne entre os participantes da brincadeira.

As outras brincadeiras de boi, como boi-no-campo, boi-no-mato, boi-no-arame etc., têm a mesma finalidade.

Pelo que expomos, chegamos às seguintes conclusões:

1. Este habitualismo é de procedência açoriana, pois só se efetiva em lugares que sofreram direta ou indireta,ente a colonização insulana.

2. A sua realização se dá, unicamente, em lugares onde o açoriano e seus descendentes se tornaram agricultores (caso da orla litorânea catarinense), pois, onde se tornaram pastores (no Rio Grande do Sul, para exemplificar), as "brincadeiras de boi" não são conhecidas.

 

(Soares, Doralécio. Folclore brasileiro: Santa Catarina. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Funarte, 1979, p.32-33)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005