Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Abril 2006 - Ano IX - nº 89


Sumário

Festança
Serração do velho e malhação de Judas
Valdemar Valente

Boi-na-vara
Doralécio Soares

Reza de índio é festa. Festa de índio é reza

Cancioneiro
O Senhor crucificado
Guilherme Santos Neves

Romance do boi da Mão de Pau
Fabião das Queimadas

A formosa tapuia

Imaginário
O famaliá
Saul Martins

O credo
Ruth Guimarães

Cobra é o diabo!
Gustavo Barroso

Colher de Pau
Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas
Yves d'Evreux

Bebidas
Renato Almeida

Adagiário de compensação
Valdemar Valente

Oficina
Cestaria
Donald Pierson

Como se pisa o tabaco; do granido e em pó; e como se lha dá o cheiro
André João Antonil

O vaqueiro
Euclides da Cunha

Palhoça
O carro musical
Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher

Passadores, porteiras e cancelas
Souza Barros

Proteção: a faca de bainha e a garrucha
Donald Pierson

Panacéia
O cólera e as procissões
Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher

Superstições
Wilson de Lima Bastos

Cruzes nos caminhos
Maria Stela de Novais

Veja o que foi publicado em Colher de Pau
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Colher de Pau
Textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Adagiário de compensação

Valdemar Valente

A alimentação, com suas diversas maneiras de ser atendida incluindo-se entre aspectos da cultura material, de certa forma pode-se enquadrar no sistema da Medicina de folk, uma vez que também se orienta por idéias, princípios e práticas da sabedoria popular.

O folclore alimentar abrange não só as comidas cíclicas — aquelas que se ligam a certas fases do ano, quase sempre correspondendo a períodos de colheita — mas os quitutes dos dias de festa, a culinária regional, vinculada a quadros de integração ecológica, com seus tipos característicos de alimentos. Alimentos típicos do sertão, da praia ou da zona de influência da cana-de-açúcar, por exemplo.

No folclore brasileiro, especialmente nordestino, o adagiário de compensação, que integra rica gíria dietética, capaz de provocar água na boca da gente faminta das áreas subdesenvolvidas, merece lugar de destaque. Entre as expressões populares, impregnadas de sabor e cheiro de comida, representadas por adágios, ditados e anexins, algumas merecem ser lembradas pela significativa função social que desempenham, pelo seu forte poder de comunicação. Estão neste caso:

Quando pobre come galinha, um dos dois está doente
Goiaba em beira de estrada ou está verde, ou está bichada
Em terra onde não há carne, espinha de peixe é lombo
Laranjeira carregada na beira da estrada ou a laranja é azeda, ou tem casa de marimbondo
Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém

Certas expressões populares muito correntes reforçam a lingüística inspirada nos alimentos. Por exemplo: "é canja" ou "é sopa", indicando coisa fácil. "Café pequeno", para coisa insignificante. "Um abacaxi", isto é, uma coisa difícil. "Uma galinha morta", no sentido de coisa fácil. "Uma uva", para indicar uma bonita mulher. "De colher", na acepção de coisa fácil. "Farofa" e "farofeiro", como sinônimos de bazófia e bazófio ou bazofeiro (mentira e mentiroso). Também as expressões: "pão-pão", "queijo-queijo", "está no papo", "é na batata", "uma ova", "uns tomates", "uma paçoca". "Pega o pirão esmorecido" foi ditado muito espalhado no Recife na década de 1930.

(Valente, Valdemar. "Adagiário de compensação". Diário de Pernambuco, 02 de agosto de 1970, "Folclore e região")

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