A alimentação, com suas diversas maneiras de ser atendida incluindo-se entre aspectos da cultura material, de certa forma pode-se enquadrar no sistema da Medicina de folk, uma vez que também se orienta por idéias, princípios e práticas da sabedoria popular.
O folclore alimentar abrange não só as comidas cíclicas — aquelas que se ligam a certas fases do ano, quase sempre correspondendo a períodos de colheita — mas os quitutes dos dias de festa, a culinária regional, vinculada a quadros de integração ecológica, com seus tipos característicos de alimentos. Alimentos típicos do sertão, da praia ou da zona de influência da cana-de-açúcar, por exemplo.
No folclore brasileiro, especialmente nordestino, o adagiário de compensação, que integra rica gíria dietética, capaz de provocar água na boca da gente faminta das áreas subdesenvolvidas, merece lugar de destaque. Entre as expressões populares, impregnadas de sabor e cheiro de comida, representadas por adágios, ditados e anexins, algumas merecem ser lembradas pela significativa função social que desempenham, pelo seu forte poder de comunicação. Estão neste caso:
Quando pobre come galinha, um dos dois está doente
Goiaba em beira de estrada ou está verde, ou está bichada
Em terra onde não há carne, espinha de peixe é lombo
Laranjeira carregada na beira da estrada ou a laranja é azeda, ou tem casa de
marimbondo
Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém
Certas expressões populares muito correntes reforçam a lingüística inspirada nos alimentos. Por exemplo: "é canja" ou "é sopa", indicando coisa fácil. "Café pequeno", para coisa insignificante. "Um abacaxi", isto é, uma coisa difícil. "Uma galinha morta", no sentido de coisa fácil. "Uma uva", para indicar uma bonita mulher. "De colher", na acepção de coisa fácil. "Farofa" e "farofeiro", como sinônimos de bazófia e bazófio ou bazofeiro (mentira e mentiroso). Também as expressões: "pão-pão", "queijo-queijo", "está no papo", "é na batata", "uma ova", "uns tomates", "uma paçoca". "Pega o pirão esmorecido" foi ditado muito espalhado no Recife na década de 1930.