Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

A formosa tapuia

Formosa tapuia, que fazes perdida
Nas matas sombrias do agreste sertão?
As matas são frias e feias e tristes
Não queiras tão moça morrer de sezão

Não quero carinho, nas matas nasci
Se delas não gostas, não fiques aqui

Bem sabes que as matas são para as feras
Te digo deveras, não fiques aqui
Eu tenho um engenho, criado e riqueza
Eu tenho dinheiro e é só para ti

Não quero carinho, nem tenho ambição
Se nada preciso aqui no sertão

Tapuia, eu lhe peço, não percas fortuna
Porque eu tenho punho de versos de linho
Vamos pro porto tomar um conforto
Estreladas de doces, um copo de vinho

Não quero carinho, sou pobre tapuia
Não bebo no copo, só bebo na cuia

Se fosses comigo, pra minha cidade
Serias, tapuia, decerto feliz
Sapatos de couro, vestidos de seda
Adereços de ouro não são cousas ruins

Não quero carinho, teu ouro é falso
Meus pés não se estragam por viver descalço

Abasta, tapuia, não digas mais nada
Não tenho maldade, não fiques zangada
Passando o trabalho, serviço de roça
Podendo tão moça morar na cidade

Não quero carinho onde se nasce
Deus manda que a vida contente se passe

 

Versão colhida em Porto da Folha, SE.

 

(Em Lima, Jackson da Silva. O folclore em Sergipe; 1. Romanceiro. Rio de Janeiro, Livraria Cátedra; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.411-412)