Na pintura por exemplo, ficaram célebres as telas dos grandes mestres, que, com maior ou menor realismo, fixaram o sacrifício do Senhor. Basta lembrar o impressionante quadro de Mathaeus Grünewald, existente no Museu de Cassel, e ao qual Huysmans dedicou algumas páginas fortes do seu Là-Bas (Paris, 1922 p.9,15).
Na poesia culta, poetas de todas as épocas registraram, em versos, a cena do Calvário. Tomemos, ao acaso, um deles, o desconhecido Mosen Tallante, autor do século dezesseis. Na coletânea Floresta de rimas antigas castellanas (Hamburgo, 1827, p.8), encontramos uma poesia religiosa a ele atribuída e que assim começa:
"En los mas altos coufines
de aquel acerbo madero,
padeicia el soberano
culpas del padre primero
do fueron todas lavadas
en la sangre del cordero"
E mais adiante:
"Vuestros sacros piés y mano
puestos en clavos de acero
en vuestra santa cabeza
guirlanda de nuevo fuero
con setenta y dos merletes
no de flores de rosero
mas de agujas inventadas
de algum cruel carnicero"
E depois:
"Los arroyos de la sangre
arroyavam el terreno
de la Santa Cruz estaba
acuñada en el otero"
Também a poesia popular cantou, em termos simples mas expressivos, o suplício do Salvador. São trovas singelas, são cantiguinhas curtas, são romances versificados, são orações dolorosas, em que se pinta o quadro eterno.
Alguns desses versos lembram de perto a poesia do poeta quinhentista Mosen Tallante:
Vossa
divina cabeça
Croada de mil espinhos
Já correm rios de sangue,
De sangue correm os vinhos
Os vossos divinos olhos
Estão inclinados ao chão
Inclinai-os à minha alma,
Também ao meu coração
Vossos divinos joelhos,
Mais brancos que a neve pura
Já vertem rios de sangue
Pela rua da amargura.
Estes versos, que encontro no livro do ilustre folclorista português, Luís Chaves (Folclore religioso, Porto. 1954, p.179-180), deixaram rastros aqui no Espírito Santo.
Ali em Vila Velha, Vera Lúcia Fundão Pimenta e Ieda Magali Lacerda Santos Neves recolheram para mim a longa e bela oração dos Martírios do Senhor (já divulgada por A Gazeta, edição de 29-03-59), ouvida à velhinha dona Constância Barbosa. Nessa poesia popular há versos como estes, variantes dos que cita Luís Chaves:
Vossa santíssima cabeça
coroada de espinho...
*
Vossos santíssimos olhos
inclinados para o chão...
*
Vossa santíssima boca
bebeu fel da amargura...
*
Vosso santíssimo peito
trespassado com uma lança...
*
Vossos santíssimos joelhos
feridos, chagas abertas...
*
Vossos santíssimos pés
mais frios que neve pura
*
Era o sangue que corria
pela rua da amargura...
Eis o desenho, em versos do trágico espetáculo do Calvário onde se sacrificou um Deus que, há mil anos.
"Deu a vida na cruz,
Para nos remir e salvar"...
Como se vê, ambas as poesias — a culta e a popular — se encontram e semelham quando focalizam, com espanto e pesar profundos, o tremendo suplício do Cristo no alto da cruz.