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O Senhor crucificado

Guilherme Santos Neves

O tremendo drama do Calvário tal impressão causou ao mundo inteiro que serviu e continuam servindo de tema a várias manifestações artísticas na pintura, na escultura, na música, na literatura. Artistas de todos os tempos, de todas as escolas, de todos os gêneros, de todos os gostos focalizam em suas obras cenas da crucificação de Cristo.

Na pintura por exemplo, ficaram célebres as telas dos grandes mestres, que, com maior ou menor realismo, fixaram o sacrifício do Senhor. Basta lembrar o impressionante quadro de Mathaeus Grünewald, existente no Museu de Cassel, e ao qual Huysmans dedicou algumas páginas fortes do seu Là-Bas (Paris, 1922 p.9,15).

Na poesia culta, poetas de todas as épocas registraram, em versos, a cena do Calvário. Tomemos, ao acaso, um deles, o desconhecido Mosen Tallante, autor do século dezesseis. Na coletânea Floresta de rimas antigas castellanas (Hamburgo, 1827, p.8), encontramos uma poesia religiosa a ele atribuída e que assim começa:

"En los mas altos coufines
de aquel acerbo madero,
padeicia el soberano
culpas del padre primero
do fueron todas lavadas
en la sangre del cordero
"

E mais adiante:

"Vuestros sacros piés y mano
puestos en clavos de acero
en vuestra santa cabeza
guirlanda de nuevo fuero
con setenta y dos merletes
no de flores de rosero
mas de agujas inventadas
de algum cruel carnicero
"

E depois:

"Los arroyos de la sangre
arroyavam el terreno
de la Santa Cruz estaba
acuñada en el otero
"

Também a poesia popular cantou, em termos simples mas expressivos, o suplício do Salvador. São trovas singelas, são cantiguinhas curtas, são romances versificados, são orações dolorosas, em que se pinta o quadro eterno.

Alguns desses versos lembram de perto a poesia do poeta quinhentista Mosen Tallante:

Vossa divina cabeça
Croada de mil espinhos
Já correm rios de sangue,
De sangue correm os vinhos

Os vossos divinos olhos
Estão inclinados ao chão
Inclinai-os à minha alma,
Também ao meu coração

Vossos divinos joelhos,
Mais brancos que a neve pura
Já vertem rios de sangue
Pela rua da amargura.

Estes versos, que encontro no livro do ilustre folclorista português, Luís Chaves (Folclore religioso, Porto. 1954, p.179-180), deixaram rastros aqui no Espírito Santo.

Ali em Vila Velha, Vera Lúcia Fundão Pimenta e Ieda Magali Lacerda Santos Neves recolheram para mim a longa e bela oração dos Martírios do Senhor (já divulgada por A Gazeta, edição de 29-03-59), ouvida à velhinha dona Constância Barbosa. Nessa poesia popular há versos como estes, variantes dos que cita Luís Chaves:

Vossa santíssima cabeça
coroada de espinho...

*

Vossos santíssimos olhos
inclinados para o chão...

*

Vossa santíssima boca
bebeu fel da amargura...

*

Vosso santíssimo peito
trespassado com uma lança...

*

Vossos santíssimos joelhos
feridos, chagas abertas...

*

Vossos santíssimos pés
mais frios que neve pura

*

Era o sangue que corria
pela rua da amargura...

Eis o desenho, em versos do trágico espetáculo do Calvário onde se sacrificou um Deus que, há mil anos.

"Deu a vida na cruz,
Para nos remir e salvar"...

Como se vê, ambas as poesias — a culta e a popular — se encontram e semelham quando focalizam, com espanto e pesar profundos, o tremendo suplício do Cristo no alto da cruz.

 

(Neves, Guilherme Santos. "O Senhor crucificado" A Gazeta. Vitória, 09 de abril de 1963)
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