Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Abril 2005 - nº 77 - Ano VII


Sumário

Festança

Procissão de São Jorge
Thomas Ewbank

Dança de guerra dos tupinambás
Jean de Léry

A hospitalidade
José de Alencar

Cancioneiro

Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro
José Pacheco

A Rita Medeiros
Leonardo Mota

O folclore do papagaio
Zé Pingado

Imaginário

O roubo das flechas

A boiúna e o irapuru
Raimundo Morais

O castigo da ambição
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Geribita
Getúlio César

Batizar o vinho e o leite...
Guilherme Santos Neves

As saúdes de mesa
José Calasans

Oficina

Melhoramento dos gados
Miguel Calmon du Pin e Almeida

Calendário mandioqueiro
Carlos Borges Schmidt

Os homens da massa e do pão
Hildegardes Viana

Palhoça

Engenho Velho
Daniel Parish Kidder

Cerâmica marajoara
L. de Castro Faria

Os tupinambás conheciam os astros e as estrelas
frei Claude d’Abbeville

Panacéia

Superstições e o cuco papa-lagartas
Eurico Santos

Os curandeiros indígenas
Otto Willi Ulrich

Doença produzida pelo ar
José Pimentel de Amorim

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Os curandeiros indígenas

Otto Willi Ulrich

Os curandeiros gozaram e ainda gozam, ehtre as tribos indígenas, um prestígio espantoso. Suas funções — com ligeiras excepções, entre os indígenas da América do Norte — se resumem em funções religiosas e práticas médicas, sendo que, essas últimas, acompanhadas com danças, juramentos e cerimônias cabalísticas.

Os segredos e o ritual das cerimonias transmittiam de geração em geração com o maior sigillo.

Conhecem um sem número de tóxicos, de várias origens: animal, vegetal e mesmo mineral, cujo emprego escondem ciosamente.

Não é de causar assombro o prestígio que desfrutavam entre seus semelhantes. Esse prestígio que chegava, em certos casos, a verdadeiro pavor, justifica-se plenamente, pois eles sabiam preparar misturas, com certas ervas, que produziam os efeitos mais deploráveis: loucura, idiotia, paralisia, impotência, cegueira etc. Como não temer um homem que podia, a seu talante, espalhar males tão horríveis? Esse o segredo, a obediência cega que obtinham de toda a tribo.

Durante as cerimônias empregavam os objetos mais variados, tais como matracas, maças, taboinhas (semelhantes às castanholas) e vários amuletos, cada qual para um determinado fim. Com a matraca — para danças ou para magia — pretendiam tirar o “espírito mau” de dentro do corpo do paciente, por meio de exorcismos e danças, ao redor desse, que podiam durar horas a fio. Às vezes costumavam, além dessas práticas, acompanhar com flautas — de chifres ou de tíbias humanas, perfuradas convenientemente — ou então com verdadeiras “flautas de Pan”, secundadas por um canto monótono, inexpressivo.

Por meio dessas manobras, de verdadeira magia, sugestionavam com habilidade o doente e conseguiam, em diversos casos, obter resultados satisfatórios que, de outro modo, resultariam ineficientes. Afim de impressionar o paciente começavam a saltar e se agitar de modo frenético ante esses, pronunciando uma série de palavras e gritos sem significação, na língua deles próprios. Costumavam alguns curandeiros tomar, eles mesmos, medicamentos em vez de dá-los aos doentes: eram, nesses casos, quase sempre constituídos por narcóticos que os embriagavam totalmente.

O tabaco era a substância de maior emprego e servia para a cura de quase todas as moléstias. A região do corpo, em que se encontrava localizado o mal, defumavam, com grandes baforadas. Utilizavam-se para tal fim de cachimbos rústicos ou então de rolos de folhas trituradas de tabaco, envoltas por uma folha ainda verde, cujo conjunto pouco diferençava dos modernos charutos... Com esses, sopravam fumaça nos ouvidos, quando se tratava de dores nesse órgão, o mesmo fazendo com as queimaduras, dores no ventre, olhos inflamados, abcessos e todas regiões, em geral, onde surgia alguma dor. Sopravam tanto fumo sobre os pacientes que, por fim, estes adormeciam em verdadeiro torpor.

Com as mãos, era hábito fazerem movimentos diversos, em alguns dos quais simulavam segurar uma arma que pretendiam atirar sobre o corpo do doente. Feito isso, começa o curandeiro a fazer mil trejeitos e caretas, simulando apanhar, no ar, coisas invisíveis, que tenta empurrar, pelos olhos a dentro, dos pacientes. Começa então a última parte da cerimônia que consiste em libações, na maior parte dos casos, alcoólicas. Ora, como é notório, o álcool em pequenas porções é estimulante, pelo que, o estado geral do paciente recebe um estímulo e apresenta melhora, embora temporária. Isto é causa de assombro, pois os indígenas vêem nisso a manifestação do poder da magia dos feiticeiros que, não raro, devido a maior ou menor habilidade, chegam a usufruir maior prestígio que os próprios e caciques.

As tribos do Guaporé têm uma originalidade. Não se utilizavam de fumo, porém de rapé que obtinham pela moagem de folhas secas de tabaco e ministrado por um instrumento que consistia em um tubo terminado por um caroço, que escavavam e servia, como uma colher, para o deposito do rapé. Essa extremidade o curandeiro colocava dentro do nariz do doente e soprava pela outra. Isto trazia, em conseqüência, um acesso de tosse intenso. Na primeira consulta costumavam fazer cinco, ou mesmo seis, dessas aplicações que, via de regra, serviam para curar todo e qualquer mal.

Os curandeiros, na pequena cirurgia, serviam-se dos dentes de piranha e de outros peixes para as sangrias e a abertura de abcessos. Os dentes de peixe, bem afiados e fixados em uma casca de abóbora, serviam como lancetas, para a incisão da pele, provocando hemorragias locais com o intuito de descongestionamento das inflamações. Quando a hemorragia começava a ceder, o curandeiro aplicava sobre o local barro, fuligem, cinza ou então o suco de ervas bravas.

A sangria não é praticada apenas em indivíduos doentes, como também nos sãos, pois dizem ter a faculdade de “despertar a vitalidade”. Entre as tribos do Xingu é habito o curandeiro sangrar o rosto e os braços dos jovens que vão para a caça, para que possam atirar com firmeza e com bom golpe de vista.

É verdade que grande parte da terapêutica, usada entre os indígenas, não passa de charlatanismo, porém, não tudo. Algumas tribos, notadamente as do sertão brasileiro, conhecem o emprego exato das diversas plantas medicinais que se encontram em quase todas as regiões do sertão.

Em certos pontos os curandeiros chegaram a aperfeiçoamento tal, que os próprios civilizados hão de pasmar com certos métodos que empregam. Citarei um, para exemplo: Certa vez tive oportunidade de avistar-me com o curandeiro dos indios macás, do Chaco Paraguaio, perto do rio Pilcomayo, e que se chamava Vitatk-Lati. Trouxeram, para que examinasse, um indigena, já velho, sobre uma padiola de bambu. Pelo aspecto, parecia muito combalido. Vitak-Lati mandou que o pusessem à sombra sob a fronde de uma bela Chuihui e, durante bastante tempo, não fez o menor caso do doente. Por fim, exasperado por aquela indiferença, resolvi perguntar a Vitak-Lati sobre a causa que a motivava. Este, depois de algum tempo, disse: “Quando um doente é levado à consulta, a primeira coisa que faço é chegar junto de seu nariz, um punhado de pimenta moída de fresco. Se o paciente espirrar, há esperanças de cura e, se não espirrar, todas as tentativas para salvá-lo serão baldadas”. Assim fez, com o doente, que não espirrou... entregando-o à própria sorte e à fatalidade.

Alguns curandeiros tinham hábitos originais: podiam predizer a hora exata em que um doente gravemente iria falecer! Se acontecia não morrer nesse dia, era então estrangulado com uma fina corda de palmeira ou sufocado com cobertas, para que seu preságio não pudesse falhar...

Entre algumas tribos é comum o uso de brincos, cabendo aos curandeiros a tarefa de furar as orelhas, as narinas e os lábios. As tribus do Xingu usam como adorno, nos lábios e nariz, pedaços de quartzo e mesmo pederneira, ao passo que as do Norte empregam, de preferência, pedaços de bambu e pennas de araras, o que é quase regra entre os nhambiquaras.

Os curandeiros costumam perfurar os lábios das crianças ainda em tenra idade, não raro recém-nascidos e se utilizavam, para tal fim, de estiletes de osso, ricamente ornados com penas de garça ou de araras.

Antes de ser iniciada a operação, o curandeiro se põe a dançar e saltar, de um lado para outro, ou mesmo em torno do lactante, com trejeitos e, em uma das voltas em torno do paciente, perfura o lábio, com uma picada certeira.

O curandeiro possui, além dos conhecimentos médicos, outros sobre as almas do outro mundo e é a unica pessoa capaz de annular seu efeito maléfico. Somente ele vê e governa o espírito dos mortos que podem perambular, fazendo o mal ou então entrar no corpo de animais.

Os indígenas acreditam que a alma abandona o corpo, durante o sono, voltando novamente ao despertar. Era rigorosamente proibido despertar os adormecidos, pois acreditavam não poder o espírito voltar ao corpo, não voltando à vida o adormecido, pois acreditavam que logo ao dormir, a alma abandonava-o, para deitar-se em um local, às vezes distante, onde pudesse ficar à vontade.

Acreditam os indígenas que o curandeiro morre temporariamente, quando, após os exorcismos, cai em profundo sono, efeito de narcóticos ou bebidas alcoólicas. Julgam que sua alma, separando-se do corpo, perambula por todas as regiões, tudo vendo e observando, como se fosse em sonho. Os indígenas acreditavam, como verdade insofismável, em tudo aquilo que o curandeiro declarava ter visto em sonho, o que era o segredo de seu grande prestígio.

Muitos negócios e mesmo pequenas iniciativas ficavam na dependência direta da interpretação desses sonhos, sem que houvesse um único indígena capaz de desobedecer às injunções desses curandeiros...

Em certas tribos há um costume singular que consiste em guardar, cuidadosamente e com o máximo conforto, indígenas de outras tribos, portadores de perturbações mentais e paralisias. Vi esse costume entre várias tribos, assim, entre os barbados — indígenas que habitam o Alto-Paraguai — encontrei um esquizofrênico, um indígena dos parecis. Entre os guatos, no lago Uberaba, verifiquei a existência do índio Chiquito, portador de paralisia infantil e, entre os morés, nas margens do Guaporé, um índio mestiço, boliviano, com um estado de demência muito pronunciado.

Os indígenas tratavam esses doentes com o maior desvelo e atribuíam poderes milagrosos aos mesmos pois achavam que os portadores de perturbações mentais, assim se achavam, devido à influencia de um ou mais espíritos que entraram em seus corpos.

Os próprios curandeiros zelavam por eles de modo especial, reservando-lhes o melhor lugar em sua própria cabana, onde eram conservados, sob vigilância rigorosa, para que não fossem raptados por outras tribos, sendo essa guarda redobrada, quando migravam.

(Ulrich, Otto Willi. “Os curandeiros indígenas”. Revista Intercâmbio. Ano 4, nº1-3, janeiro-março de 1939, p.23-25)
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