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Ano VII - Edição 77
Abril de 2005
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Os tupinambás conheciam os astros e as estrelas

Claude d’Abbeville, frei

Poucos entre eles desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisfério; chamam-nos todos por seus nomes próprios, inventados pelos seus antepassados. Ao céu dão o nome de Eivac, ao sol coaraci, à lua de Jaceí. Às estrelas chamam de um modo geral, jaceí-tatá. Entre as que conhecem particularmente há uma que denominam Simbiare rajeiboare. isto é, maxilar. Trata-se de uma constelação que tem a forma dos maxilares de um cavalo ou de uma vaca. Anuncia a chuva. Há outra a que chamam urubu, a qual, dizem, tem a forma de um coração e aparece no tempo das chuvas. A outra dão o nome de seichujurá. É uma constelação de nove estrelas dispostas em forma de grelha e anuncia a chuva. Temos entre nós a Poussinière que muito bem conhecem e que denominam seichu. Começa a ser vista, em seu hemisfério, em meados de janeiro. e mal a enxergam afirmam que as chuvas vão chegar, como chegam efetivamente pouco depois. Há uma estrela a que chamam tingaçu e que é mensageira da precedente, aparecendo no horizonte quase sempre quinze dias antes. A outra, que surge também antes das chuvas, dão o nome de suanrã. É uma grande estrela maravilhosamente clara e brilhante. Existe por outro lado uma constelação de várias estrelas que denominam uènhomuã, isto é, lagostim; aparece ao terminarem as chuvas.

A certa estrela chamam os índios januare, cão. Émuito vermelha e acompanha a lua de perto. Dizem, ao verem a lua deitar-se, que a estrela late ao seu encalço como um cão, para devorá-la. Quando a lua permanece muito tempo escondida durante o tempo das chuvas, acontece surgir vermelha como sangue da primeira vez que se mostra. Afirmam então os índios que é por causa da estrela januare que a persegue para devorá-la. Todos os homens pegam então seus bastões e voltam-se para a lua batendo no chão com todas as forças e gritando, eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé cheramoin goé, “au, au, au, boa saúde meu avô, au, au, au, boa saúde meu avô . Entrementes as mulheres e as crianças gritam e gemem e rolam por terra batendo com as mãos e a cabeça no chão. Desejando conhecer o motivo dessa loucura e diabólica superstição vim a saber que pensam morrer quando vêem a lua assim sanguinolenta após as chuvas. Os homens batem então no chão em sinal de alegria porque vão morrer e encontrar o avô a quem desejam boa saúde, por estas palavras: — eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé cheramoin goé, au, au, au, boa saúde, meu avô, boa saúde. As mulheres, porém, têm medo da morte e por isso gritam, choram e se lamentam.

Conhecem também a estrela da manhã e chamam-na jaceí-tatá-uaçu, grande estrela. Dão à estréia vespertina o nome de pira-paném e dizem que é quem guia a lua e lhe vai à frente. Conhecem ainda outra estrela que se acha sempre diante do sol e lhe dão o nome de iapuicã, “sentada em seu lugar”. Com o início das chuvas perdem essa estrela de vista. Conhecem também o Cruzeiro, bela constelação de quatro estrelas muito brilhantes dispostas em cruz. Chamam-na criçá, cruz.

Há uma estrela que se levanta depois do sol posto; como é muito vermelha dão-lhe o nome de jandaí, derivado de um pássaro assim chamado. Conhecem também uma constelação de sete estrelas que tem a forma de um pássaro e a que chamam iaçatim. A outra constelação formada de muitas estrelas parecida com um macaco denominam cai. A outra chamam potim, caranguejo, por ter a forma desse animal. Tuivaê, homem velho, é como chamam outra constelação formada de muitas estrelas semelhante a um homem velho pegando um cacete, Certa estrela redonda, muito grande e muito luzente, é chamada por eles conomi-manipoere-uare o que quer dizer: menino que bebe manipol.

Conhecem uma constelação denominada iandutim, ou avestruz, branca, formada de estrelas muito grandes e brilhantes, algumas das quais representam um bico; dizem os maranhenses que elas procuram devorar duas outras estrelas que lhes estão juntas e às quais denominam uirá--upiá, isto é: os dois ovos. Eire apuá, mel redondo, é uma estrela grande, redonda, brilhante e bonita. Há uma constelação com a forma de um cesto comprido a que chamam panacon, isto é: césto comprido. Jaceí-tatá-uê, é o nome de uma estréia muito brilhante em louvor da qual fizeram um canto. Há uma constelação a que chamam tapiti, lebre; é formada por muitas estrelas à semelhança de uma lebre e por outras em forma de orelhas compridas, em cima da cabeça. Tucon é o nome de outra estrela que se assemelha ao fruto do tucon-ive, espécie de palmeira. Outra grande estrela brilhante é por eles denominada tatá-endeí, isto é: fogo ardente. A uma constelação parecida com uma frigideira redonda dão o nome de nhaèpucon.

Conhecem ainda uma estrela a que chamam caraná-uve e muitas outras que deixo de mencionar para evitar maior prolixidade; sabem perfeitamente distinguir umas das outras e observar o oriente e o ocidente das que se levantam e das que se deitam no seu horizonte.

É certo que não conhecem a Epakta, nem as idades da lua; porém em virtude de longa prática, conhecem a época de seu crescente e minguante, do plenilúnio e da lua nova e muitas outras coisas a ela relativas.

Dão ao eclipse da lua o nome de jaceí-puiton, noite da lua. A ela atribuem o fluxo e refluxo do mar e distingüem muito bem as duas marés que se verificam poucos dias depois da lua cheia e da lua nova.

Observam também o giro do sol, a rota que segue entre os dois trópicos, limites que jamais ultrapassam; e sabem que quando o sol vem do pólo Ártico traz-lhes ventos e brisas e que, ao contrário, traz chuvas quando do outro lado em sua ascensão para nós.

Conhecem perfeitamente os anos com doze meses como os nossos e isto pelo conhecimento do curso do sol de um trópico a outro e vice-versa. Conhecem igualmente os meses pela época das chuvas e pela época dos ventos ou, ainda, pelo tempo dos cajus, assim como nós conhecemos os nossos pela época da vindima. Como a estrela seichu aparece alguns dias antes das chuvas e desaparece no fim para reaparecer em igual época, reconhecem os índios perfeitamente o interstício ou o tempo decorrido de um ano a outro.

 

[1612]

 

(Abbeville, Claude d’, frei. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas em que se trata das singularidades admiráveis e dos costumes estranhos dos índios habitantes do país. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1945 (Biblioteca Histórica Brasileira). Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. São Paulo, Livraria Martins, 1954, p.39-42)
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