Poucos entre eles desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisfério; chamam-nos todos por seus nomes próprios, inventados pelos seus antepassados. Ao céu dão o nome de Eivac, ao sol coaraci, à lua de Jaceí. Às estrelas chamam de um modo geral, jaceí-tatá. Entre as que conhecem particularmente há uma que denominam Simbiare rajeiboare. isto é, maxilar. Trata-se de uma constelação que tem a forma dos maxilares de um cavalo ou de uma vaca. Anuncia a chuva. Há outra a que chamam urubu, a qual, dizem, tem a forma de um coração e aparece no tempo das chuvas. A outra dão o nome de seichujurá. É uma constelação de nove estrelas dispostas em forma de grelha e anuncia a chuva. Temos entre nós a Poussinière que muito bem conhecem e que denominam seichu. Começa a ser vista, em seu hemisfério, em meados de janeiro. e mal a enxergam afirmam que as chuvas vão chegar, como chegam efetivamente pouco depois. Há uma estrela a que chamam tingaçu e que é mensageira da precedente, aparecendo no horizonte quase sempre quinze dias antes. A outra, que surge também antes das chuvas, dão o nome de suanrã. É uma grande estrela maravilhosamente clara e brilhante. Existe por outro lado uma constelação de várias estrelas que denominam uènhomuã, isto é, lagostim; aparece ao terminarem as chuvas.
A certa estrela chamam os índios januare, cão. Émuito vermelha e acompanha a lua de perto. Dizem, ao verem a lua deitar-se, que a estrela late ao seu encalço como um cão, para devorá-la. Quando a lua permanece muito tempo escondida durante o tempo das chuvas, acontece surgir vermelha como sangue da primeira vez que se mostra. Afirmam então os índios que é por causa da estrela januare que a persegue para devorá-la. Todos os homens pegam então seus bastões e voltam-se para a lua batendo no chão com todas as forças e gritando, eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé cheramoin goé, “au, au, au, boa saúde meu avô, au, au, au, boa saúde meu avô . Entrementes as mulheres e as crianças gritam e gemem e rolam por terra batendo com as mãos e a cabeça no chão. Desejando conhecer o motivo dessa loucura e diabólica superstição vim a saber que pensam morrer quando vêem a lua assim sanguinolenta após as chuvas. Os homens batem então no chão em sinal de alegria porque vão morrer e encontrar o avô a quem desejam boa saúde, por estas palavras: — eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé cheramoin goé, au, au, au, boa saúde, meu avô, boa saúde. As mulheres, porém, têm medo da morte e por isso gritam, choram e se lamentam.
Conhecem também a estrela da manhã e chamam-na jaceí-tatá-uaçu, grande estrela. Dão à estréia vespertina o nome de pira-paném e dizem que é quem guia a lua e lhe vai à frente. Conhecem ainda outra estrela que se acha sempre diante do sol e lhe dão o nome de iapuicã, “sentada em seu lugar”. Com o início das chuvas perdem essa estrela de vista. Conhecem também o Cruzeiro, bela constelação de quatro estrelas muito brilhantes dispostas em cruz. Chamam-na criçá, cruz.
Há uma estrela que se levanta depois do sol posto; como é muito vermelha dão-lhe o nome de jandaí, derivado de um pássaro assim chamado. Conhecem também uma constelação de sete estrelas que tem a forma de um pássaro e a que chamam iaçatim. A outra constelação formada de muitas estrelas parecida com um macaco denominam cai. A outra chamam potim, caranguejo, por ter a forma desse animal. Tuivaê, homem velho, é como chamam outra constelação formada de muitas estrelas semelhante a um homem velho pegando um cacete, Certa estrela redonda, muito grande e muito luzente, é chamada por eles conomi-manipoere-uare o que quer dizer: menino que bebe manipol.
Conhecem uma constelação denominada iandutim, ou avestruz, branca, formada de estrelas muito grandes e brilhantes, algumas das quais representam um bico; dizem os maranhenses que elas procuram devorar duas outras estrelas que lhes estão juntas e às quais denominam uirá--upiá, isto é: os dois ovos. Eire apuá, mel redondo, é uma estrela grande, redonda, brilhante e bonita. Há uma constelação com a forma de um cesto comprido a que chamam panacon, isto é: césto comprido. Jaceí-tatá-uê, é o nome de uma estréia muito brilhante em louvor da qual fizeram um canto. Há uma constelação a que chamam tapiti, lebre; é formada por muitas estrelas à semelhança de uma lebre e por outras em forma de orelhas compridas, em cima da cabeça. Tucon é o nome de outra estrela que se assemelha ao fruto do tucon-ive, espécie de palmeira. Outra grande estrela brilhante é por eles denominada tatá-endeí, isto é: fogo ardente. A uma constelação parecida com uma frigideira redonda dão o nome de nhaèpucon.
Conhecem ainda uma estrela a que chamam caraná-uve e muitas outras que deixo de mencionar para evitar maior prolixidade; sabem perfeitamente distinguir umas das outras e observar o oriente e o ocidente das que se levantam e das que se deitam no seu horizonte.
É certo que não conhecem a Epakta, nem as idades da lua; porém em virtude de longa prática, conhecem a época de seu crescente e minguante, do plenilúnio e da lua nova e muitas outras coisas a ela relativas.
Dão ao eclipse da lua o nome de jaceí-puiton, noite da lua. A ela atribuem o fluxo e refluxo do mar e distingüem muito bem as duas marés que se verificam poucos dias depois da lua cheia e da lua nova.
Observam também o giro do sol, a rota que segue entre os dois trópicos, limites que jamais ultrapassam; e sabem que quando o sol vem do pólo Ártico traz-lhes ventos e brisas e que, ao contrário, traz chuvas quando do outro lado em sua ascensão para nós.
Conhecem perfeitamente os anos com doze meses como os nossos e isto pelo conhecimento do curso do sol de um trópico a outro e vice-versa. Conhecem igualmente os meses pela época das chuvas e pela época dos ventos ou, ainda, pelo tempo dos cajus, assim como nós conhecemos os nossos pela época da vindima. Como a estrela seichu aparece alguns dias antes das chuvas e desaparece no fim para reaparecer em igual época, reconhecem os índios perfeitamente o interstício ou o tempo decorrido de um ano a outro.
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