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Ano VII - Edição 77
Abril de 2005
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Cerâmica marajoara

L. de Castro Faria

A cerâmica marajoara representa inegavelmente um tema de atração quase irresistível, tanto pelo seu valor intrínseco, como obra de arte plástica, quanto pelas indagações que provoca. É natural que o admirador atento dessa cerâmica arqueológica se sinta impelido a formular várias questões, que proporcionem respostas explicativas acerca da sua origem, idade e função, dos seus significados estéticos, dos seus padrões formais e das suas características tecnológicas.

A arte cerâmica dos índios atuais, isto é, daqueles que se tornaram conhecidos através dos registros históricos, a partir do século XVI, descrita de maneira sumária por cronistas e viajantes, depois de estudada por etnógrafos e exibida em mostruários de museus, de modo geral não apresenta maiores refinamentos técnicos ou decorativos, nem corresponde aos valores estéticos convencionais dos poucos interessados em arte indígena.

Com a descoberta, na segunda metade do século dezenove, de sítios arqueológicos na ilha do Marajó, onde se encontraram peças de cerâmica notáveis pela variedade de formas e pelas proporções, pelo refinamento dos padrões decorativos, altamente elaborados — por um conjunto, enfim, de características que correspondiam ao conceito vulgar de obra de arte — a pré-história dos nossos índios passou a exercer um forte atrativo e a excitar a imaginação de quantos se interessavam pelos segredos de um passado desconhecido, que só o método arqueológico poderia desvendar.

Na parte ocidental da ilha de Marajó e dispersos numa área ampla em torno do lago Arari, em região de campos rasos, encontram-se vários montes artificiais chamados tesos. Alguns desses tesos serviram de local de habitação, e portanto sobre eles se erguiam, outrora, as aldeias indígenas. Outros tiveram um destino diverso, pois eram especialmente construídos para servirem como cemitérios onde teriam lugar os rituais funerários. Em todos eles a cerâmica é abundante, mas é nesses últimos que se podem recolher as peças de valor artístico mais aprimorado e de maior variedade de formas, pois se destinavam a fins cerimoniais, enquanto as que se encontravam nos tesos do primeiro tipo eram naturalmente de uso utilitário.

A cerâmica marajoara apresenta uma unidade estilística básica; isso significa que cada peça pode ser facilmente identificada pela presença de certos padrões formais, decorativos e técnicos, característicos de um conjunto constituído de elementos provenientes da mesma área, da mesma época e, portanto, expressão artística do mesmo povo.

A cultura marajoara pode ser reconstituída em grande parte, não só pelo estudo desse estilo cerâmico, que se manteve quase inalterado no transcurso de um período relativamente longo, constituindo-se portanto, numa tradição, como pela análise ponderada de todas as demais evidências arqueológicas presentes nos jazimentos da mesma área.

A própria cerâmica marajoara formam categorias bastantes distintas. Grandes igaçabas foram construídas especialmente para enterramentos de tipo secundário; são, por conseguinte, urnas funerárias. Essas urnas, nas quais eram encerrados os ossos do morto, juntamente com obejetos de adorno ou de uso cerimonial, apresentam em geral uma base globular e um corpo cilíndrico, que se alarga em boca de borda saliente. São inegavelmente as peças mais impressionantes, não só pelas proporções — muitas dessas urnas apresentam uma altura superior a 80 cm — como pelo esmero com que são trabalhadas.

Outra categoria é constituída por estatuetas, que representam a figura humana de maneira simplificada, mas de acordo com padrões convencionais bastante rígidos. São peças pequenas, que raramente atingem 20 cm de altura, encontradas com freqüência nos tesos cemitérios. Geralmente descritas como ídolos de Marajó, é possível realmente que tais peças tenham sido usadas em cerimônias mágico-religiosas. Muitos desses ídolos trazem a indicação do sexo feminino e no seu interior, oco mas vedado; existem pequenos seixos, que fazem a peça soar como um maracá.

A tanga de Marajó é a peça mais característica dessa cultura, a que lhe confere uma singularidade incontestável. Relativamente raras, essas tangas se encontram também nos tesos cemitérios e quase sempre dentro de urnas funerárias. A fragilidade do material de ser facilmente quebráveis — e o fato de estarem associadas a outros elementos de valor cerimonial levam a supor que estivessem também ligadas ao sistema mágico-religioso e aos seus rituais.

Muitas outras peças de diferentes formatos e proporções se agrupam em distintas categorias, todas elas esclarecedoras de aspectos bem marcantes da cultura marajoara. Peças de fuso, bancos, adornos para orelha ou lábios, pequenos vasos para tintas ou oferendas fúnebres, suportes e vasilhas rasas formam um documentário abundante, de qualquer modo o único que se pode utilizar para reconstituir a vida do grupo humano que ali vivia antes do descobrimento.

Na cerâmica marajoara de qualquer categoria a decoração é obtida principalmente por meio de desenho gravado mediante a técnica de excisão, ou desbaste do campo negativo. A excelência e a regularidade dessa técnica levam a supor que na cultura marajoara existisse uma classe de artesãos. O desenho inciso, ou simplesmente gravado, foi também de uso regular e muitas vezes as duas técnicas aparecem associadas.

A pintura foi, por outro lado, utilizada de maneira firme e sugestiva e às peças pintadas freqüentemente associaram elementos modelados. A pintura é feita a preto e vermelho, sobre o fundo engobado de branco. Formas geométricas, representação esquematizada da figura humana, sobretudo da face, motivos de aparência zoomórfica, preenchem toda a superfície de qualquer peça de cerâmica marajoara, concebida como obra de arte, para fins cerimoniais. Não há espaços vazios.

A cerâmica marajoara representa o testemunho fragmentário, mais ainda assim bastante eloqüente, da vida de um grupo tribal que acumulava ao longo do tempo uma fecunda experiência tecnológica e um impressivo refinamento artístico; é um elo intermediário da cadeia de pequenas evidências materiais que permitirão um dia reconstituir o drama humano da vida indígena na América antes do descobrimento.

 

(Faria, L. de Castro. "Cerâmica marajoara". Calendário Willis-Overland para 1963)
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