Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Abril 2005 - nº 77 - Ano VII


Sumário

Festança

Procissão de São Jorge
Thomas Ewbank

Dança de guerra dos tupinambás
Jean de Léry

A hospitalidade
José de Alencar

Cancioneiro

Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro
José Pacheco

A Rita Medeiros
Leonardo Mota

O folclore do papagaio
Zé Pingado

Imaginário

O roubo das flechas

A boiúna e o irapuru
Raimundo Morais

O castigo da ambição
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Geribita
Getúlio César

Batizar o vinho e o leite...
Guilherme Santos Neves

As saúdes de mesa
José Calasans

Oficina

Melhoramento dos gados
Miguel Calmon du Pin e Almeida

Calendário mandioqueiro
Carlos Borges Schmidt

Os homens da massa e do pão
Hildegardes Viana

Palhoça

Engenho Velho
Daniel Parish Kidder

Cerâmica marajoara
L. de Castro Faria

Os tupinambás conheciam os astros e as estrelas
frei Claude d’Abbeville

Panacéia

Superstições e o cuco papa-lagartas
Eurico Santos

Os curandeiros indígenas
Otto Willi Ulrich

Doença produzida pelo ar
José Pimentel de Amorim

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Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Palhoça
Textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Engenho Velho

Daniel Parish Kidder

Após uma permanência de quase seis meses na Glória, mudamo-nos para o Engenho Velho, o principal subúrbio ao poente da cidade. Passando-se pelo campo da Aclamação e pela Cidade Nova, via rua São Pedro, vê-se o novo palácio do Senadó (...) Entra-se depois no Aterrado, que conduz a São Cristóvão e à residência Imperial da Boa Vista.

Um pouco à esquerda dessa última, e junto ao sopé das montanhas do Tejuco, desenvolve-se uma planície, mais ou menos extensa, situada ainda dentro dos limites da cidade, mas, até agora ocupada pelo que se poderia chamar de casas de campo. As ruas são largas e quase todas ladeadas de sebes floridas de mimosas. As casas não são muito distantes umas das outras, mas, quase todas são circundadas de jardins e protegidas por grandes quantidades de árvores frutíferas e de sombra. Quanto à beleza agreste que apresenta, poucos recantos da Terra poderão ser comparados ao Engenho Velho. Nossa residência ficava na rua de São Francisco Xavier, à vista da igreja matriz, e, provavelmente. não muito longe do ponto em que os jesuítas, em tempos idos, tinham o engenho de açúçar que deu nome ao lugar. A casa em que vivíamos era contígua a uma grande chácara, nome que geralniente lá se dá às terras adjacentes às casas de campo.

Essa chácara era uma propriedade agrícola em miniatura, ocupada pelo seu proprietário — o senhor de terras, como costumamos dizer — que residia junto à nossa casa. Tratava-se de um português que, à custa de trabalho e economia, havia conseguido enriquecer, e, já beirando os cinqüenta anos mas ainda solteirão, vivia rodeado de seus oito ou nove escravos. Era homem de preparo regular e dotado de desenvolvimento intelectual acima do comum; despendia, porém, toda a sua energia em dar serviço aos negros e evitar que se entregassem à ociosidade. Qualquer trabalho que poderia ser facilmente feito por três homens, era executado displicenternente por nove ou mais escravos.

Sua atenção se dividia entre o pedreiro, o carpinteiro, o cocheiro, o chacareiro e os criados de dentro; mesmo assim, porém, uns atrapalhavam aos outros. Finalmente conseguiu descobrir a forma de mantê-los ocupados. Precisava levantar um muro em redor de sua chácara; não de construção precária, comum, mas, um trabalho sólido, de alvenaria espessa. Para tanto comprou a necessária pedra, e, ajustando um mestre de obras, conseguiu que a cada escravo fosse distribuída uma certa tarefa de longa duração. Isso parece ter proporcionado grande alívio ao sr. Bastos que se mostrava irreconciliável inimigo da ociosidade, apesar de nada mais fazer que dar trabalho aos outros. Levantava-se pela manhã bem cedo, mas não tendo tempo de se vestir, atirava sobre os ombros seu capote, calçava as tamancas e punha-se em atividade. Se algum serviço não estava sendo feito de conformidade com as suas ordens, o escravo faltoso recebia o competente número de chibatadas. Depois disso o almoço lhe sabia bem. Durante o resto do dia visitava e inspecionava todos os recantos de sua propriedade. Parecia ter aversão de pisar sobre solo que não fosse seu; entretanto, quando por acaso encontrava os amigos tornava-se extremamente sociável e desabafava com eles suas alegrias e tristezas numa linguagem fluente e elegante. Gostava também de leituras, mas os livros que possuía estavam de tal forma atacados pelas baratas e por outros insetos, que jamais pensava em aumentar-lhes o número. Era ávido por notícias, mas os jornais estampavam tantas tolices que não gostava de comprá-los. Costumava, porém, tomá-los por empréstimo e ficava sempre penhoradíssimo pela leitura dos diários. Certa vez cedemos-lhe um livro impresso em Lisboa, em 1833, sob o título de Explicação das superstições, a verdade revelada; no qual se encontram as superstições da missa, dos altares privilegiados, das indulgências, o abuso das esmoladas para as almas do purgatório as férias dos padres, etc. etc.. O sr. Bastos achou o livro muito interessante e teceu várias considerações com relação aos assuntos nele versados; acrescentou, porém, que, em outros tempos qualquer passagem do livro poderia ter custado a vida ao seu autor; mesmo em 1833 o escritor não tivera coragem de revelar sua identidade, apesar de que todo o mundo sabia que o que ele escrevera era verdade. Apesar de tudo, porém, é grande o perigo de se verberarem costumes religiosos ainda que corruptos. A religião é como um grande rio e é perigoso tentar impedir ou alterar o seu curso.

Do outro lado de nossa casa, vivia uma viúva portuguesa, de idade avançada, também rodeada de numerosos escravos. Era um verdadeiro modelo de amabilidade, se não de piedade. Tratava os escravos como se fossem filhos seus e devotava especial cuidado em convocá-los para as vésperas, fazendo-os recitar o Padre-Nosso e cantar uma ladainha não muito longa. Tão exercitados estavam os negros nesses cantos que o coro por eles formado nada ficava a dever ao de algumas igrejas.

Durou pouco, porém, essa senhora. Certa noite uma tocha correu a vizinhança, de casa em casa, levando a notícia de sua morte. No dia seguinte a porta de sua residência foi velada por um pesado reposteiro de veludo negro, com rendas de ouro. À hora marcada seu corpo, rodeado de velas acesas, foi transportado de vez para a igreja.

Nossa mudança para o Engenho Velho foi motivada pelo fato de quase todas as famílias norte-americanas residentes no Rio de Janeiro estarem lá instaladas, e, por isso, bastante distantes de qualquer culto protestante. Instalamos, portanto, serviços do culto e os mantivemos ininterruptamente até a nossa partida para São Paulo, no início do ano seguinte. Por essa época eram muito absorventes os estudos a que nos entregamos, em preparação para atividades futuras; mesmo assim, vemos várias oportunidades de entrar em contato com o povo, observar seus costumes e fazer circular as Escrituras. Certa ocasião durante a ausência do sr. Spaulding que havia partido para a serra dos Órgãos substituimo-lo nos serviços dominicais da Glória. Valíamo-nos também de todas as oportunidades que se nos apresentavam para pregar e distribuir publicações religiosas entre os homens do mar.

Mais ou menos por essa época uma companhia de ônibus iniciou o serviço de transporte coletivo por meio de carros, entre a praça da Constituição — ponto central da cidade, — e bairros das Laranjeiras e Botafogo, de um lado, e de outro, São Cristóvão e o Engenho Velho. Nenhum outro serviço semelhante havia sido até então inaugurado em qualquer outra cidade país. Os belos carros construídos especialmente para esse fiz eram tirados por quatro mulas e apresentavam aspecto quase tão interessantes como os que correm pela Broadway. Era poucos, porém, em relação ao número de pessoas que recorria a esse meio de transporte. Dentro desses veículos podiam-se perfeitamente observar as boas maneiras dos brasileiros. As pessoas habituadas ao ar indiferente dos passageiros de semelhantes carruagens, em Nova Iorque, surpreender-se-iam ao ver amabilidade e a polidez com que, no Rio, se tratavam nos ônibus pessoas inteiramente estranhas. Outra coisa surpreendente que a ninguém se nega ingresso por causa da cor. A categoria da pessoa é, no Brasil, condição de respeito. Nenhum escravo pode entrar nos ônibus a não ser no caso único de uma ama que acompanha a senhora, carregando criança. Por outro lado, a pessoa alguma decentemente trajada e que tenha dinheiro para a passagem, é vedado viajar nos carros. Presume-se que todo o indivíduo de respeito se vista bem, e com propriedade. Daí o fato de se não poder entrar nas repartições públicas, no Museu ou na Biblioteca Nacional sem ser de casaca. O paletó-saco constitui a birra principal das regras de etiqueta, no Brasil, e, conquanto se adapte melhor ao clima que qualquer outra roupa e seja geralmente usado em casa, é rigorosamente condenado o seu uso na rua. Assim é que as pessoas respeitáveis, devem usar um capote quando saem, ou se preferirem, um casaco relativamente pesado.

[1840]

(Kidder, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanência nas províncias do Sul do Brasil, Rio de Janeiro e província de São Paulo; compreendendo notícias históricas e geográficas do império e das diversas províncias. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1980, p.143-150 (Reconquista do Brasil, nova série, 15))
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