Quem deles se lembra? Compuseram a paisagem humana da cidade, com chuva ou com sol, anos a fio. Como faziam parte do cotidiano apagaram-se mansamente, sem que muitas pessoas nem disso se apercebessem. Entretanto eram amigos de todos, quase sempre bem serviram. Que teria sido de nossos avós e nossos pais sem a colaboração do homem do pão e do homem da massa?
Anos atrás mal o sol ia surgindo, um homem com um enorme balaio na cabeça aparecia no princípio de uma rua qualquer. Dentro do balaio trazia dezenas de saco de pano aproveitado dos de farinha de trigo, cheios de pão. Diziam que antes tal mister de entregar pão fora desempenhado por mulheres, na maioria das vezes verdadeiros viragos, afeitas à dura luta pela sobrevivência. Porque tinham sido substituídas por homens não havia explicação especial. Também naquele tempo quem iria se ocupar com tão humildes criaturas?
O homem do pão escolhia um lugar conveniente para repousar o balaio, dando início à distribuição que consistia em pendurar um saco na porta fechada de cada casa, dando uma batida forte enquanto gritava: — Olha o pão!
Nem todos atendiam de pronto. Os sacos ficavam aguardando que os donos das casas se levantassem. As cozinheiras que dormiam fora da casa da ama, as mulheres do mingau, as mulheres do cuscuz, o leiteiro, motorneiros e condutores de bonde, gente apressada que pegava cedo no trabalho, toda aquela gente passava nobremente pelos sacos sem tentar surrupiar o que houvesse neles; pães, cacetes, redondos, provences, sovados, gêmeos, de milho, varas. Era raro alguém roubar um pão. Uma criança talvez por vadiação. Porque quem é que fazia caso de pão? Havia tanta coisa para se tomar com o café de manhã!...
O homem da massa foi outro que desapareceu sorrateiro, não mais se ouvindo falar nele. Escolhido entre rapazes com capacidade para agüentar uns bons quilos de peso, bons nas contas por causa de passar troco, com alguma educação doméstica que permitisse tratar com mulheres e crianças e o homem da massa, quando demorava no emprego, acabava sendo chamado por seu próprio nome pela freguesia amigueira.
O homem da massa carregava num ombro um cavalete alto de madeira, com tirantes de couro ou lona reforçada, enquanto sustentava na cabeça a caixa da massa, feita de folha de flandres. A caixa de massa pouco diferia dos baús de folha que os mascates traziam suspensos as costas por grossas correias de couro. Apenas era maior, medindo mais ou menos 70 centímetros de altura, cinqüenta de largura por um metro de comprimento. Pintado a óleo com frisos de cor contrastante, com prateleiras interiores forradas com papel de embrulho, era atraente pelo aspecto e conteúdo.
Depois das três da tarde o homem da massa começava a peregrinação pelas portas. a este ponto já muito menino, tomado banho e entalcado, esperava o freguês para a merenda. Também aquelas martirizadas donas de casa, sem liberdade de movimentos, sentiam-se felizes só em ouvir o homem gritar lá de fora: — Olhe a massa!
Equilibrado sobre o cavalete e uma vez destampada, a caixa de massa era um mundo quase sempre maravilhoso para a criançada e os gulosos. Digo quase sempre porque já naqueles chamados bons tempos havia muito pão mal feito, muito bolo solado.
Na primeira prateleira acomodavam-se queijadinhas recheadas com cocada, empadas de camarão ou de bacalhau, pastéis, cavacas, volovans, pães de ló, folhados entremeados com doce de araçá, mães bentas e manauês, broas de milho e de chocolates, roscas açucaradas, pães doces, pães de leite. Os pães doces, fosse o simples pão de açúcar ou brioche, eram apresentados em forma de peito de moça, rosa, meia lua, cacetinho, estrela, dependendo da fantasia do padeiro.
Os brioches, cheios de creme por cima, tais como os pães de açúcar eram melhores de ver de que de comer. O amarelo da massa revelava excesso de açafrão, substituindo o ovo, inexplicavelmente poupado numa época em que tudo era barato. Supunha-se que não houvesse vantagem na alteração da composição da massa.
Na primeira prateleira nada ia além de um tostão. As gulodices já tinham valido anteriormente dez réis, vintém e pataca, circunstância que só os velhos lastimavam. Era mais fácil vender tudo por um tostão, quebrando no peso ou diminuindo no tamanho.
A segunda prateleira continha pães azedos da mesma espécie distribuídos pela manhã. Pães de tostão e duzentos réis. No fundo da caixa, houvesse ou não a segunda prateleira, aninhavam-se os sacos de papel com bolachinhas americanas, bolachões, bolachinhas de milho, bolachinhas de coco, bolachas papuda, craquenéis, cabeças de frade, línguas de sogra, paciência, charutos, biscoitinhos diversos. Bolacha de macaco é que nunca vinha na caixa. Talvez por ser por demais plebéia com o seu tempero de rapadura e a sua consistência de madeira. Os bolachões eram vendidos por unidade. As bolachinhas às dezenas. Quando o menino era freguês vendia-se misturada. Por um tostão podia ter dez bolachinhas de gosto diferente.
Um dia veio a guerra. O pão, os doces, tudo foi deixando de custar um tostão. A farinha escasseava, a ganância crescia. O freguês da massa deu para ser impontual. Nem sempre tinha o que carregar na caixa quando faltava farinha do reino na praça. Quando havia, pouco vendia. Os sofridos consumidores, pelo sim, pelo não, iam para a fila da padaria não se fiando muito em sapato de defunto.
A guerra durou o bastante para mudar a fisionomia da cidade. Acabou na Europa, mas o homem do pão e o homem da massa também tinham acabado aqui. Quem deles se lembra ainda?