Examinar as regras do calendário agrícola em relação exclusiva à lavoura da mandioca, não é destituído de interesse. Tal como os guarani dos tributários do rio Uruguai, e como eles plantadores de mandioca, os carajá do Araguaia certificam-se da época propícia, para entregar à terra as sementes das suas roças pelas estrelas do grupo das plêiades.
Quanto aos primeiros, Serrano informa que conheciam o tempo certo da semeadura guiando-se pelas cabrillas — como são chamadas as setes estrelas principais do grupo das plêiades. A respeito dos carajá, registrou Krause que "a época do plantio abrange, mais ou menos, os meses de setembro e outubro; chama-se bolehedó — periquitos, quando estão um pouco mais altas planta-se milho. O algodão, a batata-doce e o urucu são plantados apenas no período de muitas chuvas, isto é, nos meses de novembro e dezembro.
Gabriel Soares de Souza foi um dos primeiros a fazer referências à época do plantio da mandioca, segundo os nossos padrões. "Planta-se a mandioca em todo o ano não sendo no inverno, e quer mais tempo seco que inverno; se o inverno é grande apodrece a raiz da mandioca nos lugares baixos". Preciso é que se compreenda claramente o que quis dizer o escritor quinhentista. Falando sobre a lavoura tupinambá, referia-se às práticas usadas na Bahia, onde a época das chuvas coincide com o inverno. Daí os dois inconvenientes apontados, os dois fatores adversos reunidos para tornar inoportuno o plantio da mandioca em certa estação do ano, o frio e o excesso de chuvas. O primeiro trazendo quase suspensa, ou mesmo suspensa a vegetação; o segundo aliando-se ao outro, para fazer com que as partes vegetais lançadas à terra, além de não brotarem, ainda apodrecessem em face da umidade excessiva.
Marcgrave determinou claramente a melhor época para o plantio: "pode ser plantada todos os meses, excetuando-se os do inverno. O melhor tempo é em janeiro e fevereiro; depois em agosto e setembro; planta-se também em meados ou fins de julho".
Como a generalidade das plantas a época da plantação da mandioca varia de acordo com o clima. Nas regiões de clima mais frio — naturalmente que dentro da área em que se acha difundida — as plantações costumam ser realizadas por ocasião do início da primavera uma vez passado o perigo das geadas. Isso ocorre, geralmente, em setembro. Antes disso o plantio torna-se arriscado porque as estacas recém brotadas estão sujeitas a ter todos os seus brotos queimados, e mesmo a se perderem totalmente.
Já nas regiões de clima subtropical as plantações podem ser feitas um pouco mais cedo — em agosto, por exemplo — desde que tenha passado o perigo de frios mais intensos. Informa Gravata, que nas partes ocidentais de Minas Gerais em altitudes que variam entre 600 a 700 metros, é uso dos lavradores iniciarem as plantações logo com as primeiras chuvas de outubro, muito embora a brotação da rama armazenada para estaca principia logo em agosto.
O mesmo fato pode ser considerado verdadeiro para certas regiões de São Paulo e outras do país, de clima assemelhado. A rama guardada para os novos plantios, com a umidade natural que contém, e com a temperatura mais regular que a do ambiente externo, por isso que é conservada coberta com capim ou palha, já começa a emitir brotos por aquela época. Porém, se plantada, correrá o risco de alguma queda brusca de temperatura que naquele período do ano poderá ainda ocorrer.
Nas áreas possuidoras de clima quente, livre de geadas ou frios rigorosos, a mandioca poderia ser, praticamente, plantada o ano todo, não fosse o inconveniente atrás assinalado dos excessos de água no solo, por ocasião da época das chuvas, o que acarretaria a perda por apodrecimento, das ramas enterradas. Por outro lado, nas épocas de estiagem muito intensa, as ramas ficariam sujeitas a brotar e depois, com a falta de chuvas continuar a desenvolver seus brotos irregularmente. Daí, para morrer uma grande porcentagem, nada custaria. Naturalmente que isso dependeria,em grande parte, do estado de umidade do solo e da sua capacidade de retenção de água.
É nesse clima quente que se poderia aplicar o ditado popular de que a mandioca "só não se planta no mês da preguiça". O mês da preguiça é qualquer mês em que não se tenha vontade de trabalhar. Bastaria para isso que se acautelasse o lavrador para evitar aqueles dois inconvenientes apontados, o excesso de água e a falta quase absoluta de umidade no solo. E o recurso seria nas épocas em que a terra estivesse sujeita a se encharcar, plantá-la sobre os montículos de terra, enquanto que se o plantio tivesse de ser feito nos períodos de estiagem escolher o solo que não fosse muito seco. Pelo contrário, que possuísse uma umidade natural, capaz de assegurar o desenvolvimento normal dos brotos, na primeira fase de vida da planta, até que ela emitisse as raízes essenciais.
Na opinião de Teixeira Mendes, no planalto paulista, de agosto em diante existe calor mais que suficiente para a vegetação da mandioca. O que pode faltar, para que se assegure pleno sucesso à plantação e a indispensável umidade. Com umidade suficiente, seja sob a forma de chuva, irrigação ou terreno naturalmente fresco e muito próprio a esse cultivo, em quatro semanas, mais ou menos, as estacas enraízam e brotam. Faltando a umidade suficiente, a brotação e enraizamento são lentos, as estacas falham em bom número e, nos dias mais quentes e secos de setembro, as plantinhas estão sujeitas a morrer em grande porcentagem.
Não fosse — diz textualmente — "o perigo das secas muito comuns de agosto a setembro, seria preferível plantar a mandioca nesses meses para, em teoria, ganhar-se um pouco no ciclo vegetativo; mas considerando-se que esse ganho é pequeno e duvidoso, porque se deve fazer cultura de dois anos e não de um, e considerando-se que as chuvas são indispensáveis para o nascimento das estacas, não aconselhamos a plantação da mandioca, antes do início das chuvas, isto é, para nós (São Paulo), em outubro".