Esta página relativa às lendas do extremo-norte do Brasil figura em Na planície Amazônica, talvez o mais famoso dos livros do publicista Raimundo Morais, autor de várias outras obras inspiradas em paisagens e temas da região.
A tela aracnídea das lendas amazônicas, vasta e complicada, cômica e trágica, tanto mais extraordinária quanto envolta no mistério, e originária de todos os quadrantes do globo. Seus fios tênues vêm do seio nativo do próprio hinterland, da Grécia, do Egito, da Índia, da Escandinávia, da Lusitânia. Em cada ponto da planície equinocial, no ocidente ou no oriente, nas colinas do sul ou nas serras do norte, inventadas pelo aborígine, trazidas pelo africano, espalhadas pelo português, divulgadas pelo forasteiro, ingênuas, inverossímeis, risonhas, tenebrosas — as histórias dos animais e das sereias, dos gnomos e dos pajés empolgam a imaginação fecunda e plástica da gente que erra no vale.
Orellana, o primeiro explorador da volumosa artéria, egresso do Peru, nas aperturas dum combate malogrado, mal escapou das frechas selvagens, criou a lenda das Amazonas, mulheres guerreiras que conseguiram, afinal, dar o nome da tribo ao rio.
Nesse folclore variadíssimo, espectral e macabro, à semelhança dos contos de Hoffmann, perpassa a caravana dos bichos: a tartaruga e o boto, o jaboti e o veado, o irapuru e a preguiça, o macaco e o morcego, a coruja e a cobra; desfila a récua dos duendes: a iara, o jurupari, a curupira, a matintaperera; além do feiticeiro das malocas e dos mocambos, dos vilórios e das cidades, que irrompe teatral e inspirado, vidente e iluminado. Uma por uma dessas narrativas, de acordo com a raça que a produziu, guarda o sentido infantil ou astucioso, de moralidade ou de vícios.
A história do jaboti com o veado, de aspectos simples, vasada na tradição pela bondade da mãe-preta, uma das primitivas amas da criança civilizada na Amazônia, é, sem dúvida, oriunda da África. Feita a aposta de quem corria mais, os cágados alinharam-se em fila que cobria o percurso a transpor e o cervo, seguro de vencer, lançou-se na desfilada, desenvolvendo o máximo da carreira. Entretanto, ao chegar na meta estabelecida, botando a alma pela boca, já ali encontrou o jaboti, folgado, risonho, enxuto. E o veado, apesar da fama, perdeu a partida ante a astúcia do adversário, ou melhor, dos milhares de adversários.
A iara, filha certamente da exaltação marítima do ibero lido em Homero, modelada nas sereias irresistíveis de Ulisses, fundador mitológico de Lisboa, é o espantalho do homem destas plagas. Metade mulher metade peixe, lindos cabelos compridos, busto cheio, cauda de escamas multicores, a formosa ninfa vive nas margens dos igarapés, nas bordas dos lagos, nos taludes dos rios seduzindo os tapuios, encantando-os e carregando-os para o fundo. Sempre que desaparece um rapaz, perdido ou morto, atribui-se a desgraça aos ardis apaixonados da iara. Em forma de lontra, no perfil da garça, sob as penas da cigana surpreende o imprudente e leva-o para os seus domínios, lá nos pélagos profundos, onde os palácios de coral, recobertos de ouro, cravejados de safiras, enfeitados de algas, fazem as delícias dos que se deixam conduzir por aquela traiçoeira deidade.
O boto, espécie de doninha dos mares frios, vermelho ou bruno de pele, é, por sua vez, o flagelo das donzelas, das casadas e das viúvas. De quando em quando, ferida no coração, esquecendo pai, mãe, irmãos, a família toda, uma cunhantã, no bater agoirento da meia-noite, é arrastada pela voz penetrante do monstro, que, transformado num jovem príncipe de espada à cinta, pluma do chapéu, gola dos Médicis, punhos de renda, dedilha o bandolim sentado num tronco da ribanceira. A moça comovida, deslumbrada ante figura tão distinta, atira-se aos braços do mancebo, até que a aurora, em diluída cor de opala e rosa, comece a destacar das sombras o contorno das coisas. Vê então a rapariga, com espanto, que os pés do seu amante apresentam os calcanhares voltados para a frente. Percebe ter sido vítima do demônio das águas, e, aterrada, num lampejo fugidio de memória, recapitula os prudentes conselhos maternos. Ao gritar espavorida, olhos fora das órbitas, pedindo socorro, o galã, tresandando a pitiú, dá um pulo e mergulha na corrente, para, logo em seguida, traindo a identidade, vir à tona mostrar o focinho vermelho e soprar zombeteiro um jato d’água na direção da infeliz. Em torno das canoas de guarnições ou passageiros femininos, os malditos botos aos pares, aos bandos, bóiam, fungam, saltam, mostrando o dorso e as formas, na faceirice magnetizadora da conquista.
Mas as lendas por excelência na vasta rede potamita, são a da mãe-d’água e a do irapuru. Da primeira contam-se coisas terríveis, que mais parecem irradiações coloridas do cérebro de Poe, perturbado no álcool, anuviado no tabaco, ou, quiçá, bebidas naquela esmaltada fonte árabe das Mil e uma noites. A boiúna, cobra enorme, mãe de todas as águas da bacia, soberana dos lagos e dos igapós, das enseadas e dos igarapés, dos furos e dos paranás, das vertentes e desaguadouros, nada e vigia dum extremo a outro. Quando se ouve um ronco longínquo, que arrepia os cabelos e põe um frio de morte na medula, é ela, o gênio do mal, a cobra grande. Seu uivo horripilante, predominando sobre todas as vozes, tem o poder elétrico de paralisar a energia dos outros animais. Por madrugadas fechadas e tormentosas avistam-se duas tochas fosforescentes vogando ao largo. São os olhos da cobra. É a boiúna que anda na sua peregrinação fatídica, matando e devorando a criação doméstica, alagando as embarcações miúdas, cretinizando os curumins desavisados, sorvendo vampiricamente a vida dos velhos. Nem sempre, todavia, o desmedido ofídio se mostra assim, tal a sua faculdade de metamorfose. Nos quartos minguantes, quando a lua recorda um batel de prata, logo depois das doze badaladas, a boiúna reponta nos moldes bizarros duma galera encantada, guinda alta, velas pandas, singrando e cruzando silenciosamente as baías. O pano desse navio macabro é feito de mil despojos fúnebres. A giba, o sobre-de-proa, o sobre-grande, a sobre-gatinha, a bujarrona, o velacho, o traquete, a gávea, o joanete, a rabeca são camisas, véus, lençóis, mortalhas, sambenitos remendados, costurados, cerzidos — sinistro sudário de milhões de covas; os mastros, as vergas, as caranguejas são tíbias, fêmures, costelas de esqueletos fugidos das campas; as borlas dos topes são caveiras amareladas de pecadores impenitentes; os estais, as enxarcias, as adriças, os brandais são cabelos de defuntos roubados por satanás. E sobre tudo isto uma linha azulada de fogo, santelmo ou fátuo, que recorta, ao palor mortiço de chamas funéreas, a árvore da embarcação levantada para a fuligem escura do céu. Veleira, deitada na bolina sobre uma das amuras, querena ao léu, ninguém a pega. Sempre que algum temerário a persegue, na insistência curiosa das investidas arriscadas, a galera-fantasma colhe as asas de grande ave bravia, orça, muda de rumo, e, voando com a rapidez do albatroz, deixa na esteira alva a espuma lampejante do enxofre luciferiano. É uma visão provinda com certeza do seio ígneo de Plutão; Quem a vê fica cego, quem a ouve fica surdo, quem a segue fica louco.
A boiúna, entretanto, ainda toma outras formas. Se engana a humanidade mascarada de navio, de vela, também a engana no vulto de transatlântico. Em noites calmas, quando a abóbada celeste representa soturna e côncava lousa preta, sem estrelas que pisquem para a terra, e a natureza parece dormir exausta, rompe a solidão o ruído de um vapor que vem. Percebe-se ao longe a mancha escura precedida pelo marulho cachoante no patilhão. Seguidamente destacam-se as duas luzes brancas dos mastros, a vermelha de bombordo e a verde de boreste. Sobre a chaminé, grossa como uma torre, vivo penacho de fumo, que se enrola na vertigem dos turbilhões moleculares, estendendo-se pela popa fora na figura dum cometa negro. Momentos depois já se escuta o barulho nítido das máquinas, o bater fofo das palhetas, o badalar metálico do sino, o conjunto, em suma, dos rumores nascidos das usinas flutuantes que são as naves marinhas do século XX. Em terra, sobre o trapiche, à luz vacilante duma lamparina de querosene, alguns indivíduos discutem a propriedade do steam: “É do Lloyd, é do Booth, é da Lamport, é da Italiana”.
Por fim o desconhecido vaso se aproxima recoberto de focos elétricos, polvilhado de poeira luminosa, como se uma nuvem de pirilampos caísse sobre um marsupial imenso dos idos pré-históricos. Diminui a marcha, tem um escaler da amurada pendurado nos turcos e o chicote duma espia pendente da castanha de proa. Avança devagar. O telégrafo retine mandando atrás a fim de quebrar o fraco seguimento, e uma voz clara, do passadiço para o castelo de vante, ordena: — “Larga”! A âncora num choque surdo e espadanante toca n’água, a amarra corre furiosa pelo escovém, e a mesma voz, estentórica, novamente domina: — “Agüenta! Como diz o filame? “De lançante”, respondem. Arreia só 45 e dá volta”. Em seguida ressoa o sinal de pronto para a casa das máquinas e tudo cai de súbito no silêncio tumular das necrópoles.
As pessoas que se achavam na margem resolvem, nesse ínterim, ir a bordo. “Com certeza é lenha que o vapor precisa”, comentam. Embarcam numa das montarias do porto e seguem gracejando, picando a remada, brincando. Mal se avizinham do clarão que circunda o paquete e tudo desaparece engolido, afundado na voragem. Fauce gigantesca tragou singularmente o majestoso transatlântico. Asas de morcego vibram no ar, pios de coruja se entrecruzam, e um assobio fino, sinistro, que entra pela alma, corta o espaço, deixando os caboclos aterrados de pavor, batendo o queixo de frio. Examinam aflitos a escuridão em redor, entreolham-se sem fala, gelados de medo, e volvem à beirada, tiritando de febre, assombrados.
Foi a boiúna, a cobra grande, a mãe-d’água que criou tudo aquilo, alucinando naquele horrível pesadelo as pobres criaturas.
A segunda lenda, das duas derradeiras referidas aqui, é a do irapuru, passarinho do tamanho de um curió, cujo canto mavioso e fascinante tem o condão maravilhoso de atrair, rasteira e submissa, a fauna toda da mata. À roda das grandes árvores em que pousa o alado cantor, ao modular as notas sonoras da sua garganta de ouro, a multidão atenta dos bichos, presa àquele gorgeio ondulante e artístico, estaca subjugada, contrita, enlevada na música sobrenatural do passarinho feio, de plumagem desgraciosa, mas de beleza tal de voz que evoca, pelo contraste, o Cyrano de Rostand. As aves, os quadrúpedes, os quelônios, os ofídios, os batráquios, os nadadores, na várzea e nos lagos, pasmados, confundidos, admirados como se de novo São. Francisco de Assis viesse falar aos pássaros, ou Santo Antônio de Lisboa andasse a pregar aos peixes, escutam quietos, enrolados no fio doce daquele novelo cromático. As aranhas e os tamanduás, os cupins e as antas, as formigas e as aranhas, os carrapatos e os tatus, as rolas e as serpentes, as saracuras e as onças, reverentes e dóceis como se estivessem ajoelhados sobre a nave sagrada de catedrais verdes, têm o semblante piedoso e fraternal de quem ouve a sinfonia religiosa do órgão duma basílica.
As notas irisadas que se espalham no éter radioso, tanto fazem lembrar risadas de crianças como fanfarras militares, orações de monjas e pipilar de ninhos. Na amplidão há qualquer coisa de morno e de suave envolvendo a terra e a natureza. A luz do sol vibrando ao contato daquela rajada de harmonia doura a floresta de palhetas louras e perfuma as flores de essências esquisitas. Wagner e Beethoven aliam-se e entrelaçam-se naquele sursum corda. Orfeu, tangendo a lira encantada para amansar os tigres e as panteras, não seria mais poderoso hipnotizante e magnetizador que o irapuru cantando no seio augusto da selva amazônica.
[1926]