Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Dança de guerra dos tupinambás

Jean de Léry

Ao falar das danças por ocasião das cauinagens prometi descrever também suas outras espécies de danças. Unidos uns aos outros, mas de mãos soltas e fixos no lugar, formam roda, curvados para a frente e movendo apenas a perna e o pé direito; cada qual com a mão direita na cintura e o braço e a mão esquerda pendentes, suspendem um tanto o corpo e assim cantam e dançam. Como eram numerosos, formavam três rodas no meio das quais se mantinham três ou quatro caraíbas ricamente adornados de plumas, cocares, máscaras e braceletes de diversas cores, cada qual com um maracá em cada mão. E faziam ressoar essas espécies de guizos feitos de certo fruto maior do que um ovo de avestruz. Só poderia dar uma idéia exata desses caraíbas comparando-os aos frades pedintes que enganam a nossa pobre gente e andam de lugar em lugar com relicários de Santo Antônio e de São Bernardo ou outros objetos de idolatria. Os caraíbas não se mantinham sempre no mesmo lugar como os outros assistentes; avançavam saltando ou recuavam do mesmo modo e pude observar que, de quando em quando, tomavam uma vara de madeira de quatro a cinco pés de comprimento em cuja extremidade ardia um chumaço de petun e voltavam-na acesa para todos os lados, soprando a fumaça contra os selvagens e dizendo: “Para que vençais os vossos inimigos recebei o espírito da força.” E repetiam-na por várias vezes os astuciosos caraíbas.

Essas cerimônias duravam cerca de duas horas e durante esse tempo os quinhentos ou seiscentos selvagens não cessaram de dançar e cantar de um modo tão harmonioso que ninguém diria não conhecerem música. Se, como disse, no início dessa algazarra, me assustei, já agora me mantinha absorto em coro ouvindo os acordes dessa imensa multidão e sobretudo a cadência e o estribilho repetido a cada copla: Hê, he ayre. heyrá. heyrayre, heyra, heyre, uêh. E ainda hoje quando recordo essa cena sinto palpitar o coração e parece-me a estar ouvindo.

Para terminar, bateram com o pé direito no chão com mais força e depois de cuspirem para a frente, unanimemente, pronunciaram duas ou três vezes com voz rouca: Hê, hyá, hyá, hyá.

Como eu ainda não entendia bem a língua dos selvagens pedi ao intérprete que me esclarecesse sobre o sentido das frases pronunciadas. Disse-me ele que haviam insistido em lamentar seus antepassados mortos e em celebrar-lhes a valentia; consolavam-se entretanto na esperança de ir ter com eles, depois da morte, para além das altas montanhas onde todos juntos dançariam e se regozijariam. Haviam em seguida ameaçado os goitacazes, proclamando, de acordo com os caraíbas, que haveriam de devorá-los, embora esses selvagens sejam tão valentes que nunca os tupinambás os puderam submeter, como já ficou dito. Celebraram ainda em suas canções o fato das águas terem transbordado de tal forma em certa época, que cobriram toda a terra, afogando todos os homens do mundo, à exceção de seus antepassados que se salvaram trepando nas árvores mais altas do país.

 

Veja no Realejo:
Cantos dos tupinambás recolhidos por Jean de Léry no século XVI.
Dois cantos tupinambás

 

(Léry, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo, Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1980, p.214-215 (Reconquista do Brasil, nova série, 10))
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