23 de abril — Aniversário de “São Jorge, Defensor do Império”. Este poderoso guerreiro aparece em público somente uma vez por ano, ocasião em que, armado dos pés à cabeça, com lança na mão e espada, conduz o imperador, a corte, as tropas nacionais, a hierarquia eclesiástica e o povo leigo, pelas ruas, em triunfo. Pensei que fosse dia de desfile, porém este ocorre em junho, e assim somente então é que poderemos prestar nossas homenagens ao herói.
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11 de junho — (...)Hoje é Corpus Christi, grande dia para os romanistas em todo o mundo. Aqui, o imperador, sua corte, senadores e militares tomam parte na procissão. É a única ocasião em que São Jorge aparece em público. Montado em seu corcel de batalha, São Jorge, no seu caráter de Defensor do Império, tem precedência no cortejo. O príncipe e o povo desfilam atrás dele. E, como campeão da igreja, também chefia os esquadrões eclesiásticos. Não tendo tido a sorte de encontrar aberta sua igreja em repetidas visitas que lhe fiz, tive de esperar a fim de familiarizar-me com personagem tão popular entre os protestantes e papistas quanto este grande matador de dragões.
Anunciam os jornais da manhã que “a Mesa Diretora da Irmandade do glorioso São Jorge convida os Irmãos a comparecerem à sua capela às 9 horas da manhã a fim de acompanhá-lo na Procissão do Corpo de Deus. A imagem passará pela praça do Teatro, e as ruas do Piolho e da Cadeia, até a capela Imperial, e voltará pelas ruas Direita, da Alfândega e do Fogo, para sua capela na rua da Lampadosa”.
Como São Jorge é o único que anda a cavalo, resolvi fazer-lhe uma visita. As ruas estavam cheias de pessoas que, contra a evidência do mau tempo, tinham esperança de que não chovesse. De manhã cedo, parecia que teríamos um dia esplêndido. O Corcovado, vestido de verde, destacando-se no céu claro e etéreo, levantava a cabeça em glorioso relevo como se também ele tivesse feito o que podia em honra da festa, e esperasse pelo seu começo. Mas uma hora depois desaparecia de vista, e o céu sorridente mudara de fisionomia, tomando expressão pezarosa; finalmente, prorrompeu em lágrimas. Encontrei um troço de cavaleiros diante das pobres instalações do santo, esperando para escoltá-lo à capela Imperial, onde o imperador, ministros de estado, membros do Poder Legislativo, juízes, governadores provinciais e a elite do exército e da igreja se haviam reunido para recebê-lo. Sendo o santo natural do Oriente, seu templo lembra um palácio árabe, com a parte interna que faz supor um interior modesto. Aqui não se vêem nem torre, nem agulha, nem relógio. Nenhum vestíbulo, grades, escadas, ou mesmo uma calçada para separar o santuário do leito da rua, onde passam os carros. A elevação da fachada parecia a extremidade do beiral de um celeiro; não era mais alto, nem mais largo, nem mesmo de melhor gosto. A portalada, além disso, ficava abaixo do chão úmido e escorregadio. Tudo parecia pobre e tosco, até a própria cortina que pendia à porta está desbotada, gasta, e foi tomada emprestada a “Luzia”, cujo nome aparecia ali, bordado.
Desviamos a cortina para um lado, e vimos paredes grosseiras, vigas nuas, assoalho úmido cedendo ao nosso peso, com pedaços de velhos tapetes cobrindo os lugares mais estragados. Passando pelos retratos de diretores, descobrimos o santo em uniforme de gala, encostado à parede, esperando que o tempo melhorasse. As mulheres se amontoavam para beijar-lhe a mão, curvar-se diante dele, e algumas sentavam-se à sua frente e ficavam a admirá-lo. Usava ele um elmo guarnecido de plumas, curta pelerina de cambraia com rendas em redor do pescoço, túnica vermelha com abas que lhe chegavam aos joelhos, canos de bota pretos e grandes esporas. Seus pés já estão enfiados nos estribos, que vão presos às coxas do santo ao invés de seguros à sela. Numa das mãos tem um escudo, na outra um bastão. Há pronto um manto para lançar sobre seus ombros, logo que estiver montado. Traz à cintura uma espada, e nos punhos folhos de musselina. Sua estatura é a de um soldado comum, porém o rosto, liso e corado, sem barba, suíças ou bigode não é o de um guerreiro. Seu cavalo está num estábulo próximo. O elmo, a couraça, e os guantes são de papelão colorido, imitação de aço. Às 2 horas, não tendo o tempo melhorado, as tropas foram mandadas embora, e desistiu-se da procissão.
A caminho de casa, visitei a capela Imperial, apinhada de povo. Duas fileiras de alabardeiros, que se estendiam desde a entrada até o altar, acabavam de formar uma passagem para uma procissão em miniatura. O órgão tocava e os eunucos cantavam; o ar estava de tal modo viciado que dois negros caíram, e foram retirados, como mortos. Vi que era impossível ficar ali cinco minutos sem ter de aproximar-me da porta a fim de respirar ar fresco. Teve começo finalmente o programa: em primeiro lugar vieram os eunucos do coro, depois a Irmandade com velas acesas, padres e cônegos; seguiu-se o corpo de Deus sob um dossel, e sob ele o imperador portando uma vela acesa, ministros de estado e outros, com seus filhos em roupas da corte, lembrando um Pequeno Polegar a executar uma dança mourisca. Vinham a seguir os guardas com suas lanças brunidas. Nesta ordem o conjunto desfilou três vezes pela igreja; assim se completaram as cerimônias oficiais do dia.
A seguir, juntamente com um amigo, fui ver o “Defensor do Império do Brasil”, e não fiquei pouco surpreendido de encontrá-lo confinado a uma espécie de escuro armário de parede, e inteiramente desprovido de suas roupas como se tivesse sido assaltado por um bando de ismaelitas ou de comanches. Não tinha sequer um trapo em cima do corpo. Sua atitude eqüestre exigia algo mais que uma posição rígida, e vi então como se obtinha a variação da posição dos membros. O santo estava sentado num cavalete, e, em todas as junturas foi construído como boneco de engonço. Seu cavalo de batalha, presente do Imperador, foi descrito pelo sacristão como um “animal perverso” por haver, no ano passado, desrespeitado o santo, pinoteando de tal modo que, não fosse a ajuda de Nossa Senhora, teria o cavaleiro sido jogado no chão! A imagem é velha de madeira dura e pesada. Amestraram um cavalo fazendo-o ajoelhar-se até que o santo pudesse ser adequadamente ajustado à sela.
Em resposta a uma observação sobre a nudez do santo, o zeloso sacristão quase derramou lágrimas ao dizer-nos que a igreja era por demais pobre para lhe comprar roupa. “Contratamos um armador para vesti-lo durante os festejos, e é tudo o que podemos fazer. Em Lisboa o santo recebe vencimentos de tenente-coronel, e lá sua capela é muito rica.”
[1854]