A cachaça, bebida popular, criou, no cancioneiro, o ciclo das lodaças de bodega; o vinho, usado pela burguesia, deu lugar aos cantares e saúdes de mesa, outrora freqüentes nos jantares festivos. Foi Sílvio Romero quem primeiro recolheu estas composições da nossa poesia anônima. Conquanto, disse ele, não se nos tenha ainda deparado nas coleções de cantos populares que temos podido consultar, certos versinhos, que costumam acompanhar as saúdes nos banquetes, todavia não deixarn eles de ser uma das manifestações, ainda que das mais acanhadas, da poesia popular; e por isso aqui indicamos alguns fragmentos dos que se costumam contar em nossos jantares burgueses. Como a coisa se passa é sabido: alguém faz uma saúde, e por via de regra, a soleniza cantando. [1] Luís da Câmara Cascudo, em nota às Festas e tradições populares do Brasil, esclarece que as saúdes cantadas, drinking songs, eram de uso universal, muito populares entre os povos latinos, comuns nos jantares festivos, comemorações íntimas, casamentos, ceias de aniversários, durante o século XIX no Brasil. [2] Além de Sílvio Romero, outros pesquisadores recolheram peças alusivas ao costume novecentista. Melo de Morais Filho, Pereira da Costa, Guilherme Melo, Manuel Querino são nomes que podem ser apontados.
As saúdes começavam, quase sempre, pelo brinde à dona da casa:
Saudemos à dona da casa
E toda a sua geração
Se assim fora, se assim fora
Saudemos com o copo na mão
Papagaio, periquito
Saracura, sabiá
Todos cantam, todos bebem
A saúde de Iaiá [3]
Seguiam-se muitos e muitos outros brindes. Os donos da casa, os aniversariantes, os noivos, a cozinheira, “pelo agradável prazer que nos está dando com os seus apreciados quitutes”, eram saudados. [4] Havia, tantas vezes, insinuações maliciosas...
Sinhá noiva e sinhô noivo
Deus lhe dê um bom estado;
Que daqui a nove meses
Haja um rico batizado [5]
Sinhô noivo, dê-me doce
Sinhá noiva, manda dá
Pois pela noite adiante
Sinhá noiva pagará
Louva-se o vinho com incontida alegria:
O vinho é coisa santa
Nascida da cepa torta
Que a uns faz perder o tino
A outros errar a porta
Se tu és vinho, robusto,
Eu sou quem te busco
Se deres comigo na lama
Bravos toré
Darei contigo na cama [6]
O roxo vinho
Corra nas tripas
Mande-nos Baco
Dele cem pipas [7]
Havia o entusiasmo geral. Todos queriam beber e beber bastante. Era como se fosse uma batalha, uma grande batalha.
Amigos bebamos
Bebamos com glória
Que a nossa vitória
Vai amanhecer
E quando a chamada
Rufar o tambor!
Corramos às armas
Deixemos amor [8]
O auge do entusiasmo, porém, era no momento do estribilho vira, vira, vira.
Todos entravam a cantar, batendo com os talheres nas bordas dos pratos ou nos copos.
Amigos e companheiros
Vira, vira, vira
Companheiros vira
Oh! que belo marinheiro
Como trepa tão ligeiro
Quem for covarde
Saia da mesa
Que nossa empresa
Requer valor
Vira, vira, vira
Companheiros vira [9]
O gato amarrado
Dá pra miar
A boa champanha
Dá pra lançar
Este é o gato
Que pegou o rato
Que roeu a roupa
Que estava na corda
Que amarrava a bota
Bota vinho, bota
Vira, vira, vira [10]
Até os santos gostavam de virar.
Encontrei com Santo Antônio
Na ladeira do Pilar
Gritando em altas vozes
— Este copo é de virar [11]
Os mais animados, sentindo-se capazes de maiores lances, gritam saúdes desafiadoras.
Você de lá, eu de cá
Tem um riacho no meio
Você de lá bebe um trago
Eu de cá trago e meio.
Depois do bom vinho, chegava a hora do licor, serenava e lá vinham as recordações:
Azeitonas bem curtidas
Tem um singular sabor
Só me lembro dos amigos
Quando tomo este licor [12]
Se algum mérito existe em despertar recordações, lembremo-nos também que a cachacinha merece elogiada.
Minha cachacinha
Que bebi pela manhã
Está me dando uma saudade
Do areal de Itapoã [13]
As saúdes de mesa, noutros tempos tão divulgadas, não desapareceram inteiramente. Ainda continuam bem vivas em certos pontos do Brasil. São, mais ou menos, as atuais “cantigas para bebedeiras”, referidas por Fausto Teixeira, no seus Estudos de Folclore. Os versos cantados em todo o estado de São Paulo e em grande parte de Minas Gerais e Rio de Janeiro são mui parecidos com os colhidos na Bahia por Manuel Querino. Sempre o estribilho: vira, vira, vira.
Oh! que belos companheiros
Como viram tão ligeiros
Se é covarde
Saia da roda
Que nossa empresa
Requer valor!
Primeira bateria
Vira... vira.., vira [14]
Oneida Alvarenga fala nos coretos, palavra que, segundo a autora, na cidade mineira de Diamantina, designa os cantos de bebidas. [15] Os coretos, ou melhor, os coretos de mesa, ensina Alexina de Magalhães Pinto, cantados de pé empunhando copos, são ainda em uso nos banquetes de roça, no interior do Brasil. [16]
Notas
1. Romero, Sílvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil, 1890.
2. Morais Filho, Melo. Festas e tradições populares do Brasil. 1946, p.10.
3. Melo, Guilherme. A música no Brasil, p.96-97.
4. Querino, Manuel. A Bahia de outrora. 1946, p.228.
5. Morais Filho, Melo. op. cit. p.12; 14.
6. Querino, Manuel. op. cit. p.228.
7. Costa, Pereira da. Folclore pernambucano. p.293.
8. Querino, Manuel. op. cit. p.229.
9. Idem, ibidem.
10. Costa, Pereira da. op. cit. p.292.
11. Idem, ibidem.
12. Romero, Sílvio. op. cit.
13. Carvalho, Carlos Alberto. Tradições e milagres do Bonfim. Bahia, p.68.
14. Teixeira, Fausto. Estudos de folclore. 1949, p.93.
15. Alvarenga, Oneida. Música popular brasileira. Editora Globo, p.251.
16. Pinto, Alexina Magalhães. Cantigas das crianças e do povo. Livraria Francisco Alves, p.133.