No valioso Dicionário da gíria brasileira (São Paulo, 1954), seu autor, Manuel Viotti nos diz no Prólogo, entre outras coisas, isto: "Nesta recolta de verbetes, que nos absorveu longas pesquisas de alguns anos absorveu longas pesquisas de alguns anos de constante e porfiado labor, procuramos não fazer obra feita, vale dizer, inserir material já catalogado em outros dicionários e vocabulários cujo rol vai mencionado na bibliografia anexa, salvo quando não figuravam ainda nos grandes dicionários da nossa língua". Do referido rol constam os dicionários de Aulete, Cândido de Figueiredo, Simões da Fonseca, Antenor Nascentes, C. Teschauer, visconde de B. Rohan.
Mais adiante, insiste o autor: "Este dicionário não trata apenas dos verbetes da gíria nacional, pois à medida que os colecionávamos, controlando-os com os mais recentes dicionários da nossa língua, encontrávamos repetidas lacunas de palavras, modismos, expressões que, não sendo propriamente da gíria popular, mereciam citados neste glossário, uma vez que não estavam ainda mencionados nos supra referidos dicionários".
Se bem compreendemos o texto, Viotti incluiu no seu Dicionário da gíria brasileira, não apenas termos e expressões dessa gíria, mas outros modismos usados pelo povo, embora não brasileiros, desde que não mencionados em qualquer dos dicionários da língua, grandes os pequenos.
Ora, não é essa exatamente a expressão da verdade, com relação a grande número de frases-feitas que se incluíram do Dicionário da gíria. Basta que se verifiquem, para exemplo, estas que figuravam, pelo menos, no Dicionário Contemporâneo, de Aulete-Santos Valente: cair das nuvens, chegar a mostarda ao nariz, dizer cobras e lagartos, dar por paus por pedras, dar em droga, pagar o pato, pintar a manta, pintar o sete, vender gato por lebre, voltar à vaca fria etc.
A relação é copiosa e longa, e nela se encaixa a significação do verbo batizar, que vai servir de tema aos nossos rabiscos de hoje.
Lê-se no Dicionário da gíria brasileira (p.49): "Batizar — 1. o leite ou o vinho: adicionar-lhes água".
Já estava isso averbado no Dicionário contemporâneo: "Batizar o vinho, o leite etc.: deitar água nesses líquidos".
Anteriormente já o consignara o Grande dicionário, de frei Domingos Vieira (de ed. do Porto, 1871), não no verbete batizar, mas na forma batizado: "Vinha (sic) ou leite batizado, que levou água".
Antes disso, já o havia registrado Morais, em seu dicionário (2ª ed., 1813): "Batizar o vinho: ministrar-lhe água". Indica-se aí uma fonte literária, a Arte de furtar, capítulo 54. De fato, lá está, à página 260 (Edição Garnier, Rio de Janeiro, 1919, anotada por João Ribeiro), no ca´pítulo que trata "Dos que furtam com unhas invisíveis", entre os quais se incluem "os estalajadeiros que batizam os vinhos e dão vianda de cabra por carneiro..."
A expressão é corrente na Espanha, e isso o atesta o Dicionário da Real Academia, onde se poderá ler no vocábulo Bautizar: "fig, y fam. Tratándose del vino, mezclado con água".
Nas minhas leituras e releituras dos velhos clássicos lusos e espanhóis, anotei alguns exemplos dessa significação atribuída ao verbo batizar. Por eles verá o leitor como isso de aguar o vinho ou o leite nos vem de longes datas.
Em Los sueños, de Francisco Quevedo, escritor, segundo se presume, entre 1606 e 1613, se insere o seguinte tópico satírico: "Dos taberneros, de quien, quando más encarecen el vino no se puede decir que lo suben a las nubes antes que hajan mezclado al vino agua de lluva..." E, pouco adiante: "Uno de ellos que reconoció el pantano mezclado, dijo: 'Rico vino!' a un picarazo a quien brindó. El otro, que, por lo aguanoso, esperaba antes pescar en la copa ranas que soplar mosquitos, dijo: 'Este é, verdaderamente rico vino, yno otros vinos pobretones, que no llueve Dios sobre cosa suya.'
El tabernero, sentido de los remoques, dijo: 'Beban y callen los borrachos. — Beban y naden há de decir — replicó un escudero..." (Los sueños. Coleção Austral, Buenos Aires, 1952, p.167).
Aí, como se vê, não se emprega o verbo batizar, embora aponte e critique a fraude do taverneiro. Mas, noutro exemplo do mesmo século XVII, vamos deparar a expressão ora aqui na berlinda. Refiro-me ao Diablo cojuelo, novela satírica de Luiz Velez de Guevara, publicada em Madri lá pelo ano de 1641. Nela encontramos o seguinte trecho (Ed. M. Aguilar, Madri, p.54): "Bien haya aquel tabernero de Corte, que se quita de esos cuidados y es cura de su vino, que le está bautizando en los pellejos y las tinajas..."
Essa comparação entre o taverneiro e o padre-cura, pois que ambos batizam, não é exclusivamente literária. O povo — observador como ele só já dela se utilizou em coplas ou trovas, como esta que aqui vai. colhida nos Cantos populares de Galícia, de Júlio Lago Alonso, e publicada no tomo 9, caderno 3, da Revista de Dialectología y Tradiciones Populares (Madri, 1953, p.507): "Na Galicia el sacerdote e alegremente comparado a los taberneros, porque ambos bautizan:
Os cregos y os taberneros
Teñen moito parecido
Os cregos bautizan menos
Y os taberneros o viño"