Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro

Houve um Sabiá falado
na vila da Cabaceira
que dizia em ponto firme
sou cantador de primeira
no tanger de seu repente
reunia tanta gente
que parecia uma feira.

Antonio Coqueiro era
residente em Quebradinho,
um dia disse: eu preciso
de ver este passarinho
para eu quebrar-lhes os ovos
se tiver pelancos novos
eu toco fogo no ninho.

Na vila de Cabaceira
chegando Antônio Coqueiro
por Vicente Sabiá
foi perguntando primeiro
lhe disseram não estar
porque hoje foi cantar
na casa de um fazendeiro

Querendo vamos pra lá
disse um rapaz é pertinho
hoje casou-se uma moça
filha do doutor Pedrinho
veja um cavalo selado
para Vicente ir montado
ele já vai no caminho.

Coqueiro chegou na festa
e disse a que tinha ido.
como era cantador
por todos foi recebido
porém Sabiá ficou
que nem galinha pra pôr
fazia tal remexido.

E disse logo a Coqueiro:
vamos ver quem perde ou ganha.
eu ando atrás de cantor
como formiga por banha
como piaba por gogo
gato por beira de fogo
menino atrás de castanha.

Coqueiro — Eu ando atrás de cantor
como preso por soltura
tamamduá por cupim
moleque por tanajura
teju por tempo de estio,
sapo por beira de rio
curumba por rapadura.

Sabiá — Eu ando atrás de cantor
como esmoler por tostão
como xexéu por banana
guriatã por melão
como pinto por monturo
ladrão por noite de escuro
e pulga por cabeção.

C — Sofre o menino espião
na casa parede-e-meia
mulher moça e homem velho
na força da lua cheia,
sofre o ferreiro a quentura
e você na noite escura
quando vai pra roça alheia.

S — Desgosta a dona da casa
se gato ou raposa vem
e lhe pega uma galinha
e espanta as outras que tem
se o poleiro é em lugar
que não se possa alcançar
você desgosta também.

C — A lavadeira agüenta
lavar roupa o dia inteiro
quem paga também agüenta
ficar sem o seu dinheiro
e você agüenta a roupa
dentro de um saco de estopa
se pernoitar no terreiro.

S — Me contaram que devido
o roubo de guardanapo
tu entraste numa loca
onde só cabia um sapo
e ficaste bem no centro
mas te puxaram de dentro
a custa da sacatrapu.

C — Não sei se será mentira
dos meninos da Candinha
que devido a precisão
roubaste uma galinha
e pra não sair em cenas
tu comeste até as penas
trancado na camarinha.

S — Como o povo mente muito
cada qual que conte a sua
me disseram que roubaste
uma franga de perua.
correu a polícia atrás
tu te amparastes no cais
engulis e a bicha crua.

C — Uma senhora casada
indo a uma sentinela
e porque ferrou no sono
tu lhe roubaste a chinela
mas ela depois tomou
ali mesmo te pegou
deu-te uma surra com ela.

S — Vamos passar desta linha
para outra adiantada
martelo 30 por 10
eu canto por caçoada
se tiver força no braço
o tem martelo de aço
vá dando alguma pancada.

C — Dirigi-me a uma festa uma tardinha
e brincando de esta ocasião
empurrei uma jaula com a mão
e soltei seis leões que dentro tinha
uma moça chorando coitadinha
me pediu que amarrasse, eu amarrei
e a jaula depois eu levantei
coloquei outra vez fera por fera
deixei tudo direito como era
teve palma o trabalho que prestei.

S — O meu pai pleiteava uma eleição
sempre foi candidato garantido
mas um tempo se viu quase perdido
mandou eu castigar toda a nação
fiz abrir-se ali grande vulcão
vomitando fumaça e fogo fora
eu disse extermino tudo agora
reduzi a cidade num degredo
nesse dia até o sol teve medo
que se pôs logo cedo antes da hora.

C — Isto ainda não são coisas demais
de parolas eu nunca tive medo
eu já dei uma tapa com o dedo
que arranquei a cabeça de um rapaz
já voltei um curisco para trás
que me vinha em procura do telhado
pois as nuvens assim tinham mandado
eu fiz ele voltar por onde veio
porém ele engelhou-se em certo meio
ficou balauçando pendurado.

S — Já está completando quase um ano
que eu fui procurar duas sereias
que cantavam em baixo nas areias
bem no centro do velho Oceano
pois tirei muita gente do engano
que achava difícil mergulhar
eu as trouxe em destino de criar
porém elas tristonhas e não comiam
e eu vendo que assim elas morriam
as levei novamente e fui soltar.

C — Agüentei uma chuva no sertão
uma tarde na serra do Grangonzo
obrigou-me ficar um tanto zonzo
com relâmpagos e estalos de trovão
dessa vez com a minha própria mão
uma faísca elétrica eu peguei
ela vinha descendo eu segurei
e torci-lhe a frente para ré
e prendia-a debaixo do meu pé
e com um ramo de mato eu apaguei.

S — Quase um dia uma onça me devora
mas meti-lhe a mão pela goela
e por dentro puxei a cauda dela
avessei o canal ficou pra fora
dois filhinhos de ela tinha nessa hora
me olharam miando, coitadinhos
eu ali tive pena dos bichinhos
resolvi e tornei endireitar
ela até ficou dando de mamar
e lambendo as cabeças dos gatinhos.

C — Tive raiva um dia de um bandido
fui mostrar minha força quanto é
e somente de um simples ponta-pé
derrubei-lhe uma fábrica de tecido
porém ele rogou-me e fez pedido
eu achei que devia endireitar
coloquei cada máquina em seu lugar
botei tudo nos pontos necessários
e mandei reunir-se os operários
botei tudo de novo a trabalhar.

S — A mulher que me case é quase preta
e por isso me fez uma traição
eu mandei preparar um foguetão
e amarrei-a na ponta da vareta
a taboca chiou e fez cruzeta
arrancou-lhe a cabeça e carregou
meia hora depois ela voltou,
eu preguei-lhe a cabeça ao corpo seu
e chamei-a e ela reviveu
nunca mais a morena me enganou.

C — No martelo agalopado eu não tropeço
mas me acho doente e abatido
o pulmão já ficou enrouquecido
este tanto senhores eu confesso
ao Vicente também agora peço
que deixamos por hoje a cantoria
mas não digas que isso é covardia
estou rouco não sei se já ouvisse
se não fosse o diabo da rouquice
eu em vez de galope até corria.

S — Por um lado estás certo e sem defeito
e por outro perdeste na questão,
eu não sou causador dessa razão
e não fui quem enrouqueci teu peito
vai tratar-te com zelo e bem direito
guardar-te pra outra qualquer dia
mas não digas que foi a cantoria
que te fez assim rouco e tão doente
porque podem dizerem foi Vicente
que usou de fazer feitiçaria.

(Pacheco, José. Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro [folheto de cordel])
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