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Carlos de Sá
Véspera de Natal. Na igreja iluminada os fiéis oram e rendem graças aos céus. Há
em todos os rostos um toque de felicidade calma, de apaziguamento. Nos lares
arruma-se a mesa ou coloca-se presentes nos sapatinhos. Os homens esquecem por
momentos suas preocupações, seus problemas de cotidianos e se deixam embalar
pela paz.
Menos aqueles quatro rapazes que andam na rua deserta. Parecem distraídos,
conversando normalmente, caminhando a esmo. Não é verdade. Seus olhos estão
atentos e seus passos levam-nos a um ponto determinado. Chegam a uma certa rua e
um deles pára junto ao poste. Os outros caminham depressa e um vai para a outra
esquina onde se confunde com o muro ensombrado. Esperam alguns instantes. Tudo é
silêncio. Os dois que pararam junto ao muro entram em ação. O mais magro sobe no
ombro do outro, cavalga o muro e pula no quintal. Rapidamente localiza o
galinheiro, torce o pescoço de uma ou duas galinhas e salta para a rua. Os
outros vem ao seu encontro e depressa desaparecem nas ruas silenciosas. Em certa
casa já os esperam com a água fervendo e os temperos preparados.
No dia seguinte o dono do quintal visitado descobre a falta de suas galinhas. E
fica à espera do descarado convite que lhe chega antes do meio-dia "para ir
comer um pedacinho de galinha" em casa de um dos roubadores (nesse caso não se
pode empregar o termo ladrão). E vai sem rancor, lembrando-se dos tempos em que
era rapazola e fizera o mesmo.
As gerações passam e o hábito fica, tornando-se tradição. Nessa pacata cidade, sem
crimes, sem roubos, sem violências, em véspera de Natal, carnaval, São João e
outras datas festivas, roubar galinhas é parte das comemorações e quem as tem
não facilita. Alguns chegam a prendê-las dentro de casa durante a noite, porque,
no dia seguinte, podem receber um alegre convite "para comer um pedacinho de
galinha na casa de seu fulano"...
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