Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Palhoça
....................................
Sociabilidade e etiqueta, por Eduardo Campos

Velhos costumes de nossa gente, por F. de Paula Cidade

Roubar galinhas é tradição, por Carlos de Sá
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Imaginário
....................................
Oficina
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


Velhos costumes de nossa gente

F. de Paula Cidade

Ruas pouco freqüentadas, mas nem sempre sem animação. Gente a cavalo por todos os cantos, principalmente nos arrabaldes e zonas comerciais, como na chamada doca. Pela manhã, rodavam pelas ruas as carrocinhas dos "verdureiros", nome dado aos vendedores de verduras pelo povo, trotavam os cavalos dos leiteiros, a parar de porta em porta para deixar a preciosa carga, leite gordo e bolas de manteiga que se formavam dentro das latas durante o transporte. Costumavam os leiteiros, depois de medir o leite que vendiam, acrescentar o "chorinho", dádiva de alguns centímetros cúbicos, habitualmente exigida pela dona de casa. Tintilando as ferragens das grossas cadeias que os ligavam entre si, presas aos tornozelos, passavam os presos condenados ao "carrinho", quando escalados para algum serviço fora do presídio, escoltados por praças do exército, que então dava as guardas para a cadeia. Ao meio-dia, quando o sino de cada igreja pausadamente fazia ouvir doze badaladas muito separadas entre si, o irmão das almas, com a sua opa vermelha e a sua sacola da mesma cor, batia de porta em porta, tirando esmolas para as missas das almas do purgatório. Alguns cantores de ruas, ao som de seus violões, entoavam as modinhas mais em voga, algumas delas da mais tocante ingenuidade. Assim, um casal de velhinhos, que conheci quando menino, cantava esses versos, cuja música simplista infelizmente não pôde figurar aqui:

Amas a uns e a outros,
pensando que eu me desespero;
Ama quem for de teu gosto,
que amor de dois eu não quero...
Ai! Ti!... Que não me esqueças de mim,
Ai! Ai!... Que não esqueço de ti.

Toma a chave do meu peito,
abre o meu coração.
Nele acharás escrito,
se te quero bem ou não...
Ai! Ai!... etc.

Não sei quem seria o autor desses versinhos e da música que os acompanhava. Corria depois o pires entre a assistência, que nele depositava de boa vontade as moedinhas de cobre.

Dado o uso generalizado do cavalo, surgiu o problema, aliás antiquíssimo e mesmo mundial, de deixar o animal a espera à porta  das casas. A solução desse problema veio do velho mundo, com o chamado "frade", estaca vertical de pedra ou de madeira (às vezes foram utilizados canhões antigos, enterrados com as boca para baixo), de forma cilíndrica dotadas de argolas nas partes superiores destinadas estas a permitir que as rédeas fossem amarradas. Enfim, um problema como o do estacionamento de automóveis em nossos dias.

Em 1890 e mesmo muito mais tarde ainda se podiam ver cavalos amarrados aos frades em frentes às casas comerciais mais importantes ou mesmo nas esquinas. Fregueses moradores nos arrabaldes ainda não servidos pelos bondes não só utilizavam os cavalos, como as charretes, ou sejam carrinhos geralmente tirados por um só animal.

À tarde, as vacas leiteiras, mansas e de úberes cheios, paravam junto às portas e o tratador delas, apanhando da mão da freguesia os copos e canecas, as ordenhava ali mesmo. Admitia-se que o leite cru, ingerido no momento em que é tirado da vaca, era o mais saudável, no que talvez por simples intuição se estivesse proclamando uma verdade. Aqui e acolá, às voltas com os carros e carroças puxadas por cavalos e por muares, viam-se as carretas com uma ou mais juntas de bois, de duas ou de quatro rodas, com seus condutores (carreteiro) à frente, a pé ou a cavalo, levando a agulhada encostada ao ombro, como se fosse uma longa espingarda.

Esses elementos não atulhavam as ruas porque não eram muito numerosos.

No ano em que vim ao mundo, Porto Alegre há muito tempo contava com um serviço de bondes, de tração animal, que não obstante não alcançavam a todos os subúrbios. Criados dez anos antes foram naturalmente considerados um progresso digno de nota. Como se sabe, um sistema de transportes coletivos tem muita importância no que diz respeito à expansão dos centros urbanos. Em linguagem de geógrafo pode-se chamar isso de aumento de isócronas das distâncias, o que permite ao homem, sem maiores fadigas e num tempo igual ou menos cobrir distâncias cada vez maiores. Pode assim morar num ponto e trabalhar noutro relativamente distante. Por esse modo, o modesto bonde de burros alargou insensivelmente a cidade, estendendo-a para muito além da praça do Portão.

Não obstante, aqueles veículos, que naquele tempo representavam uma das maiores comodidades para a população, hoje seriam considerados insuficientes e ridículos. Viajavam mais ou menos no escuro, tanto que neles o passageiro não podia ler o seu jornal. Nas curvas e nas subidas, quando o excesso de peso o encalhava, os homens desciam e ajudavam os animais, a que o chicote do cocheiro estimulava, secundado por gritos de animação e de incitamento ao esforço.

As ruas já eram iluminadas a gás, mas as casas de família continuavam fiéis ao lampião de querosene, como já se viu.

Corria de norte a sul do país a fama da beleza das mulheres gaúchas. O carmim ainda não chegara por lá, ou então seriam poucas a usá-lo, uma vez que às faces de todas elas — naturalmente as brancas — eram rosadas. A moda dos vestidos a balão havia passado, mas a das anquinhas havia começado, estendendo-se até muito mais tarde. A anquinha era uma pequena almofada, colocada à altura dos rins. Completava-se com o espartilho ou colete, um modelador de tecido muito forte e barbatanas dentro do qual as mulheres se apertavam, o qual só trazia vantagens para as mal conformadas.

Os homens da alta roda usavam ainda, principalmente em certas ocasiões, as cartolas lustrosas e as casacas. Habitualmente, o seu traje era o paletó e o fraque, o chapéu duro, a camisa de colarinho, peito e punhos engomados, além da bengala.

Não sei se já existia a famosa Limpeza Pública, que mais tarde veio acabar com as fossas domésticas (sem tratamento) e com os despejos nas praias. No entanto a Limpeza Pública, deu à cidade certos aspectos curiosos, com o "homem do cubo" a entrar pelas casas a dentro, no desempenho de suas funções. Aliás, o vaso não tinha a forma geométrica que lhe deu o nome: era um tronco de cone. Antes da Limpeza Pública, os escravos conduziam à cabeça enormes potes de barro ou barris de madeira, serviço feito à noite, que esvaziavam e lavavam nas praias, se as casas não dispunham de fossa ou poço seco para tal fim.

Lá  de vez em quando, a pacata vida da cidade era perturbada pelas badaladas dos sinos das igrejas — Bam...Bam... Bam... Era um incêndio. Os soldados que se achavam fora corriam para os quartéis onde as cornetas, a qualquer hora do dia ou da noite, começavam a dar repetidas vezes o toque de alarme. Partiam escoltas a auxiliar a extinção do fogo.

Creio que era uma das prescrições dos antigos regulamentos militares, ainda em vigor... por esquecimento.

Entre as profissões desaparecidas ou quase desaparecidas com o correr dos anos, uma das mais curiosas é a do "irmão das almas", que já vimos ao badalar dos sinos ao meio-dia andar de porta em porta a tirar para as almas do purgatório. Tirava principalmente para ele mesmo. A de sineiro era também muito importante, pois cada igreja tinha o seu. Não havia mãos a medir, o que se explica porque muitos atos da vida do povo eram regulados pelos toque dos sinos: as horas das orações, as missas de defuntos, as encomendações, as saídas do viático para atender aos moribundos, as festas de igreja, os incêndios, etc. A hora de ir para a cama. Havia em Porto Alegre vários "santeiros", que não davam conta das encomendas porque cada família tinha o seu altar doméstico ou oratório e as imagens envelhecidas eram mandadas "encarnar", ou seja, restaurar, quando ficavam como novas. Alguns desses profissionais chegaram a ser notáveis, pelo primor de seus trabalhos. Outras profissões ou desapareceram ou estão em vias de desaparecer, como seja a de funileiro, ocupação que correspondia ao uso de utensílios de lata ou folha de ferro estanhado, hoje substituída pelo alumínio, a de ferrador que o tráfego motorizado vai tornando inútil, a de fabricante de velas de sebo inteiramente desaparecida em nossos dias, a do aplicador de bichas ou sanguessugas, que hoje não mais se aplicam.

A antiga farmacopéia brasileira é um campo vasto que continua à espera de historiadores especializados. Isso não impede que o memoralista registre os seus aspectos em certa época e em determinada região.

A Farmácia do Firmiano era ainda em 1895, a mais conhecida fonte de saúde da cidade. Ficava na rua da Praia (Andradas), perto da rua Clara (João Manuel), mas os remédios caseiros e a homeopatia constituíam os primeiros recursos antes de chamar o médico. Entre os remédios caseiros havia o chá de sabugueiro e o jasmim de cachorro, o primeiro para começar a cura do sarampo, e o segundo para concluir o tratamento dessa enfermidade. Parece hoje uma invencionice: jasmim de cachorro, uma imundície que se tornara branca pelo demorada exposição à chuva e ao sol! Como havia em Porto Alegre numerosos cães pelas ruas, essa droga era abundante.

Para certas doenças, os remédios não davam os mesmos resultados que uma boa benzedura. O "quebranto", por exemplo. A criança aparece aborrecida, com insônia, chora sem que saiba o que está sentindo. Deve ter sido "mau-olhado", indisposição proveniente dos olhares e dos mimos de certas pessoas portadoras de influências malignas. A benzedeira, chamada pela família, reza em voz baixa certas orações apropriadas e servindo-se de um galhinho de arruda, salpica a criança com a água de um copo, que segura com a mão esquerda. Diziam nossos avós que era santo remédio...

Certas ervas medicinais foram de largo emprego. Como depurativos, para limpar o sangue após certas moléstias, a caroba e o tajujá gozavam de fama de serem eficacíssimos, principalmente quando ingeridos no mesmo cozimento. A nogueira teria as mesmas virtudes terapêuticas. A pitangueira e a goiabeira curavam as diarréias mais pertinazes. Esses recursos vegetais provinham da antiqüíssima farmacopéia nacional, provavelmente usual entre os bugres.

O barbeiro Calixto, preto reforçado, exercia múltiplas funções em sua barbearia, ali na rua da Praia, perto da Farmácia do Firmiano: barbeiro, dentista e enfermeiro, que como auxiliar dos médicos também ia à casa dos clientes. É que além de seu ofício de barbear e cortar cabelos, tirava dentes ou tapava-lhes os buracos, aplicava sanguessugas e curava cáusticos. Um menino de 1894, havia de vê-lo um dia agarrado ao boticão e este atracado ao dente — provavelmente um teimoso molar — de certo cavalheiro que urrava a cada puxão do operador. A porta da barbearia, um grupo de curiosos, gente grande e meninos que vinham da escola, assistiam o espetáculo.

Curar o cáustico era um affaire delicado, uma tarefa que só um inimigo rancoroso poderia levar a cabo com prazer. Tratava-se de uma espécie de senapismo de ação violenta, que aderia a pele, queimando-a, despregando-a; curar o cáustico correspondia a retirá-lo, com os pedaços da pele que a ele haviam aderido. Essa operação produzia dores insuportáveis. Os médicos receitavam-no a cada passo. Seguiam-se em ordem decrescente de sofrimentos as ventosas e senapismos, que se usaram até nossos dias. Senapismo era um emplastro de mostarda, que queimava mais superficialmente do que o cáustico. A ventosa podia ser simples ou sarjada. Tratava-se de um copinho de vidro, no fundo do qual se coloca um pouco de pasta de algodão. Põe-se fogo no algodão e encosta-se a boca do copinho na pele do doente, sobre a parte em que se quer aplicar a ventosa. Produz-se um meio vácuo no interior do copo e a pele é aspirada violentamente, numa sucção demorada. A ventosa sarjada é precedida de alguns talhinhos na pele, pelos quais o sangue esguicha. As bichas ou sanguessugas, minhocas que viviam nas águas, ao serem encostadas à pele cravavam suas sugadeiras na carne do paciente, até lhe retirarem boa quantidade de sangue. Vinham depois os clisteres, nos quais as modernas seringas de borracha, que apenas começavam a aparecer, eram muitas vezes substituídas por tripas de boi preparadas para tal fim, pelo que recebiam um bico de chifre ou de osso.

Pela boca, tomavam-se o óleo de fígado de bacalhau às colheradas, o óleo de rícino, além de complexas composições amargas, que os médicos receitavam em latim e com péssima caligrafia. Usavam-se numerosas fumentações, hoje caídas em descrédito. A banha de galinha, por exemplo, era de largo emprego nas dores reumáticas e noutras afecções dolorosas. O azeite doce, previamente aquecido, era aconselhado para as dores de ouvido e para atalhar a bronquite dos pequeninos, neste caso esfregado no peito. Resistem até hoje alguns elementos daquela velha farmacopéia: a tintura de arnica, para as machucadelas, a tintura de iodo, o elixir paregórico e pouco mais. Também os suadores e os escalda-pés tinham numerosas aplicações, muitas das quais esquecidas hoje. O suador exigia que se desse ao enfermo um "chá quente", mas para que produzisse o resultado previsto, devia-se pôr em cima do paciente verdadeira pilha de cobertores de lã. Uma história meio parecida com a do negro que vendia orações que defendiam contra as agressões dos cachorros, as quais só eram infalíveis no caso da pessoa ajudar com meia dúzia de pedras e um bom porrete, que mantivessem os agressores à distância...

A mulher que dava à luz era alimentada durante quarenta dias com caldos e canjas de galinha. Na previsão do acontecimento, enchiam-se os quintais e os primeiros sinais do parto, começava com a degola das aves. O galo era excluído do cerimonial, mas ao fim do "resguardo" ficava só no terreiro. Dos males o menor, diria ele, se soubesse falar. As roupas do pascituro eram defumadas com alecrim e com outras ervas aromáticas e o umbigo da criança, no momento oportuno, devia ser enterrado no quintal.

Porto Alegre de 1883-1884. Um mundo tão diferente do teu modificou, não sei se para melhor ou para pior, a tua fisionomia e os teus costumes. Para que marchasses ao compasso do progresso, a tua vida foi mecanizada. Mesmo aqueles que morreram dez anos mais tarde não te reconheceriam se ressuscitassem hoje. Teriam de aprender tudo de novo. Para comprarem um litro de leite, ficariam à espera do leiteiro a cavalo, com dois latões, um de cada lado da montada. Estranhariam até os nomes das ruas e protestariam contra a mudança injustificável de nomes de teus bairros, crismados hoje, para maior confusão dos carteiros, com designações que lembram apenas os arredores do futuro estado da Guanabara.

Se o dia do juízo fosse amanhã e se erguessem para a vida os que atualmente dormem seu longo sono naquele barro vermelho que se amontou lá no fim da rua da Azenha, certamente pensariam eles que tinham se enganado e ressurgido numa terra estranha.

(CIDADE, F. de Paula. "Velhos costumes de nossa gente". Correio do Povo. Porto Alegre, 25 de outubro de 1958)