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Eduardo Campos
As pessoas que vivem na mesma sociedade devem cumprir determinadas normas de
tratamento e atenções mútuas — que denominaremos etiqueta — para que as reações
de ordem social possam estar equilibradas. Em mais de uma oportunidade temos
insistido, na tentativa que muito nos agrada, em estudos de tais
manifestações sociais, procurando, sem pretensões de criar conceitos
definitivos, oferecer material para os que com mais empenho e a mais vagar,
possam interpretá-lo acertadamente.
As pequenas cidades do interior cearense — e provavelmente as de todo o nordeste
brasileiro — afinam pelos movimentos de inspiração social. Os divertimentos, os
hábitos, os costumes, pouca diferença terão de um para outro lugar. Talvez seja
essa semelhança que pouco interesse desperta nos estudiosos, que, inadvertidos
de sua grandiosidade, partem do princípio de que o que ocorre nessa existência
social que palpita, prenhe de vida, nada apresenta de diferente ou anormal.
Mas precisamente nessas coletividades rurais, como por exemplo a de Pacatuba,
vibram as pequenas células de pulsação social — pequenas famílias que compõem a
infra-estrutura da sociedade — sob as mais diversas influências deixando
transparecer usos e costumes que bem refletem tradição folclórica das mais ricas
mas que, a pouco e pouco vai se perdendo, desencorajada.
Desde a gestação ao nascimento da criança de seu desenvolvimento até à sua
morte, já adulta, há toda uma série de normas que essa sociedade, aparentemente
destituída de regimento próprio, passa a aplicar diaramente.
É de bom-tom, portanto quando a mulher sertaneja descobre estar grávida a sua
colega, fazer comentários jocosos: "Hum, isto parece novidade!" — "Ah, será que
o teu menino vai ficar no canto?" — "Hum, eu acho que esta tua doença só vai
passar daqui a nove meses..." Quando a criança nasce, a frase comum entre os
homens é mais ou menos esta: — "Como é? você foi pai ou mãe?". Se nasce fêmea:
—
"Você foi mãe ontem à noite?" Há o inevitável convite: "Vamos beber o "xixi"
do menino!" Trata-se, é evidente, de um convite ao amigo para tomar um pouco de
aluá preparado especialmente para comemorar o acontecimento, ou experimentar
alguma pinga saborosa, de anos guardada carinhosamente para momentos como esse.
Nasce a criança. Seguem-se as visitas. Aliás, desde o momento em que se deu o
parto a casa já se encheu de mulheres. Os homens vão-se chegando depois, pois
essa coisa de "nascer menino" é assunto de "comadre" e de mulher. Os que vão ver
a criança, terão que dizer frases como esta, que é da etiqueta rural:
— Ô bichim engraçadim...
Há frases comuns que são repetidas para agradar: "Ninguém pode dizer com quem se
parece, pois é tão novinho..." — "O cabra vai ser homem mesmo, é chorador comos
todos!" — "Ah, está dormindo que só um anjinho..."
Para o sertanejo, de uma maneira geral, a criança quando dorme ou morre é
comparada sempre a um "anjinho". E "inocente" é o designativo mais comum: "Não
faça isso com o inocente..." — "Tão pequeninho, tão inocente..."
A humildade do sertanejo manifesta-se, via de regra no tratamento respeitoso aos
indivíduos importantes que conhece. Não pede licença para passar entre duas ou
várias pessoas que conversam numa calçada. A etiqueta da sua educação obriga-o a
descer a calçada e, estando de chapéu à cabeça, descobrir-se respeitosamente.
Cumprimenta a conhecidos e estranhos, principalmente a estranhos. Ao cruzar numa
estrada com outro cavaleiro, dá sempre "Bom-dia", "Boa-tarde", ou "Boa-noite",
conforme a hora. Se é amigo, manda a etiqueta que detenha a alimária, para dois
dedos de prosa:
— Está tudo bem? Como vai a família!
Se é tempo de inverno, perguntará pelo roçado do outro. Se está sob a soalheira
mesmo assim não se mostra pessimista. "É ter fé em Deus, que o diabo quer é
moleza..." Não diz nome feio à frente de mulheres, nem de meninos. "Olha o
respeito, que tem mulher", adverte. Ou então: "Olha a inocência do menino,
ignorante!...
A morte é uma esponja. Tira todos os defeitos. Apaga crimes e nódoas mais
firmes. O respeito aos mortos, mesmo sendo inimigo, é exigido por essa sociedade
onde se vive geralmente com simplicidade e humanidade.
— Ah, fulano morreu? Que Deus tenha a sua alma em paz...!
Quando sabem que o morto teve gravíssimos pecados em vida, inclusive autor de
uma ou duas mortes, dizem simplesmente:
— Ah, que Deus tome conta de sua alma.
Se o defunto teve uma existência comum com a vizinhança recebe a homenagem de um
velório. Aceita-se o passamento do ente querido como coisa consumada, desejo de
Deus. Por isso é que se diz: "A vida da gente já vem marcada por Deus. Ele tinha
que morrer hoje..." Não há exagero. Não se ouvem gritos de desespero. Pobre
lamenta-se pois é de bom-tom lamentar-se... Mas os amigos que fazem guarda ao
corpo contam anedotas, relembram de vez em quando incidentes de sua existência e
os da casa — cumprindo também uma etiqueta funerária — servem em certo momentos
café ou aguardente.
Os homens geralmente postam do lado de fora da casa. Na sala, onde está o
cadáver, ficam as mulheres. Essas rezam, e rezam em voz alta, e o murmúrio de
lábios rezando muitas vezes abafa a conversa que se destila em meia-voz no
terreiro.
E a etiqueta das festas. Já vimos, em artigos anteriores, a etiqueta do forró, a
etiqueta da vida comercial... Mas concordemos, afinal de contas, há muita coisa
interessante que nos passa desapercebida.... E assim vamos perdendo, sem saber,
o que exista de saboroso no tratamento social dos grupos rurais do Nordeste. O
que não cabe, acrescentamos na exigüidade deste trabalho.
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