|
Herberto Sales
Nada caracteriza mais o garimpeiro do que o seu espírito de imprevidência.
Tem ele uma verdadeira volúpia de gastar tudo o que ganha. E quanto mais tempo
passar infuzado (sem encontrar diamantes), mais incoercível se torna, ao
bamburrar, a sua ânsia de esbanjamento. É algo semelhante a um sentimento de
vingança. Circulam histórias a esse respeito, com a aparência de anedotas, mas
bastante ilustrativas, como a de certo meia-praça que, tendo passado dois anos
sem comer manteiga, no dia em que fes dinheiro no garimpo foi direto à padaria
e, adquirindo uma lata de cinco quilos daquele produto, lambuzou de manteiga
todo o corpo, até esvaziar a lata! Fatos semelhantes são possíveis de acontecer,
porque o garimpeiro, em tais circunstâncias, se encontra sempre sob a ação do
álcool. Realmente, ao bamburrar, o garimpeiro se entrega a bebedeiras nos bares
e botequins, durante as quais podem acontecer as coisas mais absurdas — até
mesmo esfregar manteiga no corpo.
O saco do garimpeiro endinheirado, além de conter três ou quatro vezes mais
as quantidades dos gêneros e mercadorias habitualmente constantes deles, inclui
todas as iguarias porventura existentes na praça, sobretudo o tradicional
requeijão. A esse reforçado saco dão o nome de felipão. Tal fartura, entretanto,
tem um caráter efêmero e na semana seguinte, não raro, o garimpeiro está
novamente reduzido à rotineira provisão custeada pelo fornecedor.
O garimpeiro é um tipo eminentemente citadino. Ao contrário do trabalhador da
zona rural dos mesmos municípios lavristas, freqüenta ele bilhares, cinema,
cabarés, pratica esportes, como o futebol, integrando os times locais. Gosta de
vestir-se bem, ou melhor, de ostentar luxo, sempre que possa. O vestuário,
aliás, é uma das maiores preocupações do garimpeiro bamburrado. Ele vai às
lojas, compra tudo da melhor qualidade possível, calçados, meias, camisas de
seda, cortes de casimira e de linho branco — ainda que, à última hora, lhe falte
dinheiro para retirar da tenda do alfaiate as roupas que mandou fazer.
Na fase áurea da exploração das Lavras Diamantinas, o esbanjamento do
garimpeiro bamburrado assumiu formas verdadeiramente inconcebíveis. Um homem
entrava num botequim e mandava abrir não um litro de conhaque, mas uma caixa. E
fazia que todos bebessem à custa dele — hábito, aliás, conservado até hoje,
embora em menores proporções. Essa prodigalidade do garimpeiro, como é natural,
determinou sempre enorme afluxo de meretrizes às cidades lavristas.
Atualmente, com o decréscimo da produção diamantífera, não se registram,
praticamente, casos de grandes bambúrrios como outrora, quando um garimpeiro
pagava cinqüenta mil réis para alguém lhe trocar uma nota de quinhentos, ou
quando, como ocorreu em Piranhas, município de Andaraí, negociantes como José
Bichara faziam pedidos de duzentas caixas de cerveja — transformando as suas
casas de negócio quase em filiais de cervejarias. O dinheiro corria "feito
água", para usarmos uma expressão típica do garimpeiro. E, de todo esse "mar" de
dinheiro, que restou afinal? Podem ser contados pelos dedos os casos de
garimpeiros que se tornaram independentes.
Se a produção diamantífera decresceu, a índole do garimpeiro, entretanto, não
mudou. Ele gasta enquanto tem o que gastar, e a sua vida continua a se alternar
entre a miséria e a abastança efêmera. Só usa chinelos, ou rústicas alpercatas,
até o momento em que obtém o dinheiro suficiente para comprar o calçado mais
caro da praça — embora depois tenha que andar de pés no chão.
Apesar de sua natureza estróina, o garimpeiro lavrista é, em geral, ordeiro e
pacífico. E sua honestidade é reconhecidamente proverbial. Os casos de roubos de
diamantes, na verdade, não são comuns. Em toda a história das Lavras não se
registra, por exemplo, um único caso de assalto, embora existindo condições para
isso. Realmente, compradores de diamantes, viajando, sozinhos, de uma localidade
para outra, percorreram sempre com a maior segurança as estradas desertas,
transportando grandes somas em dinheiro ou em pedras preciosas, o que não seria
possível numa região infestada de ladrões.
Passar buso (carbonado ou diamante pintados, isto é, disfarçados em sua má
qualidade, ou mesmo inteiramente falsificados), visando o engodo de um comprador
inexperiente, é ato repudiado pela maioria dos garimpeiros lavristas, e aquele
que o pratica estará estigmaizado para sempre.
|