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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Oficina
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Tabuletas e anúncios — Mercado de peixe, por Thomas Ewbank

A cidade e seus carrinhos-de-mão

Índole do garimpo, por Herberto Sales
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


Índole do garimpo

Herberto Sales

Nada caracteriza mais o garimpeiro do que o seu espírito de imprevidência. Tem ele uma verdadeira volúpia de gastar tudo o que ganha. E quanto mais tempo passar infuzado (sem encontrar diamantes), mais incoercível se torna, ao bamburrar, a sua ânsia de esbanjamento. É algo semelhante a um sentimento de vingança. Circulam histórias a esse respeito, com a aparência de anedotas, mas bastante ilustrativas, como a de certo meia-praça que, tendo passado dois anos sem comer manteiga, no dia em que fes dinheiro no garimpo foi direto à padaria e, adquirindo uma lata de cinco quilos daquele produto, lambuzou de manteiga todo o corpo, até esvaziar a lata! Fatos semelhantes são possíveis de acontecer, porque o garimpeiro, em tais circunstâncias, se encontra sempre sob a ação do álcool. Realmente, ao bamburrar, o garimpeiro se entrega a bebedeiras nos bares e botequins, durante as quais podem acontecer as coisas mais absurdas — até mesmo esfregar manteiga no corpo.

O saco do garimpeiro endinheirado, além de conter três ou quatro vezes mais as quantidades dos gêneros e mercadorias habitualmente constantes deles, inclui todas as iguarias porventura existentes na praça, sobretudo o tradicional requeijão. A esse reforçado saco dão o nome de felipão. Tal fartura, entretanto, tem um caráter efêmero e na semana seguinte, não raro, o garimpeiro está novamente reduzido à rotineira provisão custeada pelo fornecedor.

O garimpeiro é um tipo eminentemente citadino. Ao contrário do trabalhador da zona rural dos mesmos municípios lavristas, freqüenta ele bilhares, cinema, cabarés, pratica esportes, como o futebol, integrando os times locais. Gosta de vestir-se bem, ou melhor, de ostentar luxo, sempre que possa. O vestuário, aliás, é uma das maiores preocupações do garimpeiro bamburrado. Ele vai às lojas, compra tudo da melhor qualidade possível, calçados, meias, camisas de seda, cortes de casimira e de linho branco — ainda que, à última hora, lhe falte dinheiro para retirar da tenda do alfaiate as roupas que mandou fazer.

Na fase áurea da exploração das Lavras Diamantinas, o esbanjamento do garimpeiro bamburrado assumiu formas verdadeiramente inconcebíveis. Um homem entrava num botequim e mandava abrir não um litro de conhaque, mas uma caixa. E fazia que todos bebessem à custa dele — hábito, aliás, conservado até hoje, embora em menores proporções. Essa prodigalidade do garimpeiro, como é natural, determinou sempre enorme afluxo de meretrizes às cidades lavristas.

Atualmente, com o decréscimo da produção diamantífera, não se registram, praticamente, casos de grandes bambúrrios como outrora, quando um garimpeiro pagava cinqüenta mil réis para alguém lhe trocar uma nota de quinhentos, ou quando, como ocorreu em Piranhas, município de Andaraí, negociantes como José Bichara faziam pedidos de duzentas caixas de cerveja — transformando as suas casas de negócio quase em filiais de cervejarias. O dinheiro corria "feito água", para usarmos uma expressão típica do garimpeiro. E, de todo esse "mar" de dinheiro, que restou afinal? Podem ser contados pelos dedos os casos de garimpeiros que se tornaram independentes.

Se a produção diamantífera decresceu, a índole do garimpeiro, entretanto, não mudou. Ele gasta enquanto tem o que gastar, e a sua vida continua a se alternar entre a miséria e a abastança efêmera. Só usa chinelos, ou rústicas alpercatas, até o momento em que obtém o dinheiro suficiente para comprar o calçado mais caro da praça — embora depois tenha que andar de pés no chão.

Apesar de sua natureza estróina, o garimpeiro lavrista é, em geral, ordeiro e pacífico. E sua honestidade é reconhecidamente proverbial. Os casos de roubos de diamantes, na verdade, não são comuns. Em toda a história das Lavras não se registra, por exemplo, um único caso de assalto, embora existindo condições para isso. Realmente, compradores de diamantes, viajando, sozinhos, de uma localidade para outra, percorreram sempre com a maior segurança as estradas desertas, transportando grandes somas em dinheiro ou em pedras preciosas, o que não seria possível numa região infestada de ladrões.

Passar buso (carbonado ou diamante pintados, isto é, disfarçados em sua má qualidade, ou mesmo inteiramente falsificados), visando o engodo de um comprador inexperiente, é ato repudiado pela maioria dos garimpeiros lavristas, e aquele que o pratica estará estigmaizado para sempre.

(Em RIBEIRO, Joaquim. Os brasileiros. Rio de Janeiro, Pallas / Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1977, p.564-567)