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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Imaginário
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Papa-figo, por Ademar Vidal

A princesa roubadeira

Três histórias de garimpo
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


Papa-figo

Ademar Vidal

Ilustração de Marcos JardimQuem era esse papa-figo tão falado? Aonde vivia? Em que se ocupava? Na cidade, toda gente ficava encolhida de receios quando se falava no nome do enfermo que só comia fígado de menino. Toda gente? Sim: os homens e mulheres não escondiam preocupações de resguardar os filhos pequenos da possibilidade de alguma tragédia sempre em ponto de ocorrer. Então, os meninos, estes habitavam o reino do eterno medo, subjugados todos eles pela idéia do monstro desnaturado que não lhes respeitava a integridade física. Vez por outra circulava a notícia apressada de que desaparecera aquela criança da rua da Medalha ou a outra da rua da Tesoura, da estrada do Carro ou da rua da Viração, da rua da Gameleira ou do Jaguaribe — e era de notar o espanto geral que a novidade despertava entre a gurizada atenta na marcha desses acontecimentos tão desagradáveis.

Sabia-se que o papa-figo residia em lugar não identificado. Porém se desconfiava com justas razões de que essa moradia ficava para as bandas da Matança. Lá para os lados de Joca da Boa Sentença. O bruxo montava guarda a todos os enterros, fixava bem as sepulturas das crianças, a fim de que, nas horas silenciosas, entrasse com o jogo velho: abria o caixão e dele retirava o cadáver, levando-o para a sua macabra oficina de operações. Depois de extrair o fígado, largava o morto, isto é, voltava com ele ao ombro e deixava-o novamente na catacumba. Mostrava cuidados em não revelar o menor sinal de sua passagem de insaciável comedor de fígado humano. Tinha-se conhecimento disso e daí as famílias entrarem em conversas com Germino Barreto, que era o administrador do cemitério, pessoa digna e em quem se podia confiar.

O papa-figo sofria de mal incurável. Falava-se que era chagado pelo corpo todo. Não tinha mais pele. E as dores que experimentava eram cruciantes, diminuindo apenas quando o enfermo comia fígado — e fígado de menino. Porque dos outros, pertencentes aos homens, não tinham mais vitalidade, fígado que perdera a força e, portanto, se fazia imprescindível continuar na trilha que tanto perturbava a existência das crianças. E o papa-figo adotava a sua política; para não ser injusto, apenas restringia a caça aos meninos mal-comportados, aqueles que eram desobedientes, teimosos e chorões. Os gordos mereciam maior cobiça. Enfim, no frigir dos ovos, o que viesse na rede servia, era sempre peixe.

E a realidade é que no mundo impossível das crianças paraibanas havia disciplina e ordem desde que fosse invocado o poder extraordinário do fantasma tão odiento quanto malsinado.

(VIDAL, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.125-126)