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Ademar Vidal
Quem era esse papa-figo tão falado? Aonde vivia? Em que se ocupava? Na
cidade, toda gente ficava encolhida de receios quando se falava no nome do
enfermo que só comia fígado de menino. Toda gente? Sim: os homens e mulheres não
escondiam preocupações de resguardar os filhos pequenos da possibilidade de
alguma tragédia sempre em ponto de ocorrer. Então, os meninos, estes habitavam o
reino do eterno medo, subjugados todos eles pela idéia do monstro desnaturado
que não lhes respeitava a integridade física. Vez por outra circulava a notícia
apressada de que desaparecera aquela criança da rua da Medalha ou a outra da rua
da Tesoura, da estrada do Carro ou da rua da Viração, da rua da Gameleira ou do
Jaguaribe — e era de notar o espanto geral que a novidade despertava entre a
gurizada atenta na marcha desses acontecimentos tão desagradáveis.
Sabia-se que o papa-figo residia em lugar não identificado. Porém se
desconfiava com justas razões de que essa moradia ficava para as bandas da
Matança. Lá para os lados de Joca da Boa Sentença. O bruxo montava guarda a
todos os enterros, fixava bem as sepulturas das crianças, a fim de que, nas
horas silenciosas, entrasse com o jogo velho: abria o caixão e dele retirava o
cadáver, levando-o para a sua macabra oficina de operações. Depois de extrair o
fígado, largava o morto, isto é, voltava com ele ao ombro e deixava-o novamente
na catacumba. Mostrava cuidados em não revelar o menor sinal de sua passagem de
insaciável comedor de fígado humano. Tinha-se conhecimento disso e daí as
famílias entrarem em conversas com Germino Barreto, que era o administrador do
cemitério, pessoa digna e em quem se podia confiar.
O papa-figo sofria de mal incurável. Falava-se que era chagado pelo corpo
todo. Não tinha mais pele. E as dores que experimentava eram cruciantes,
diminuindo apenas quando o enfermo comia fígado — e fígado de menino. Porque dos
outros, pertencentes aos homens, não tinham mais vitalidade, fígado que perdera
a força e, portanto, se fazia imprescindível continuar na trilha que tanto
perturbava a existência das crianças. E o papa-figo adotava a sua política; para
não ser injusto, apenas restringia a caça aos meninos mal-comportados, aqueles
que eram desobedientes, teimosos e chorões. Os gordos mereciam maior cobiça.
Enfim, no frigir dos ovos, o que viesse na rede servia, era sempre peixe.
E a realidade é que no mundo impossível das crianças paraibanas havia
disciplina e ordem desde que fosse invocado o poder extraordinário do fantasma
tão odiento quanto malsinado.
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