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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Colher de Pau
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Bênção tempera vatapá, por Regina Schneider

Comidas de época, por Hildegardes Viana

Dietética carioca de 1817, por Carl Friedrich von Martius
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


Dietética carioca de 1817

Carl Friedrich von Martius

A alimentação das classes inferiores do povo dá pouco ensejo às doenças. A mandioca (Cassava), o fubá e o feijão preto, em geral cozidos com toucinho e carne seca ao sol e salgada, formam a principal parte do embora pesado e grosseiro alimento, mas saudável para quem faz muito exercício ou toma vinho português ou cachaça. Os peixes não são aqui tão apreciados como nas costas européias. Nos países quentes, onde os alimentos mais depressa se corrompem, parece que o uso do peixe aumenta ou está sempre em relação com a preguiça, com a pobreza, assim como com o estado doentio do povo; ao menos, em toda a nossa viagem, existia maior miséria, onde os habitantes se alimentavam exclusivamente de peixe. Na classe média da burguesia do Rio de Janeiro, que ainda não adotou inteiramente os costumes de Portugal, não é relativamente muito animal a nutrição, pois satisfazem-se com as deliciosas frutas e o queijo importado de Minas que, com as bananas, nunca faltam em mesa alguma. Mesmo o pão de trigo come-o o brasileiro moderadamente e prefere-lhe a sua farinha. A farinha de trigo, importada da América do Norte e da Europa, conserva-se aqui uns cinco a seis meses. Também as espécies mais finas de legumes europeus, que todas podem ser cultivadas com facilidade, não constituem, entretanto, parte importante da nutrição do povo; são preferidas, porém, as laranjas, goiabas, melancias e batatas.

Além da simplicidade da cozinha brasileira, também é digna de encômio a sobriedade nas refeições, o que favorece a saúde do povo de país tão quente. O brasileiro, acompanhando os seus poucos pratos, quase não bebe, toma muita água, e goza, além disso, de todas as coisas com a maior regularidade, seguindo assim a severa ordem que se nota aqui entre os trópicos, em todos os fenômenos da natureza. À noite, ele não toma quase nada, prudentemente; quando muito, bebe uma xícara de chá ou de café, à falta do primeiro, e priva-se, sobretudo à noite, das frutas frescas. Somente tal dieta e a conformidade com as condições do clima o protege, contra muitas enfermidades, que atacam o estrangeiro incauto ou não informado. É, pois, de todo o modo aconselhável aos forasteiros observar dieta igual à dos brasileiros, não se ativar fora de casa nas horas mais quentes do dia, quando todas as ruas estão vazias de gente, para evitar a mortal insolação, nem à noite se deve expor ao sereno, fugindo às perigosas conseqüências dos resfriados e, ainda menos, entregar-se ao amor físico. Também, ao satisfazer com água a sede insaciável, é preciso cuidado. Aconselharam-nos a tomar água com vinho ou com cachaça; somente servem com vantagem esses meios, quando se faz pouco exercício e à sombra, pois logo o violento afluxo de sangue à cabeça, durante as viagens quando nos expusemos muito ao sol, nos proibiu, sobretudo nos primeiros anos, o uso de qualquer bebida espirituosa; refrescávamo-nos, portanto, de preferência, com a água fresca dos regatos, sem lhe acrescentar cousa alguma; quando nos expúnhamos de novo ao calor, nunca sofremos conseqüência alguma desagradável. Estas observações dietéticas, cremos, devem ser bastante recomendadas à atenção dos viajantes.

(Em CASCUDO, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil. Rio de Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977, p.244-245)