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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Cancioneiro
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A doida de Albano

Xácara de Flores-Bela, colhido por Sílvio Romero na segunda metade do século XIX

História do caçador que foi ao inferno, cordel de José Pacheco da Rocha
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


Xácara de Flores-Bela

Versão colhida no Ceará por Sílvio Romero na segunda metade do século XIX

— Mouro, se fores à guerra
Trazei-me uma cativa
Que não seja das mais nobres
Nem também da vilania
Seja das escolhidas
Que em Castelhana havia

Saiu o conde Flores
Fazer essa romaria
A condessa, como nobre
Foi em sua companhia
Matam o conde Flores
Cativaram Lixandria
E trouxeram de presente
À rainha da Turquia

— Vem cá, vem cá, minha moura
Aqui está vossa cativa
Já vou entregar as chaves
As chaves da minha cozinha
"Entregai, entregai, senhora
Que a desgraça foi só minha
Ainda ontem ser senhora
Hoje escrava de cozinha"

Ao cabo de nove meses
Tiveram os filhos num dia:
A moura teve um filho
A cativa uma filhinha
Levantou-se a moura
Com três dias de parida
Foi à cama da escrava:
— Como estais, escrava minha?
"Como hei de estar, senhora?
Sempre na vossa cozinha"

Foi olhando para a criança
Foi achando muito linda
— Se estivesses em tua terra
Que nome tu botarias?
"Botaria Flores-Bela
Como uma mana que tinha
Que os mouros carregaram
Sendo ela pequenina"

— Se tu a visses hoje
Tu a conhecerias?
"Pelo sinal que tinha
Só assim a conhecia"
— Que tinha um lírio roxo
Que todo o peito cobria!
"Pelo sinal que me dais
Bem parece mana minha

— Vem cá, vem cá, minha moura
Que te diz tua cativa?
"Eu já estou bem agastada
E já me vou anojar
Tu mandaste lá buscar
O teu cunhado matar"

— Se eu matei meu cunhado
Outro melhor te hei de dar
Farei tua irmã senhora
Da minha monarquia!
"Eu não quero ser senhora
Da tua monarquia
Quero ir para a minha terra
Onde contente asistia"

— Aprontai, aprontai a nau
Mais depressa em demasia
Para levar Lixandria
Ela e sua filhinha
"Adeus, adeus, Flores-Bela!
Vai-te embora Lixandria

E dai lá muitas lembranças
À nossa parentaria
Que eu fico como moura
Entre tanta mouraria"

(ROMERO, Sílvio. Cantos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954. Coleção Documentos Brasileiros, p.143-146)