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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Cancioneiro
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A doida de Albano

Xácara de Flores-Bela, colhido por Sílvio Romero na segunda metade do século XIX

História do caçador que foi ao inferno, cordel de José Pacheco da Rocha
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


A doida de Albano

— Vem cá, escuta meu filho,
És amigo de tua mãe?
— Oh! Minha mãe que pergunta?
— Basta meu filho, pois bem;
Vai ver a velha Vicência
O amor que um filho lhe tem.

Fazem hoje vinte anos,
(Dizendo mostra um punhal!)
Que teu pai morreu a golpes
Deste ferro por meu mal;
E que eu deveria vingá-lo
Fiz uma jura fatal.

— Uma jura?! Mãe Santíssima!
Oh! Minha mãe, que jurou?
— Eu jurei por este sangue,
Que em ferrugem se tornou,
Que tu, filho matarias
Esse que a teu pai matou.

E matas? — Mato, aqui o juro:
— E matas seja quem for?
Ainda que essa vingança
Te roube ao seio um amor?
— Ainda assim. — Toma o ferro,
É Ricardo o matador.

— Ricardo o pai de Maria!
— Sim esse. — Oh! Mãe perdoai!
Pela amante o pai esqueces!
— Filho ingrato... parte... vai,
Cumpre a jura ou sê maldio
Se tu não vingas teu pai.

Nessa noite tinto em sangue,
Com os cabelos no ar,
O assassino de Ricardo
Foi aos pés da mãe lançar
O punhal, em que jurara
Do pai a morte vingar.

Sorriu-se a velha, e contente
Abraçava o vingador,
Quando eis súbito aparece
Qual bela estátua de dor,
Junto do grupo chorando
De Albano a cândida flor.

— Paulo, meu Paulo, vingança;
Perdi meu pai... não o vês...
Nestas lágrimas sentidas,
Que aqui derramo a teus pés?!
Paulo, meu Paulo, vingança;
Vinga-me tu por quem és...

Eu o vi banhado em sangue
Assisti-lhe ao triste fim,
Quis falar-me, já não pode
Com os olhos fitos em mim,
Expirou... vingança eterna!
Tu vingas-me, Paulo... sim?

Vingo, Maria, sossega:
Eu sei quem teu pai matou;
Vai morrer com o mesmo ferro
Que ainda há pouco o transpassou.
Isto disto, as punhaladas
O próprio seio cravou.

Foge triste espavorida,
Deixa Albano, e sem parar,
Entra em Roma no outro dia,
Por toda a gente a gritar:
— Quem me mata por piedade,
Quem me vem também matar?

Assim vagueou três dias,
Até que ao quarto endoideceu!
Ainda hoje o caminhante,
Quando passa o Coliseu,
Vê a pobre às gargalhadas
Vingança pedindo ao céu.

 

Esta é a versão preliminar do poema, sem indicação de autoria, transcrita do jornal Eco do Sul, de Rio Grande (RS), 05 de julho de 1874 (ano 20, número 150). Texto disponível no site do excelente projeto Resgate da Produção Literária do Jornal Eco do Sul, desenvolvido pelo Departamento de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Agradecemos publicamente ao leitor Artur Emilio Alarcon Vaz, que atendeu ao pedido feito em nossa seção Carta dos leitores e nos indicou o projeto. Também agradecemos à leitora Maria Therezinha Imamura pela resposta.