Jangada Brasil
  

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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Almanaque
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Patacoadas de Cornélio Pires I

Patacoadas de Cornélio Pires II

Latrinália

Na parede do Boteco

Ai-ai

No estradão

Provérbios

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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


Patacoadas de Cornélio Pires

Num fará mar?

No interior do Brasil, ao se chegar a uma casa em hora de refeição, especialmente na roça, é comum perguntar-se:

— Quem sabe se o senhor não almoçou ainda? — Quem sabe se ainda não jantou?

Mas, algumas vezes se esquecem de perguntar e a situação do hóspede não é das melhores.

O Balduíno, no seu cavalo abombado, chegou uma tarde a uma fazenda e, tendo-se atrasado no caminho, não alcançou o jantar.

Os donos da casa foram amabilíssimos.

O fazendeiro mandou desencilhar o cavalo e dar-lhe uma ração de milho, antes de soltar no pasto.

Mas que descuido! Ninguém se lembrou de perguntar ao Balduíno se já havia jantado.

Com o "estômago nas costas" o pobre caipira até perdeu o jeito de conversar.

Ao chegar a hora de se deitar, veio, na forma do antigo costume, o bacião de água enorme, para o hóspede lavar os pés...

— Lavá os pés im jejum, num fará mar?

E foi um corre-corre para arranjar um jantar para o caboclo.
 

Boa definição

Tanto se falou em socialismo, ao ruir dos tronos na Europa, que a palavra chegou aos ouvidos caipiras.

O Ponciano, encontrando-se com o Juvêncio, perguntou-lhe:

— Compadre: tive na Vila e vi uns home falano de suçalismo... O que é que vem a sé isso?

— É um modo novo de vivê que tão inventano... muito bão!

— Cumo é?

— Você que vê o que é suçalismo? — Meu cachimbo tá vazio e eu num tenho fumo...Você tem um tostão aí?

— Tenho.

— Você me dá o tostão, eu compro o fumo, encho o cachimbo, e vô só esfumaceano...

— Ué! Eu dei o tostão... você pita... e eu o que é que faço?

— Mecê cospe...  Isso que é suçalismo...
 

Foi buscar lá

Quem quer debochar o caipira, sai perdendo.

Entrou numa loja de fazendas finas, na rua São Bento, um velho caipira, desses venerosos patrícios, bons lavradores e ótimos criadores de filhos.

Aproximou-se do caixeiro dado a espirituoso, perguntando-lhe:

— Chapéu, vosmecê tem?

— Tafetá, de seda superior, temos sim senhor.

— Dêxe ver...

E o caixeiro, com seus botões: "Quer ver que acertei sem querer"? E trouxe para o balcão uma peça de finíssimo tafetá.

O caipira examinou a fazenda e mandou:

— Pode cortá um metro e vintecinco.

Cortada a fazenda, o roceiro tomou o retalho, pôs sobre a cabeça... devolveu e foi saindo, deixando bestificado o caixeiro:

— Num serve... É munto grande...
 

Nem o advogado...

Um roceiro dirigiu-se do escritório de um advogado e expôs um caso.

— Seo dotôr: um vizinho, no queimá sua roça, o fogo pulô nas terra de otro; pra num perdê o serviço do fogo, o "tar" prantô no chão aleio e coleu. Cumô num recramassem, no otro ano o "tar" prantô ótra veis nas terras do vizinho...Notro ano o "tar" semeô e prantô catinguera, feiz pasto e vai mudá a cerca, pegano um bom pedaço pra diante da divisa... O "tar" agora tem dereito, despois de tanto tempo de mudá o rumo?

— Isso é questão líquida! Passe-me uma procuração e eu ponho esse tal intruso para fora!

O caipira, enrolando a aba do chapéu, foi fastando, fastando, até ganhar a porta da rua, de onde, todo maneiroso, gritou para o doutor:

— Seo dotôr... Eu é que sou o "tar"...
 

Agilidade

Durante uma tempestade caiu um raio perto da casa  de Bormann. O filho assustado correu junto dele e disse:

— He-pai! Si eo num estafa maiss ligera, a raio me pecafa!

Fui no embrulho

O roceiro goza quando há uma pessoa da cidade.

Encontrando um caboclinho, no terreiro de uma venda de encruzilhada com sua espengarda, puxei prosa:

Nisto.... tátátátátá! Um juriti pousou no galho de uma árvore pequenina.

— Olha! Um passarinho sentado ali no galho!

— Num tem passarinho sentado, ninhum!

Tem, não tem e o caboclinho desafiou.

— Aposto uma garrafa de vinho que naquela arve num tem passarinho sentado!

— Está feito!

E o caipirinha gozando:

— Eu tô veno o passarinho mais num tá sentado... tá de pé no gaio... Passarinho num tem assento prá sentá...

E foi saborear o vinho de "limpa-queixo"...
 

Voadores

Em São João Nepomuceno, havia um caipira, meu xará que viveu muito tempo à larga, "levando" 20% para dar palpite sobre o bicho que ia dar.

Logo de manhã sabia.

A sua freguesia, conforme a rua, já sabia a hora de sua passagem.

— Que bicho dá hoje, Cornélio!

— Se num dé o vistruiz dá o cueio...

E, logo adiante:

— Para hoje?

— A cobra é certo, mais é bão defendê na barbuleta...

Ainda outro:

— E hoje?

— Pode carregá no lefante e na águia...

E assim dava para mais de trezentos palpites por dia, em todos os bichos, e, à tarde, era só correr a freguesia, arrecadando a porcentagem, achando sempre jeitosa desculpa para os que perdiam...

E ainda, à tardinha, se queixava de que "tava escangaiado de tanto trabaiá".
 

Piada

O João Ramalho, o Alcides, e dr. Teixeirinha e mais amigos costumavam promover pescarias em que o Carlos Custódio mostrava a arte de fazer churrasco, no Corumbataí, no sítio do Talino de Camargo.

Havia sob a mata, à margem do rio, um rancho de sapê, que, ficando largado muito tempo, ao chegarmos, precisava ser varrido.

Um caipira, companheiro nosso, apanhando uma braçada de ramos, improvisou uma vassoura e pôs-se a varrer, levantando uma poeira sufocante, ao que outro caipira aconselhou logo:

— Compadre: para que vacê num varre guspino?

— Pra que?...

— Pra apagá a puera...
 

São mesmo!

Quando Rui, o sublime, em propaganda de sua candidatura, falou em Campinas, produzindo um dos seus formidáveis discursos, um caipira comentou:

— Bunito descurso! Fale que é um devegado, mais porém eu conheço um livro que tem esse descurso inteirinho... palavra por palavra!

— Ora, deixe-se de ser trouxa! Então Rui lá precisa plagiar!

— Puis sustento o que disse...

— E que livro é esse?

— O dicionário...
 

Já tinha pensado

Josias encontra-se com Isaías e lhe diz:

— Sabes que casa a minha filha amanhã?

— Sim.

— Sabes que me obriguei a dotá-la com dez contos?

— Sim.

— O diabo são os cinco contos... Tu me podes emprestar cinco contos?

E Isaías, coçando a cabeça:

— Infelizmente não. Acabo de fazer um pagamento e estou a "nenhum", Só posso te dar um conselho.

— Qual é?

— Quando chegar o escrivão tu colocarás as dez notas de 500$000 espalhadas em frente a um espelho e assim ele as verá como sendo vinte.

— Já pensei nisso... Infelizmente só tenho espelho.