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Num fará mar?
No interior do Brasil, ao se chegar a uma casa em hora de refeição,
especialmente na roça, é comum perguntar-se:
— Quem sabe se o senhor não almoçou ainda? — Quem sabe se ainda não jantou?
Mas, algumas vezes se esquecem de perguntar e a situação do hóspede não é das
melhores.
O Balduíno, no seu cavalo abombado, chegou uma tarde a uma fazenda e, tendo-se
atrasado no caminho, não alcançou o jantar.
Os donos da casa foram amabilíssimos.
O fazendeiro mandou desencilhar o cavalo e dar-lhe uma ração de milho, antes de
soltar no pasto.
Mas que descuido! Ninguém se lembrou de perguntar ao Balduíno se já havia
jantado.
Com o "estômago nas costas" o pobre caipira até perdeu o jeito de conversar.
Ao chegar a hora de se deitar, veio, na forma do antigo costume, o bacião de
água enorme, para o hóspede lavar os pés...
— Lavá os pés im jejum, num fará mar?
E foi um corre-corre para arranjar um jantar para o caboclo.
Boa definição
Tanto se falou em socialismo, ao ruir dos tronos na Europa, que a palavra chegou
aos ouvidos caipiras.
O Ponciano, encontrando-se com o Juvêncio, perguntou-lhe:
— Compadre: tive na Vila e vi uns home falano de suçalismo... O que é que vem a
sé isso?
— É um modo novo de vivê que tão inventano... muito bão!
— Cumo é?
— Você que vê o que é suçalismo? — Meu cachimbo tá vazio e eu num tenho
fumo...Você tem um tostão aí?
— Tenho.
— Você me dá o tostão, eu compro o fumo, encho o cachimbo, e vô só
esfumaceano...
— Ué! Eu dei o tostão... você pita... e eu o que é que faço?
— Mecê cospe... Isso que é suçalismo...
Foi buscar lá
Quem quer debochar o caipira, sai perdendo.
Entrou numa loja de fazendas finas, na rua São Bento, um velho caipira, desses
venerosos patrícios, bons lavradores e ótimos criadores de filhos.
Aproximou-se do caixeiro dado a espirituoso, perguntando-lhe:
— Chapéu, vosmecê tem?
— Tafetá, de seda superior, temos sim senhor.
— Dêxe ver...
E o caixeiro, com seus botões: "Quer ver que acertei sem querer"? E trouxe para
o balcão uma peça de finíssimo tafetá.
O caipira examinou a fazenda e mandou:
— Pode cortá um metro e vintecinco.
Cortada a fazenda, o roceiro tomou o retalho, pôs sobre a cabeça... devolveu e
foi saindo, deixando bestificado o caixeiro:
— Num serve... É munto grande...
Nem o advogado...
Um roceiro dirigiu-se do escritório de um advogado e expôs um caso.
— Seo dotôr: um vizinho, no queimá sua roça, o fogo pulô nas terra de otro; pra
num perdê o serviço do fogo, o "tar" prantô no chão aleio e coleu. Cumô num
recramassem, no otro ano o "tar" prantô ótra veis nas terras do vizinho...Notro
ano o "tar" semeô e prantô catinguera, feiz pasto e vai mudá a cerca, pegano um
bom pedaço pra diante da divisa... O "tar" agora tem dereito, despois de tanto
tempo de mudá o rumo?
— Isso é questão líquida! Passe-me uma procuração e eu ponho esse tal intruso
para fora!
O caipira, enrolando a aba do chapéu, foi fastando, fastando, até ganhar a porta
da rua, de onde, todo maneiroso, gritou para o doutor:
— Seo dotôr... Eu é que sou o "tar"...
Agilidade
Durante uma tempestade caiu um raio perto da casa de Bormann. O filho
assustado correu junto dele e disse:
— He-pai! Si
eo num estafa maiss ligera, a raio me pecafa!
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Fui no embrulho
O roceiro goza quando há uma pessoa da cidade.
Encontrando um caboclinho, no terreiro de uma venda de encruzilhada com sua
espengarda, puxei prosa:
Nisto.... tátátátátá! Um juriti pousou no galho de uma árvore pequenina.
— Olha! Um passarinho sentado ali no galho!
— Num tem passarinho sentado, ninhum!
Tem, não tem e o caboclinho desafiou.
— Aposto uma garrafa de vinho que naquela arve num tem passarinho sentado!
— Está feito!
E o caipirinha gozando:
— Eu tô veno o passarinho mais num tá sentado... tá de pé no gaio... Passarinho
num tem assento prá sentá...
E foi saborear o vinho de "limpa-queixo"...
Voadores
Em São João Nepomuceno, havia um caipira, meu xará que viveu muito tempo à larga,
"levando" 20% para dar palpite sobre o bicho que ia dar.
Logo de manhã sabia.
A sua freguesia, conforme a rua, já sabia a hora de sua passagem.
— Que bicho dá hoje, Cornélio!
— Se num dé o vistruiz dá o cueio...
E, logo adiante:
— Para hoje?
— A cobra é certo, mais é bão defendê na barbuleta...
Ainda outro:
— E hoje?
— Pode carregá no lefante e na águia...
E assim dava para mais de trezentos palpites por dia, em todos os bichos, e, à
tarde, era só correr a freguesia, arrecadando a porcentagem, achando sempre
jeitosa desculpa para os que perdiam...
E ainda, à tardinha, se queixava de que "tava escangaiado de tanto trabaiá".
Piada
O João Ramalho, o Alcides, e dr. Teixeirinha e mais amigos costumavam promover
pescarias em que o Carlos Custódio mostrava a arte de fazer churrasco, no
Corumbataí, no sítio do Talino de Camargo.
Havia sob a mata, à margem do rio, um rancho de sapê, que, ficando largado muito
tempo, ao chegarmos, precisava ser varrido.
Um caipira, companheiro nosso, apanhando uma braçada de ramos, improvisou uma
vassoura e pôs-se a varrer, levantando uma poeira sufocante, ao que outro
caipira aconselhou logo:
— Compadre: para que vacê num varre guspino?
— Pra que?...
— Pra apagá a puera...
São mesmo!
Quando Rui, o sublime, em propaganda de sua candidatura, falou em Campinas,
produzindo um dos seus formidáveis discursos, um caipira comentou:
— Bunito descurso! Fale que é um devegado, mais porém eu conheço um livro que
tem esse descurso inteirinho... palavra por palavra!
— Ora, deixe-se de ser trouxa! Então Rui lá precisa plagiar!
— Puis sustento o que disse...
— E que livro é esse?
— O dicionário...
Já tinha pensado
Josias encontra-se com Isaías e lhe diz:
— Sabes que casa a minha filha amanhã?
— Sim.
— Sabes que me obriguei a dotá-la com dez contos?
— Sim.
— O diabo são os cinco contos... Tu me podes emprestar cinco contos?
E Isaías, coçando a cabeça:
— Infelizmente não. Acabo de fazer um pagamento e estou a "nenhum", Só posso
te dar um conselho.
— Qual é?
— Quando chegar o escrivão tu colocarás as dez notas de 500$000 espalhadas em
frente a um espelho e assim ele as verá como sendo vinte.
— Já pensei nisso... Infelizmente só tenho espelho.
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