Ponderável é a figura da lua sobre o cérebro. É um preceito da medicina de antanho que os povos guardaram como tantas outras coisas e hoje aceito em parte pela desenvolvida medicina contemporânea.
Uma pessoa lunática, alucinada, aluada, são denominações muito conhecidas e que corresponde aos diversos estados de desequilíbrio mental.
Quando alguém está encolerizado, enraivado, irado, descontrolado, sem que para isso tenha sido provocado ou se alguma coisa o aborreça, portanto sem motivo realmente poderoso, costuma-se perguntar se tal pessoa está sob a força da lua.
Segundo um distinto folclorista, existe um documento do Senado da Câmara de Natal para El-Rey de 22 de novembro de 1723, que representa contra o capitão-mor José Pereira da Fonseca certificando a credibilidade da crença:
Pereira da Fonseca, conforme o severo documento, veio "Usar de seus antigos costumes, em ser inconstante, austero, retirando finalmente descomposto, causando em tudo uns frenesis epicôndrios, que em todas as conjunções de luas o arrebatam fora de si tanto que muitas vezes se divisa com sinais de doido".
Os cães correm e ficam danados, zangados, nas forças da lua. As feridas, torceduras, contusões e antigas fraturas ficam doloridas sempre nas ocasiões da lua.
Há uma deliciosa quadrinha do notável historiador e folclorista Gustavo Barroso que populariza essa crença:
Eu compro as banhas da cobra
De fumo dou quarta e meia...
Para fomentar uma perna
Que me dói na lua cheia.
A lua, a misteriosa e enigmática lua, faz também aliviar as dores de dentes.
Eis uma quadrinha suave e linda a respeito:
Deus te salve lua nova
Clara luz resplandecente
Assim como és formosa
Livrai-me da dor de dentes
Águas ardentes, rios correntes.
Existe um ritual pagão belo e encantador, que consiste em oferecer uma criança à lua.
A igreja católica na sua expressiva e poética liturgia regula a Páscoa pela primeira lua que se seguir ao equinócio de março.
A quarta-feira de cinzas cai na lua nova, e está no nosso mimoso vocabulário:
Nunca vi cinza sem nova nem santa sem cheia.
Dizem que a lua pode fazer fortuna, pois com uma moeda na mão, diz-se:
Deus te salve lua nova
Clara luz resplandecente
Quando fores que voltares
Traz-me desta semente.
Os lavradores alimentam a convicção de que a lua influi nas plantações; o milho por exemplo plantado pela lua cheia dá muito viço mas não produz espigas e a mandioca exige para o seu plantio a proteção da lua nova.
Afirmam também que dura muito mais a madeira cortada nesse período, não empenando com facilidade e não apodrecendo com as intempéries.
Desde os meus tempos de menino que ouvia os peões de nossa chácara nos queridos pagos, dizerem com a mesma convicção que acreditavam em Deus, de que o nascimento e o pôr da lua regulam a queda das chuvas, e a lua nova quase sempre nos traz chuvas.
É postulado científico que a lua exerce decisiva influência no movimento das marés, correndo mundo a espontânea quadrilha de estro popular:
Lua fora, um quarto de maré vazia na costa
Lua empinada, maré repontada.
Lua posta, um quarto de maré vazia na certa.
Se uma mulher grávida olhar para a lua durante o eclipse, o filho nascerá com manchas no rosto.
A lua nova é favorável ao sexo feminino e a lua cheia ao sexo masculino, quer dizer que se for nova teremos o nascimento de uma menina e se for cheia teremos o nascimento de um menino.
O lobisomem, figura fantástica, terror das crianças e temor de muita gente adulta metade gente, metade animal, aparece na lua cheia.
E assim vai a lua exercendo um poderoso domínio sobre muitas atividades humanas, enriquecendo as crenças populares, servindo de motivo romântico aos poetas e dando lugar a um dos mais significativos folclores.