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Abril 2010 - Ano XII - nº 135


Sumário

Festança
A chula

Cancioneiro
Lourival Bandeira e Siqueira de Amorim: Em São Paulo, dois dos maiores cantadores do Nordeste

Imaginário
Quatro séculos de lendas

Colher de Pau
Os festejos das pescas da tainha
A. Seixas Neto

Oficina
O mergulho da lama em busca do caranguejo
Diane Lisbona

Palhoça
Feiras populares
Eduardo Campos

Panacéia
A lua e o folclore
José Egídio Farinha

 

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Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

A lua e o folclore

José Egídio Farinha

Ponderável é a figura da lua sobre o cérebro. É um preceito da medicina de antanho que os povos guardaram como tantas outras coisas e hoje aceito em parte pela desenvolvida medicina contemporânea.

Uma pessoa lunática, alucinada, aluada, são denominações muito conhecidas e que corresponde aos diversos estados de desequilíbrio mental.

Quando alguém está encolerizado, enraivado, irado, descontrolado, sem que para isso tenha sido provocado ou se alguma coisa o aborreça, portanto sem motivo realmente poderoso, costuma-se perguntar se tal pessoa está sob a força da lua.

Segundo um distinto folclorista, existe um documento do Senado da Câmara de Natal para El-Rey de 22 de novembro de 1723, que representa contra o capitão-mor José Pereira da Fonseca certificando a credibilidade da crença:

Pereira da Fonseca, conforme o severo documento, veio "Usar de seus antigos costumes, em ser inconstante, austero, retirando finalmente descomposto, causando em tudo uns frenesis epicôndrios, que em todas as conjunções de luas o arrebatam fora de si tanto que muitas vezes se divisa com sinais de doido".

Os cães correm e ficam danados, zangados, nas forças da lua. As feridas, torceduras, contusões e antigas fraturas ficam doloridas sempre nas ocasiões da lua.

Há uma deliciosa quadrinha do notável historiador e folclorista Gustavo Barroso que populariza essa crença:

Eu compro as banhas da cobra
De fumo dou quarta e meia...
Para fomentar uma perna
Que me dói na lua cheia.

A lua, a misteriosa e enigmática lua, faz também aliviar as dores de dentes.

Eis uma quadrinha suave e linda a respeito:

Deus te salve lua nova
Clara luz resplandecente
Assim como és formosa
Livrai-me da dor de dentes
Águas ardentes, rios correntes.

Existe um ritual pagão belo e encantador, que consiste em oferecer uma criança à lua.

A igreja católica na sua expressiva e poética liturgia regula a Páscoa pela primeira lua que se seguir ao equinócio de março.

A quarta-feira de cinzas cai na lua nova, e está no nosso mimoso vocabulário:

Nunca vi cinza sem nova nem santa sem cheia.

Dizem que a lua pode fazer fortuna, pois com uma moeda na mão, diz-se:

Deus te salve lua nova
Clara luz resplandecente
Quando fores que voltares
Traz-me desta semente.

Os lavradores alimentam a convicção de que a lua influi nas plantações; o milho por exemplo plantado pela lua cheia dá muito viço mas não produz espigas e a mandioca exige para o seu plantio a proteção da lua nova.

Afirmam também que dura muito mais a madeira cortada nesse período, não empenando com facilidade e não apodrecendo com as intempéries.

Desde os meus tempos de menino que ouvia os peões de nossa chácara nos queridos pagos, dizerem com a mesma convicção que acreditavam em Deus, de que o nascimento e o pôr da lua regulam a queda das chuvas, e a lua nova quase sempre nos traz chuvas.

É postulado científico que a lua exerce decisiva influência no movimento das marés, correndo mundo a espontânea quadrilha de estro popular:

Lua fora, um quarto de maré vazia na costa
Lua empinada, maré repontada.
Lua posta, um quarto de maré vazia na certa.

Se uma mulher grávida olhar para a lua durante o eclipse, o filho nascerá com manchas no rosto.

A lua nova é favorável ao sexo feminino e a lua cheia ao sexo masculino, quer dizer que se for nova teremos o nascimento de uma menina e se for cheia teremos o nascimento de um menino.

O lobisomem, figura fantástica, terror das crianças e temor de muita gente adulta metade gente, metade animal, aparece na lua cheia.

E assim vai a lua exercendo um poderoso domínio sobre muitas atividades humanas, enriquecendo as crenças populares, servindo de motivo romântico aos poetas e dando lugar a um dos mais significativos folclores.

(Farinha, José Egídio. "A lua e o folclore". Diário de Minas. Belo Horizonte, 19 de abril de 1953)

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