Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2009 - Ano XI - nº 127


Sumário

Festança
Batuque
Alceu Maynard Araújo

Cancioneiro
Encontro de Patativa do Assaré com a alma de Zé Limeira
Patativa do Assaré

Imaginário
O joão-de-barro na arquitetura e na lenda
Mário Melo

Colher de Pau
Culinária nortista e nordestina

Oficina
Feiras Populares
Eduardo Campos

Palhoça
A mulher mistificada no folclore nacional
Gumercindo Saraiva

Panacéia
O brasileiro e suas estranhas promessas
Deise Sabbag

 

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Batuque

Alceu Maynard Araújo

Uma das mais sérias dificuldades encontradas em nosso país, com referência aos estudos do folclore, é a denominação dadas às danças, cerimônias religiosas populares, instrumentos musicais, pois variam de região para região. Por exemplo: Fandango, no sul do país, é um conjunto de danças rurais; lá no Nordeste é um bailado popular tradicional, também conhecido por chegança de marujos, marujada, barca, Catarineta. Um instrumento como o atabaque, tem vários nomes, dependendo da região: tambu, caxambu, rum, etc...

Batuque no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, é uma cerimônia religiosa muito parecida com o candomblé baiano, Xangô Pernambuco e macumba carioca ou paulista. É realizado num salão (galpão).

Batuque no Estado de São Paulo é dança de terreiro, onde estão presentes os membranofônios: tambu, quinjengue ou mulemba e os idiofônios: matraca e guaiá, antigamente o cordofônio urucungo. A zona batuqueira paulista, localiza-se no vale do médio Tietê, abrangendo alguns municípios como Tietê (capital da zona batuqueira), Porto Feliz, Laranjal, Pereiras, Capivari, Botucatu, Piracicaba, Limeira, Rio Claro, São Pedro, Itu e Tatuí.

É uma dança de origem africana. Não sabemos porém, qual foi o estoque tribal negro que introduziu em nosso estado a dança do batuque. Se ao menos tivéssemos algumas palavras de origem africana colhida em seu canto, teríamos uma pista para nossas pesquisas. Em geral as danças primitivas são de roda, o jongo que é de origem angolesa. Já num estágio mais adiantado, do ponto de vista coreográfico, encontramos o batuque, dança não de roda, mas de duas colunas que se defrontam, e consiste exclusivamente em dar umbigadas.

É uma dança ritual de procriação. Há mesmo uma figuração coreográfica chamada pelos batuqueiros "granché", "granchero" ou "canereno", na qual pai não dança com filha, porque é falta de respeito dar umbigada, então executam movimentos que nos fazem lembrar a coreografia grand chaine (grande corrente) do bailado clássico. (Granché é mesmo deturpação dos vocábulos franceses, muitos usados na dança de quadrilha). Evitam o "incesto" executando o "cumprimento" ou "granché", "pois é pecado (sic) dançar, (e a dança só consiste em umbigadas), nos seguintes casos: pai com filha, padrinho com afilhada, compadre com comadre, madrinha com afilhado, avó com neto ou batuqueiro jovem." Se porventura, por um descuido, um batuqueiro bate uma umbigada na afilhada, esta lhe diz: "a benção padrinho". O padrinho vem lhe dando as mãos alternadamente até perto da fileira onde estão os batuqueiros sem batucar. Essa atitude tomada na dança do batuque, para os "folcloristas" sem preparação sociológica é traduzida apenas como "dança de respeito". Mas, o "cumprimento" examinado à luz da antropologia mostrará que os batuqueiros fazem o "granché" porque este evitará o incesto, o que eles têm medo de praticar. Por isso mesmo é evitado por meio do "cumprimento" ou "granché"; aquele tabu sexual é uma observância já encontradas nas sociedades pré-letradas. Só esse argumento, sem falar dos movimentos da umbigada, que no fundo são uma representação do ato genésico, nos dá prova suficiente para afirmarmos que o batuque é uma dança ritual da procriação.

Algumas danças a Igreja abominou, interditou, dentre elas o batuque por ser sensual, muito ligada à prostituição da senzala; mas o senhor dos escravos fazia "vista gorda", permitindo-a e foi por isso que chegou até os nossos dias.

Contatos espirituais

Eram parcas e espaçadas as folgas, mas nesses dias o escravo mantinha seus contatos espirituais com as divindades cultuadas na África. Nos cantos e cerimônias religiosas dirigidas a um deus pagão, tudo era igual como no ábrego Continente, só que o santo tomava um nome católico-romano para dar ao senhor da fazenda a impressão de que sua escravaria havia se convertido, e as danças continuavam, satisfazendo a religião dos patriarcas, um catolicismo sensual antagônico ao catolicismo dos jesuítas.

Nos terreiros, os entrechoques tribais, as culturas heterogêneas, que se atritavam desde os tumbeiros, na dança, tudo se homogenizou, criou uma nova forma de solidariedade negra e anti-branca, solidariedade essa que serviu de escrinio para guardar traços culturais que chegaram até hoje. A dança sensual da senzala, com seus lôbregos voluteios ai está. Algumas modificações se fizeram sentir, é óbvio, porque hoje não mais são os escravos que a dançam, mas sim os negros livres que avolumam as classe destituídas de nossa sociedade.

Dança

Uma coluna ou fileira é de homens, junto aos instrumentos musicais que ficam pousados no solo, e defrontando-a fica a de mulheres. Estão separadas uma da outra cerca de 10 a 15 metros, espaço onde dançam, dando umbigadas. Um batuqueiro não dança sempre com a mesma batuqueira. Após três ou mais umbigadas procura batucar com outra.

No batuque não há batidas de pés, tão comuns nas danças de origem ameríndia. Há umbigadas. Quando um batuqueiro, defrontando sua dama entre uma umbigada e outra, faz meneios de corpo, ajoelha-se mas sempre dentro do ritmo ditado pelo tambu, a esses movimentos chamam de "jongar". Os batuqueiros mais jovens são habilíssimos nessas figurações.

O elemento poético

Um batuqueiro "modista" faz "poesia" ou "décimas". Outras vezes, cantando em determinadas "linha", em dado momento quando os demais encontram uma boa trova, "suspendem o ponto", isto é, começam a repetir aquela quadra ou "linhada dupla de versos". A consulta coletiva é finda quando "levantam o ponto" ou "sustentam", isto é, começam a repetir a melodia e palavras. A consulta coletiva é sempre feita defronte do instrumento fundamental do batuque que é o tambu. O grupo de homens é levado pelo "modista" até onde estão as mulheres. Estas aprendem logo a melodia e palavras. Quando "afirmam o ponto", isto é, decoram, repetindo texto e música, o primeiro a dar umbigada é o "modista". Os demais batuqueiros começam a dançar. Dão umbigadas sempre presos ao ritmo do tambu. Quinjenje e matraca são tocados freneticamente. Os batuqueiros dão três ou mais umbigadas, voltando para seus lugares primitivos. Agora são as mulheres que vêm onde estão os homens para dar umbigadas. Um "ponto" cantado, isto é, uma quadrinha, é repetida durante 10 a 20 minutos, enquanto cantam, dançam.

Há diferença entre "modista" e "carreirista". Os bons batuqueiros são a um só tempo "modista-carreirista". O "modista" é o cantador de "décimas". Estas são as modas sobre um "fato acontecido". Quando um modista canta uma décima, todos ficam parados ouvindo-o.

O cantador "carreira" em geral não canta "moda", mas somente porfia com outro.

Canta uma quadra em determinada "carreira" ou "linha" e o adversário responde:

Levantei de madrugada
fui passeá no meu jardim,
achei falta de uma rosa
e um botão de alecrim.

Resposta do "carreirista" oponente:

Amanhã alevante mais cedo
antes do cuitelo vim
vá pegá o passarinho
que fez isso prá ti.

O "modista" após a moda, coloca o "ponto" motivo de canto e dança. Canta uma quadra, quando todos estão seguros, tanto nas letras como na melodia, o "carreirista" ou "modista", pois qualquer um deles pode colocar o "ponto" cantará dois versos e os demais batuqueiros cantarão os dois restantes da quadra fixada após a consulta coletiva. O solista canta:

O amor que não é firme
eu comparo que nem boi

Os demais, em coro, completam:

Põe um homem na cadeia
ninguém sabe porque foi.

Percebe-se como são repentistas e os temas são os mais variados possíveis.

 

(Araújo, Alceu Maynard. "Batuque". Diário de São Paulo. São Paulo, 17 de maio de 1952)

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