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O roubo do fogo

Colhida por Nunes Pereira entre os índios cauaiua-parintintim. Contada por Inhambutê

Antigamente Cauaiua secava a comida no sol. Não havia fogo.

O chefe dos Cauaiua, Baíra, foi ao mato, fazer uma experiência.

Cobriu-se de cupim e deitou-se, fingindo que estava morto. Veio a Mosca Varejeira, viu aquele morto e foi avisar o Urubu. O Urubu era o dono do fogo, e o trazia sempre consigo, debaixo das asas, dizem.

O Urubu desceu do céu, então, acompanhado de outros urubus, da mulher e dos filhos.

O Urubu era gente: tinha mãos. Preparou o moquém e pôs debaixo dele o fogo, mandando que os filhos vigiassem. Os filhos viram que o morto estava bulindo. Disseram ao Urubu. O Urubu não acreditou nos filhos. Disse-lhes somente que fossem matando as varejeiras com as flechinhas que haviam trazido.

Quando o fogo, debaixo do moquém, estava bem aceso, Baíra se levantou, de repente, e o roubou, fugindo.

Urubu saiu a persegui-lo com a sua gente.

Baíra escondeu-se no oco de um pau. O Urubu e sua gente entraram no oco do pau, atrás de Baíra.

Baíra saiu do outro lado, e atravessou um tabocal cerrado.

O Urubu não o pôde acompanhar.

Baíra chegou à margem do rio, largo, largo.

A gente dele, os Cauaiua, estava na margem de lá. E era muita gente, muita.

Baíra pensou como lhe levaria o fogo roubado ao Urubu.

Chamou a Cobra-Surradeira. Pôs-lhe o fogo nas costas e mandou levá-lo para a sua gente. Como a Surradeira corre muito, logo saiu a toda. No meio do rio, porém, a cobra morreu queimada.

Baíra, com um cambito, puxou o fogo para si. E o pôs noutras cobras.

As cobras iam até o meio do rio, mas não resistiam ao calor do fogo: morriam.

Baíra, então, pegou o Camarão e pôs-lhe o fogo nas costas. O Camarão foi até o meio do rio, mas não resistiu ao calor do fogo, morrendo queimado, todo vermelho.

Baíra puxou o fogo para si, de novo.

Pegou o Caranguejo e pôs-lhe o fogo nas costas. O Caranguejo foi até o meio do rio, mas morreu como o Camarão, ficando vermelho.

Baíra puxou o fogo e o pôs nas costas da Saracura. A Saracura, que anda muito, foi até o meio do rio, mas morreu queimada.

Então, Baíra pegou o Cururu. O sapo foi, aos pulos, até perto dos Cauaiua, à espera noutra margem do rio. Como já ia meio morto, de cansaço, os Cauaiua o puxaram para terra, com um cambito. E levaram o fogo para a maloca.

Baíra, do outro lado, pensou como deveria atravessar o rio. Mas Baíra era um grande pajé. Fez o rio estreitar-se. Deu um pulo por sobre as águas e foi à procura de sua gente.

Desde aquele dia os Cauaiua tiveram fogo e puderam assar peixes e caças no moquém.

E o Cururu virou pajé.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.561-563)

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