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Mito de Macunaíma e as mulheres curiosas

Macunaíma, querendo experimentar se as suas mulheres o obedeciam e não eram curiosas, mostrou-lhes duas cumbucas, bem tapadas, dizendo-lhes:

— Não quero que ninguém pegue nestas cumbucas e desamarre as tampas.

Passou-se muito tempo: saía o inverno, chegava o verão. E as cumbucas estavam sempre no mesmo lugar.

Todas as mulheres tinham o desejo de ver o que elas guardavam, mas nenhuma ousava desobedecer Macunaíma.

Certa vez, ficando sozinha em casa, a mais moça das mulheres de Macunaíma, com muito cuidado, pegou uma das cumbucas.

E, aproximando-a do ouvido e cheirando-a, procurou descobrir o que continha.

Ouviu um zunido forte, que não pôde reconhecer se era de animal Ou de vento.

Então, desatando a envira que sustinha a tampa da cumbuca, foi levantando-a, cautelosamente.

Tanto bastou para que, de dentro da cumbuca, saíssem nuvens de carapanãs, que o vento, soprando do Roroima, arrastou para os lavrados, além das margens do rio Cotingo.

A mulher tentou amarrar a tampa da cumbuca e conter as nuvens de carapanãs, mas não o conseguiu.

E, de repente, apareceu Macunaíma, surpreendendo aquela curiosa e desobediente com a cumbuca ainda entre as mãos.

Macunaíma perguntou por que destampara a cumbuca.

— Os carapanãs fizeram força e muito barulho, do lado de dentro, e saíram por aí... Corri para amarrar a tampa da cumbuca e vi que ali já não havia mais nenhum carapanã. O vento os levou para os lavrados.

Macunaímã viu que a mulher, além de desobediente e de curiosa, ainda mentia. Por isso falou-lhe, zangado:

— Ainda és mais curiosa que uma criança, mentirosa e desobediente. Não tenho mais confiança em ti. Vai-te!

Reuniu as demais mulheres em redor dele e lhes disse:

— Agora vamos ver quem se atreve a desobedecer-me.

Saibam, além disso, que qualquer curiosidade poderá trazer-nos grandes sofrimentos. E para os nossos filhos e netos, também.

A curiosa chorou, chorou, mas Macunaíma não quis mais deitar-se com ela.

Algum tempo depois ninguém se lembrava mais do que acontecera e nem mesmo daquela curiosa.

Ficando sozinha, certo dia, a mais velha das mulheres de Macunaíma resolveu pegar a outra cumbuca e descobrir o que o mesmo nela escondera. E fez.

Pondo a cumbuca entre os joelhos, sentada numa esteira, a velha foi desatando a envira que amarrava a tampa da cumbuca. Depois, com muito cuidado, resolveu fazer nela um buraquinho, espiar por ele, primeiro, e abrir a cumbuca em seguida.

Mas, mal fizera o buraquinho, por ali se foram escapando os piuns, em nuvens que fizeram escuro dentro da casa. E os piuns começaram a ferrar todo o corpo da velha. E, então, desesperada, ela atirou a cumbuca ao chão, quebrando-a.

Foi justamente quando Macunaíma chegava com as outras mulheres e as suas crianças.

Os piuns foram ferrando Macunaíma e toda aquela gente, que correu para a beira do rio Cotingo.

Ali havia mais piuns do que dentro de casa. Resolveram, por isso, voltar para casa. Todos acocoraram-se junto às fogueiras.

Macunaíma perguntou à velha por que destapara a cumbuca.

— Os piuns fizeram muita força e muito barulho, até que a tampa saltou, e saíram para a beira dos rios e dos lagos. Corri para fechar a tampa da cumbuca e eles me ferraram. Então joguei-a no chão.

Aquela velha mentia com as mesmas palavras da mulher moça de Macunaíma.

E ele sabia disso. E sabia que a velha não só era curiosa mas desobediente, também.

— Tu foste sempre muito curiosa, desde o primeiro dia que te deitaste comigo. E eras também desobediente. Agora és curiosa, desobediente e mentirosa, também. Não comerei mais a tamorida que preparavas e nem mais beberei do teu paiauaru. E não me deitarei mais contigo.

A velha chorou, chorou, chorou. Mas Macunaíma nunca mais quis comer a tamorida que ela preparava e nunca mais bebeu os vinhos de frutas que só ela sabia preparar. E nunca mais se deitou com ela.

Os piuns tomaram conta do Roraima, do Uêitêpê, do rio Cotingo.

Eles estão sempre atormentando a gente. No inverno e no verão, nas serras e nos igarapés.

Contam os velhos que Macunaíma se foi embora dali, do Cauairã, na Vista Geral, porque os piuns o atormentavam até durante a noite.

E toda a sua gente se foi com ele também.

E contam mais que os carapanãs e os piuns se espalharam pelos lavrados do Uraricuera, do Tacutu, do Surumu. E também pelas baixas do Amajari e do Rio Branco.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.74-76)

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