O velho Ualipera, que gostava muito de pescar, tinha, entre seus filhos, um muito pequeno ainda, que nasceu com um tumor na bunda. Do tumor estava sempre escorrendo sangue e pus.
O velho, então, quando ia para a roça, punha esse filho num cesto e o suspendia, a certa altura da água, a um galho curvo de árvore sobre o rio.
Os pingos de sangue e de pus atraíam aracus, pescadas, tucunarés, todos os peixes.
E os peixes até pulavam d'água para o cesto.
Ao voltar da roça o velho Ualipera apanhava o cesto, que estava sempre cheio de peixes. E ficava contente. E levava o filho, dentro do cesto, para casa. E lhe dava muita comida.
Seu filho mais velho, vendo como ele pegava tanto peixe, teve inveja e foi espiá-lo, no outro dia, quando o velho foi para a roça.
E viu o que o velho fazia.
Assim, no outro dia, depois que o velho suspendeu o cesto sobre a água, o invejoso foi até a beira do rio. Desamarrou o cesto do galho e o mergulhou um pouco n'água.
Vieram logo muitos peixes, muitos.
E o barulho desses peixes atraiu Doé-Pinó. E essa engoliu o cesto, com os peixes e o filho de Ualipera.
Ao voltar da roça, como era seu costume, o velho foi até a beira do rio e lá não encontrou o cesto.
Pela inhaca que ficou no lugar o velho soube que lá estivera a Doé-Pinó.
O velho jurou vingar-se.
Falando ao filho mais velho, este disse que talvez três companheiros houvessem furtado o cesto e morto o menino.
Ualipera lhe disse:
— Eu sei que foi Doé-Pinó. Vou persegui-la até vingar a morte do menino.
Sabendo que Doé-Pinó morava num lago, acima de Iutica, foi até ali, para a matar.
Mas a cobra fugiu por um sumidouro que liga o Uaupés ao Papori.
Foi a Tapira-Jirau e ali encontrou apenas o retrato de Doé-Pinó nas pedras.
Atravessou o Papori e fez um matapi numa de suas cachoeiras.
E a cobra, sempre fugindo à frente dele, passou pelo paranazinho do velho Etom, perto de Ipanoré.
Vendo que Doé-Pinó rumava para a Cachoeira Grande (hoje chamada São Gabriel), Ualipera encurtou caminho por um igarapé e foi fazer um matapi um pouco acima (entre a antiga Fortaleza e a margem direita do Rio Negro). E ali esperou a cobra, mandando recado para os Baré a matarem, se ela inda conseguisse escapar.
Doé-Pinó arrebentou o matapi que Ualipe.ra fez perto de São Gabriel.
A cobra baixou para Camanau.
Mas ali os Baré a mataram, abrindo-a pela barriga.
Do seu coração, fígado e tripas, que jogaram para baixo, nasceram os pirarucus, as pescadas, os aracus, todos os peixes gostosos.
Como nada disso jogaram para cima da cachoeira de São Gabriel, nenhum pirarucu, nenhum jandiá são encontrados no alto Rio Negro e nos seus afluentes. O que eles têm mais é sarapó e aracu.
A cabeça de Doé-Pinó virou pedra, chamada MbóiAcanga.
Oo Baré encontraram no bucho da cobra uns pedacinhos de ossos. E disseram que devia ser o filho de Ualipera.
Puseram os ossinhos num aturá pequenino e mandaram por três portadores levá-las ao velho.
Ualipera não foi encontrado.
Os portadores tinham levado arco, flechas, caniço e minhocas para pescarem algum peixinho.
Puseram o aturá no chão.
Nisso o Gavião-da-Serra roubou os ossinhos do aturá e os engoliu, cantando: Cã, cã, cã, cã!
Dias depois encontraram o velho.
E os três portadores contaram o que havia acontecido.
Ualipera saiu com os três portadores e foi procurar, o Gavião-da-Serra.
E o encontraram. E o mataram. Abriram-lhe o bucho. E nada acharam ali. Escalaram a serra onde o Gavião morava.
E encontraram sobre uma pedra Os ossinhos que o Gavião havia vomitado.
Ualipera soprou sobre os ossinhos e seu filho foi ressuscitando.
De volta para casa, ao passar pelo Igarapé do Mel, Ualipera deu ao filho água e mel. E, ao passar por uma lagoa, o pintou com um barro vermelho das margens, para que ele ficasse corado e tivesse força.
Chegando à sua casa mandou preparar um caxiri e festejou a chegada do filho.
Disse-lhe antes, porém, ao ouvido:
— Não dances com mulher menstruada ou com mulher grávida.
O rapaz, esquecido da recomendação, dançou com uma mulher menstruada.
Seu corpo foi vergando para o chão, suando sangue, sangue, e morreu.
Ualipera, depois que o levou para as Pedras da Felicidade, voou para o céu.
Virou Sete-estrelo!
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