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Mito da origem da noite

Colhida por Nunes Pereira entre os índios maué

Depois de criado o Mundo não havia noite para o Índio Maué dormir.

Então Uánhã, sabendo que a Surucucu era Dona da Noite, e, também, a Jararaca, a Aranha, o Lacrau e a Centopéia, disse à sua gente:

— Vou buscar a Noite para vocês.

E foi, levando consigo arcos e flechas. Ao chegar à casa da Surucucu, lhe disse:

— Eu queria comprar a Noite. Aqui tens o meu arco e estas flechas.

A Surucucu lhe respondeu:

— Ora, filho, para que é que eu quero o teu arco e estas flechas, se não tenho mãos? Não. Não quero o teu arco e as tuas flechas.

Uánhã foi buscar, por isso, uma liga para as pernas. E, voltando à casa da Surucucu, lhe disse:

— Aqui está uma liga para amarrares na tua perna.

— Na perna não pode ser, meu filho. Amarra no meu rabo, porque eu não posso me levantar.

Uánhã amarrou a liga no rabo da Surucucu.

(Por isso, quando a cobra se zanga, sacode o rabo, fazendo um barulho: ché, ché, ché, para prevenir quem vai passar.)

A Surucucu, porém, não lhe entregou a Noite. Uánhã voltou noutro dia, levando venenos.

E disse à Surucucu:

— Vim buscar a Noite. Quero levar a Noite. Trouxe venenos comigo.

— Ah! Trouxe venenos? Então eu lhe entrego a Noite, porque de venenos é que eu preciso.

Arrumou a Noite (a Primeira Noite) dentro de uma cestinha e a entregou a Uánhã.

Os companheiros de Uánhã, assim que o viram sair da casa da Surucucu, correram a encontrá-lo no caminho.

— Então, é verdade que levas a Noite contigo?

Uánhã respondeu que sim, mas que a Surucucu lhe recomendara que só abrisse a cestinha em casa.

Mas os companheiros de Uánhã tanto insistiram em abrir a cestinha, que, afinal, acabaram conseguindo.

Da cestinha saiu a Noite: a Primeira Noite.

Os companheiros de Uánhã, espantados e com medo, puseram-se a gritar, fugindo, depois, às cegas.

E Uánhã também se pôs a gritar: Tragam a Lua! Tragam a Lua!

Porque Uánhã tinha ficado só dentro da Noite.

Então os parentes da Surucucu — a Jararaca, o Lacrau, a Centopéia — que já haviam dividido os venenos entre si, cercaram Uánhã, e a Jararaca, irmã da Surucucu, o picou no dedo do pé.

Uánhã sentiu dor, conheceu que a Jararaca o picara e disse:

— Sei quem tu és, sei quem tu és. Os meus companheiros te matarão.

Todas as outras cobras foram experimentar seus venenos em Uánhã. Só a Cutimbóia não, porque, sendo muito braba, os parentes da Surucucu não lhe deram nenhum veneno: só assim não morderia todos os Maué.

Uánhã morreu da picada da Jararaca, mas, como havia feito um trato com um amigo, este, encontrando-o morto, fez um banho de folhas mágicas e com ele banhou o cadáver.

Uánhã ressuscitou, e, pondo-se a caminho, foi buscar em casa da Surucucu a Noite, a Grande Noite, porque a outra havia sido muito curta.

E entregou mais venenos à Surucucu.

A Surucucu, para tornar a Noite grande, misturou jenipapo com todas as imundícies que encontrou.

A Grande Noite foi feita com imundícies.

É por isso que, à noite, sentimos tantas dores no corpo, ficamos com a boca amarga e fedorenta.

Essa foi a Noite que Uánhã arranjou para os Maué.

 

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.711-713)

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