Depois de criado o Mundo não havia noite para o Índio Maué dormir.
Então Uánhã, sabendo que a Surucucu era Dona da Noite, e, também, a Jararaca, a Aranha, o Lacrau e a Centopéia, disse à sua gente:
— Vou buscar a Noite para vocês.
E foi, levando consigo arcos e flechas. Ao chegar à casa da Surucucu, lhe disse:
— Eu queria comprar a Noite. Aqui tens o meu arco e estas flechas.
A Surucucu lhe respondeu:
— Ora, filho, para que é que eu quero o teu arco e estas flechas, se não tenho mãos? Não. Não quero o teu arco e as tuas flechas.
Uánhã foi buscar, por isso, uma liga para as pernas. E, voltando à casa da Surucucu, lhe disse:
— Aqui está uma liga para amarrares na tua perna.
— Na perna não pode ser, meu filho. Amarra no meu rabo, porque eu não posso me levantar.
Uánhã amarrou a liga no rabo da Surucucu.
(Por isso, quando a cobra se zanga, sacode o rabo, fazendo um barulho: ché, ché, ché, para prevenir quem vai passar.)
A Surucucu, porém, não lhe entregou a Noite. Uánhã voltou noutro dia, levando venenos.
E disse à Surucucu:
— Vim buscar a Noite. Quero levar a Noite. Trouxe venenos comigo.
— Ah! Trouxe venenos? Então eu lhe entrego a Noite, porque de venenos é que eu preciso.
Arrumou a Noite (a Primeira Noite) dentro de uma cestinha e a entregou a Uánhã.
Os companheiros de Uánhã, assim que o viram sair da casa da Surucucu, correram a encontrá-lo no caminho.
— Então, é verdade que levas a Noite contigo?
Uánhã respondeu que sim, mas que a Surucucu lhe recomendara que só abrisse a cestinha em casa.
Mas os companheiros de Uánhã tanto insistiram em abrir a cestinha, que, afinal, acabaram conseguindo.
Da cestinha saiu a Noite: a Primeira Noite.
Os companheiros de Uánhã, espantados e com medo, puseram-se a gritar, fugindo, depois, às cegas.
E Uánhã também se pôs a gritar: Tragam a Lua! Tragam a Lua!
Porque Uánhã tinha ficado só dentro da Noite.
Então os parentes da Surucucu — a Jararaca, o Lacrau, a Centopéia — que já haviam dividido os venenos entre si, cercaram Uánhã, e a Jararaca, irmã da Surucucu, o picou no dedo do pé.
Uánhã sentiu dor, conheceu que a Jararaca o picara e disse:
— Sei quem tu és, sei quem tu és. Os meus companheiros te matarão.
Todas as outras cobras foram experimentar seus venenos em Uánhã. Só a Cutimbóia não, porque, sendo muito braba, os parentes da Surucucu não lhe deram nenhum veneno: só assim não morderia todos os Maué.
Uánhã morreu da picada da Jararaca, mas, como havia feito um trato com um amigo, este, encontrando-o morto, fez um banho de folhas mágicas e com ele banhou o cadáver.
Uánhã ressuscitou, e, pondo-se a caminho, foi buscar em casa da Surucucu a Noite, a Grande Noite, porque a outra havia sido muito curta.
E entregou mais venenos à Surucucu.
A Surucucu, para tornar a Noite grande, misturou jenipapo com todas as imundícies que encontrou.
A Grande Noite foi feita com imundícies.
É por isso que, à noite, sentimos tantas dores no corpo, ficamos com a boca amarga e fedorenta.
Essa foi a Noite que Uánhã arranjou para os Maué.
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