Um velho tinha uma filha. Ela era muito bonita mas tímida.
Um dia a deu para companheira de um rapaz, que a levou para a terra de sua gente.
No dia seguinte a moça amanheceu doente. E disse ao marido. À noite já estava pior.
Então, na manhã seguinte, o rapaz resolveu levar a mulher para a casa do sogro, a fim de que este, se ela morresse, não o acusasse de crime.
Assim fez, levando em sua canoa a mulher e tudo o que era dela: um cumatá, uma rede e um camoti para preparar mingau.
O velho recebeu a filha e nada disse ao genro.
O rapaz voltou para sua casa, na terra de sua gente.
A mulher morreu, cinco dias depois de ter unido seu corpo ao do companheiro.
O velho a enterrou no chão de sua casa. E, para ninguém ver ali sinal de morte, espalhou cinza sobre a sepultura.
Depois mandou um portador dizer ao genro que viesse buscar sua mulher, porque ela já estava boa.
Mas o velho, antes de mudar-se daquele sítio, fez uma arte mágica junto à sepultura da filha.
O genro recebeu o recado com alegria. E embarcou na sua canoa, levando sarabatana, carcás com curabis, pote de veneno, arco e flechas, rede e panacu.
Em viagem flechou dois macacos de rabo curto. Remando sem parar chegou logo ao sítio do sogro.
E, ainda longe, já havia avistado sua mulher, de cabeça baixa, tecendo uma liga de tucum.
O rapaz saltou no porto. Quando ele foi-se aproximando da casa do velho viu sua mulher levantar-se e desaparecer.
O rapaz chamou e ela não lhe respondeu. Então parou à entrada da casa, ouvindo o barulho de cuias batidas, de paredes de palha arranhadas e sacudidas.
Entrou, e encaminhou-se para o interior da casa, no rumo daquele barulho de cuias batidas, que a mulher deveria estar fazendo.
Não encontrou ali ninguém. E ao voltar deu de cara com a mulher, que vinha entrando pela porta da: frente, muito pálida e de cabeça baixa. O rosto dela ainda era bonito, mas os seus gestos eram estranhos.
As sombras da noite entraram atrás dela.
A mulher o foi abraçando, sempre de cabeça baixa, dizendo que o estava esperando para se deitar com ele. E o foi arrastando para o canto da casa, onde havia uma rede, ali mesmo onde o velho a enterrara.
E, já na rede, começou a puxar-lhe a pele dos braços e do rosto, mordendo-o. Depois puxou os cabelos do sexo dele e o escroto.
O homem estranhou o que a sua mulher estava fazendo. E disse:
— Mulher, tu não eras assim. Estás muito diferente. Eras tímida, calma. E agora fazes coisas estranhas. Olha, espera. Vou até o porto buscar dois macacos que trouxe para tua quiinhapira.
E afastou-se dos braços da mulher, levantando-se da rede. A mulher também se levantou e o acompanhou até à porta. Mas sempre o estava beliscando e abraçando.
O rapaz conseguiu ir até o porto. Carregou os dois macacos. E, voltando do porto, foi dizendo à mulher:
— Vai cozinhá-los para nossa quiinhapira.
Sempre de cabeça baixa, a mulher apanhou os macacos e foi para o interior da casa.
O rapaz foi espiar.
E viu que a mulher, na beira do fogo, não pusera os macacos para cozinhar em nenhuma panela.
Ia queimando-lhe os pêlos e assando-os, inteiros, com tripas e tudo.
E, depois, tirando-lhes os olhos e pedaços de carne crua e sangrenta, ia devorando tudo, com esganação.
Assombrado e desesperado, andando de um lado para outro, o rapaz acabou descobrindo sinais de cova no chão.
E compreendeu que sua mulher estava morta.
E quem estava lá dentro, perto do fogo, era uma Huenique Haripona, era a alma da sua mulher.
Dali mesmo gritou para a mulher que ia até o porto buscar suas coisas.
E, embarcando na canoa, remou, remou, remou para a terra da sua gente.
Nisso a Huenique Haripona apareceu no meio da porta.
E o seu rosto era magro e pálido, como o de um cadáver.
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