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Lenda da origem dos bichos

Colhida por Nunes Pereira entre os índios maué

No princípio do mundo todos os bichos eram gente como os Maué.

E, assim que os Muricariua fizeram tarubá do cadáver de Iveroi, filha do Grande Tuxaua das Onças, os que eram gente e hoje são bichos resolveram fazer uma dança da tocandira.

O hêté-uacóp, encarregado de convidar gente para a festa, era casado.

Então, este falou à mulher:

— Olha, mulher. Amanhã vamos para a dança da tocandira. Vai haver muito sapó e muito tarubá. E muita gente, muita.

Naquele tempo, ainda o convidado estava longe da casa da festa e já os donos iam encontrá-lo no caminho — levando-lhe um bom tarubá.

Nesse dia, porém, a mulher dele disse que estava incomodada, só para o enganar.

Então o hêté-uacóp encarregou a cunhada de levar os enfeites dele para a casa da festa.

Logo que a mulher do hêté-uacóp, saindo da asa da festa, viu que o seu homem havia saído; correu até o mato, apanhou caroços de inajá, quebrou-os, tirou-lhes os bichos de dentro e passou-os no cabelo como óleo.

E, correndo por outro caminho, dirigiu-se para a casa da festa, a fim de lá chegar antes do marido.

Ao chegar o hêté-uacóp, à frente dos convidados, no sítio onde costumava demorar-se, ali lhe contaram que a mulher dele já tinha chegado havia muito tempo.

O hêté-uacóp disse que não era possível, porque a mulher ficara em casa incomodada... Que deveria ser outra parecida com ela.

Mas quem lhe contou isso teimou em afirmar que era a mulher dele que estava na casa da festa.

Então o hêté-uacóp transformou-se num pássaro e foi até à casa da festa, para ver se a mulher lá estava, como diziam.

E estava mesmo, dançando com o seu namorado.

O hêté-uacóp saiu da casa da festa zangado e, ao encontrar os seus convidados, disse que naquela noite ia acontecer muita coisa ruim, por isso todos eles não o deviam abandonar e estar alerta aos toques da sua buzina, que eram diversos.

Um deles ora soava baixo, ora agudo, ora longo:

Têrêrêrê! têrêrêrê! têrérêrê
Tem! tem! tem! tem! tem! tem!

Foi, em seguida, conversar com o Raio, com o Trovão e com a Chuva.

Os convidados foram sozinhos para a casa da festa.

Caiu, pouco depois, sobre a terra dos Maué, um temporal feio, prendendo toda a gente dentro da casa da festa, enlameando e sujando de galhos e de folhas o terreiro.

De repente o hêté-uacóp apareceu na casa da festa e bateu na mulher, bateu, bateu, bateu, bateu, puxando-lhe, por fim, o nariz.

A mulher era gente, mas virou logo Tamanduá-bandeira. Com a buzina o hêté-uacóp deu no namorado dela, puxando-lhe o nariz também. Por isso ele virou Anta, ficando com o focinho comprido.

Deu na cunhada, que virou Tamanduaí.

Deu num dos seus convidados e este virou Veado.

E, porque fugiu pela porta, ficou com os quartos largos.

Deu com a buzina noutro convidado e este virou amanhéri, fugindo, às cegas, através da parede de palha; por isso não tem carne na bunda.

Nessa noite todos os convidados, que ali estavam, viraram bichos.

A velha que ralava guaraná, ao fugir para o terreiro com a cuia, a pedra de ralar e a bola de guaraná, virou Jabuti. A cuia é o casco, o coração é um pedaço de guaraná e o peito é a pedra.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.727-729)

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