Tauéná estava estendido na rede, de madrugadinha, quando ouviu a conversa dos seus irmãos e de outros parentes, acocorados em volta do fogo:
— Os buritizeiros do Igarapé dos Macacos estão carregados de frutos.
— Arara, papagaio, periquito, tucano estão bicorando os cachos.
— E cutia, paca, caititu e rato coró estão aproveitando os frutos que caem no chão...
— Esses bichos não saem de roda dos buritizeiros e estão estragando tudo.
Entre a Serra de Pacaraima e a de Roroima, o rio Cotingo, o rio Tacutu e o rio Maú não havia caçador mais destemido e astucioso do que Tauéná.
Do fundo da rede ele viu que seus companheiros se preparavam para ir ao buritizal do Igarapé dos Macacos. E foi logo saltando de dentro dela, dizendo que iria também.
Tauéná não pensava, porém, em ir apanhar frutos de buriti. índio macho mesmo não apanha buriti. Mulher, velha, curumim... sim. índio macho mata caça, faz roça, rouba cunhã para companheira.
Tauéná iria com eles, mas para caçar anta, veado, queixada, caititu, cutia, paca.
A mãe de Tauéná viu o filho escolhendo as melhores flechas e falando baixinho:
— Esta? Não... Aquela? Não... Esta? Sim!
E a velha disse:
— Tauéná! Por que não levas um jamaxi?
— Minha Mãe! Tauéná não gosta apenas de frutas, gosta de caças.
— Mas nós já temos tanta embiara no moquém! Tem macaco, veado, capivara. Tem o peixe jandiá, o acarapixuna, a pirapitinga.
E Tauéná lhe respondeu:
— Minha Mãe! Tauéná tem flechas boas para matar caça.
A mãe de Tauéná não disse mais nada. Seu filho era tão valente quanto teimoso. E pensou, com a sua sombra, que o Pai-do-mato ou o Cainhamé o castigaria.
(E o que mãe pensa, de bem ou de mal, sobre seu filho, acontece... )
Tauéná acompanhou os irmãos e os cunhados até o buritizal do Igarapé dos Macacos.
Ainda não amanhecera de todo, mas os ouvidos e os olhos de Tauéná tudo distinguiam. Sombras rasteiras se moviam em redor dos buritizeiros. Deviam ser porcos e cutias. E no alto daquelas palmeiras aves e pássaros estavam cochichando.
O coração de Tauéná se alegrou com o que via e escutava. Não disse nada, entretanto, aos companheiros. E foi separando as flechas: — Esta? Não... Esta? Sim.
E eram flechas novinhas, boas para matar anta, veado, porco, macaco, cutia, paca, marreca, pato.
Minutos depois tudo já estava claro em redor do buritizal. E ali estava uma cutia-açu, grande corno uma paca, sentada na terra, roendo a polpa de um fruto de buritizeiro.
Tauéná pediu aos seus companheiros que ficassem quietos. Abriu o arco, apurou a pontaria e soltou a flecha.
Flecha lançada por Tauéná levava a morte na ponta de osso, acapu ou bambu.
Mas aquela passou por sobre o lombo da cutia e nem a espantou.
Tauéná ficou com raiva. Abriu de novo o arco, apurou a pontaria e soltou a flecha no rumo da cutia.
E foi infeliz, também, daquela vez, o caçador Tauéná.
A cutia continuou a roer a polpa do fruto do buritizeiro. Tauéná lançou outra flecha... e nada!
Enraiveceu-se e saiu no encalço do bicho, porque seus companheiros o haviam espantado, aos gritos e às gargalhadas.
E a Cutia-açu, fugindo à frente de Tauéná, quando o sol tudo iluminava, parecia toda de ouro maciço.
Tomando a dianteira de Tauéná, a cutia às vezes parava para continuar a roer o fruto de buritizeiro que levava entre os dentes, e outras vezes se punha a saltar de um lado para outro, negaceando.
O caçador panema abria o arco, de novo, aprumava a pontaria e soltava a flecha. E nada!
A flecha silvava, por entre as patas de ouro da cutia ou por sobre a sua cabeça de ouro. E ia cravar-se no chão.
Desse modo, perseguindo a caça, sem se aperceber, Tauéná transpôs os campos e boqueirões. E a Cutia de ouro sempre na frente dele, ora aos pulinhos, ora sentada, à sua maneira, roendo, roendo, roendo a polpa do fruto do buritizeiro.
De repente a Cutia desapareceu por detrás de uma espessa moita de banana sororoca.
Estavam numa enseada deserta do Surumu.
Tauéná, pé ante pé, tentou surpreendê-la e apanhá-la. Mas, ao rodear a moita, deu com uma Cunhã, sem tanga e sem tatuagens, de corpo dourado como o da Cutia-açu.
Tauéná se lançou sobre a moita de sororoca, para agarrar a Cunhã.
A moita de banana sororoca, porém, se transformou numa touceira de unha-de-gato e de espera-aí, que são arbustos cheios de espinhos, trançados e retrançados pelas mãos do Pai-doMato ou Cainhamé.
Estavam numa enseada deserta do Surumu.
A Cunhã, sorrindo, saboreava um fruto de buritizeiro.
E Tauéná, sem poder agarrá-la, rasgava o corpo nos espinhos da touceira de unha-de-gato e de espera-aí, que crescera em redor do corpo da Cunhã.
Seis dias e seis noites os seus companheiros rastrearam pelas serras, lavrados, campos, várzeas e boqueirões.
Deram afinal com ele, numa enseada deserta do Surumu, meio morto, meio vivo, delirando, delirando.
Todos os companheiros de Tauéná contam essa estória, mas ele não a conta a ninguém.
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