Um homem era Baiá, quer dizer, músico e cantor e orientador dos dançarinos.
E tinha mulher e um filho único.
Um dia sentiu-se doente e teve a certeza de que iria morrer. Disse à mulher e esta se pôs a chorar e a maldizer-se, agarrando-se a ele e ao filhinho.
O homem enfeitou-se. Pôs acanitara, pintou-se, suspendeu seu tembetá ao pescoço. Depois enfiou o braço no escudo de couro de anta. E empunhou uma lança.
A mulher disse que queria morrer com ele e com o filhinho também.
O Baiá disse à mulher:
— Vai esperar-me, na entrada do caminho da mata. E leva contigo nosso filho.
A mulher fez.
Daí a pouco chegou o Baiá (que tinha morrido na sua maloca) enfeitado de acanitara, tembetá de pedra branca c escudo no braço direito. Na mão esquerda empunhava uma. lança.
O Baiá perguntou à mulher:
— Tens coragem?
A mulher respondeu:
— Tenho, sim.
O Baiá disse:
— Fecha os olhos como se estivesses dormindo. E mandou que o filhinho fizesse o mesmo.
Os dois fizeram. O Baiá soprou sobre eles.
E logo a mulher e a criança, quando o Baiá mandou que abrissem os olhos, se acharam no terreiro de uma grande maloca, num sítio desconhecido.
De dentro da maloca foram saindo homens, que eram Baiás, mas que já haviam morrido há muito tempo.
Estavam enfeitados com as suas acanitaras e seus tembetás. E carregavam escudos, arcos e flechas.
E aqueles Baiás, músicos e cantores, eram muitos, muitos. Um deles, por isso, cantando, disse:
— Aqui está fedendo a gente viva.
Referia-se àquela mulher e seu filho.
Na casa do Chefe daquele lugar o menino disse que estava com fome.
No mesmo instante apareceu por ali uma velha e disse à viúva do Baiá:
— Procura batatas no terreiro. Aí encontrarás muitas batatas.
A mulher saiu revirando o chão do terreiro mas só encontrou tapurus.
Eram enormes e feios.
A viúva do Baiá voltou e disse à velha:
— Não encontrei batatas.
A velha disse:
— Tem, sim. Procura de novo.
A mulher foi buscar um tapuru e o mostrou à velha, perguntando:
— Como é que a gente come tapuru?
A velha disse:
— Não precisa fogo para assar. Põe o tapuru no sovaco e ele assará.
A viúva fez. Pôs aquele verme no sovaco. E o tapuru virou batata, bem assada. A mulher deu ao filho. E este comeu a batata que se parecia com um tapuru enorme e feio.
Nisso, começou a ficar noite e a fazer frio.
A viúva do Baiá procurou ali fogo para se aquecer e alumiar.
De repente ouviu um barulho de passos leves. E foram logo aparecendo luzezinhas, andando de um lado para outro e iluminando o terreiro da maloca. E tinham a cor do fogo-fátuo.
A mulher apanhou um turi e procurou acendê-lo numa das luzezinhas.
Mas uma voz disse:
— Aqui fede à carne de acutiara. Amanhã mataremos esta mulher e seu filho.
A mulher ouviu tudo. E sem esperar o marido, fugiu daquela maloca, carregando o filho.
Assim desceu até à beira do rio e chegou à Terra das Cutias.
As Cutias convidaram a mulher para comer quiinhapira.
Elas haviam cozinhado camarões, e estes pareciam grandes pimentas vermelhas. O menino, que estava com muita fome, comia os camarões sem se engasgar.
As Cutias disseram à mulher:
— Como seu filho come pimenta!
A mulher contou às Cutias o que lhe havia acontecido e ao filho, depois da morte de seu marido, na Maloca dos Mortos. E pediu-lhes que a levassem, com o me:nino, para a casa de sua gente.
As Cutias tiveram pena da mulher e do menino do Baiá. Porque o Baiá era um grande músico e um grande cantor.
E levaram a mulher e a criança para a terra da sua gente.
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