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Lenda do tambatajá

(Versão taulipangue)

Uma índia macuxi fugiu da Maloca Bonita, no rio Surumu, com o filho de um tuxaua taulipangue.

Os pais e parentes dela ficaram zangados. E os pais e parentes dele, também.

Mas a moça macuxi e o moço taulipangue não se importaram com a zanga dos velhos, porque se queriam muito na força do seu desejo.

E foram morar para as bandas da Serra da Lua, do outro lado do rio Tacutu, onde viviam uns parentes dele.

E nunca se separavam.

Se ele ia pescar, ela ia também. Se ela ia banhar-se, ele ia também. Se ele ia caçar, ela ia também.

Se ele ia para a roça, ela ia também.

Nove meses depois a índia sentiu que ia ser mãe.

Assim, à hora em que o sol de verão obriga a toda gente (e mesmo os animais) a repousar na sombra, ela se encaminhou para a beira do rio Tacutu.

E lá onde encontrou um chão bem limpo, debaixo das ramas do ingá-i, pariu um menino.

O corpo dele era engelhado como a pele e roxo como a tinta do jenipapo.

E, enquanto mirava a criança com tristeza e lhe ia tirando as peles do corpinho, viu que nem mexia os braços e nem mexia as pernas.

Sentou-se, por isso, junto à água e nela a mergulhou três vezes. E três vezes lhe deu leves palmadas nas costas e nas pernas para a animar.

Mas a criança não se mexeu e nem chorou. E arquejava.

E todo o seu corpo tremia.

A mulher tentou levantar-se. Doíam-lhe os quadris e suas pernas não lhe sustentavam o corpo.

Então, gritou, gritou, gritou.

E parecia que o vento dos campos, soprando sobre as serras e os rios, não deixaria nunca, nunca, que alguém a ouvisse.

Mas as mulheres e curumis que vinham banhar-se, a ouviram. E foram no rumo daqueles gritos.

A índia estava ali. Tinha um menino morto nos braços. E não podia levantar-se.

Um dos curumis foi chamar o companheiro da índia. Vieram muitos homens com ele.

Uma das velhas, chamando outras, havia cochichado:

— Essa não respeitou os conselhos que lhe deram quando enluou pela primeira vez. E a zanga dos pais dela a ensaruou.

O homem tirou a criança dos braços da companheira e a entregou à velha que estava cochichando.

Levantou-a da beira do rio e a levou para casa.

Ela chorava baixinho e pedia que lhe devolvessem o filho. E assim continuou, deitada na rede que tecera.

Num canto da maloca as velhas estavam passando urucu e carajuru no cadáver da criança.

No dia seguinte as mesmas velhas embrulharam aquele cadáver numa esteira.

E o enterraram no campo, pouco distante da maloca, sob um tapirizinho que elas mesmas levantaram.

No outro dia veio do lado inglês um velho pajé.

Dançou e cantou, até à noite, em redor da rede da Índia.

Soprou fumaça de cigarro sobre o corpo dela. Bateu folha nas suas pernas, nos seus braços e quadris.

E voltou para o lado inglês, dizendo que a mulher, noutro dia, se levantaria sozinha.

A mulher, porém, nunca mais pôde andar.

Então, (como nos primeiros dias em que ambos tinham começado a viver juntos) o homem passou a levar a paralítica por toda a parte.

Se ia caçar, levava a mulher também. Se ia pescar, levava a mulher também.

Se ia para a roça, levava a mulher também.

Um dia saíram pelo campo comendo mangaba e murici.

O homem a levava às costas.

O Sol foi embora. Veio a Lua. Veio o Sol. Depois veio a Lua.

E assim aconteceu durante muitos dias.

Muita gente já andava à procura deles. Andava daqui, andava dali, no rastro do peréquêté do homem.

E só depois de muitos, muitos dias, encontraram o arco, as flechas e o peréquêté do homem, a tanga, o pananpanan, os brincos e as pulseiras da índia.

Mas, ao redor dessas coisas, encontraram, também, moitas de um tajá, de um verde brilhante, que não conheciam.

Do corpo da índia e do companheiro teria nascido aquela planta, cujas folhas, na página inferior, mostravam uma outra folha semelhante a um sexo de mulher.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.70-72)

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