Um dia cinco Cauaiua-Parintintim foram fazer uma viagem por terras que não conheciam.
Ia um atrás do outro, com bons arcos e boas flechas.
Chegando à beira de um rio resolveram dormir ali.
Um dos viajantes disse:
— Vamos fazer um cercado com paus bem unidos e cobrir tudo com folhas bem trançadas de palmeiras.
Todos concordaram. Um deles, porém, disse que queria dormir pelo lado de fora do cercado. Queria ver como era a noite daquele lugar. E se aparecia alguma mulher para se deitar com ele.
Escolheu os galhos de duas árvores. Armou a rede e deitou-se.
Mas não viu a noite porque dormiu logo. E nenhuma mulher apareceu para se deitar com ele.
Os outros dormiram no cercado.
Pela manhã saíram para continuar a viagem. Foram chamar o companheiro. E este não respondeu.
Os quatro companheiros espiaram e viram o corpo do outro no fundo da rede, só pele e ossos.
Os companheiros disseram:
— Bem feito.
E continuaram a viagem.
Mais adiante viram uma árvore alta e ouviram vozes de mulheres, banhando-se no porto, e o toque-taque-toque de um Pica-pau fazendo buracos num tronco e comendo cupins.
Um dos companheiros disse:
— Ninguém deve espiar as mulheres e o Pica-pau. Ninguém. Vamos passando de cabeça baixa, um atrás do outro.
Foram andando assim.
Um deles quis espiar o Pica-pau. E quis também espiar as mulheres.
Os outros disseram:
— Então fica para trás. E espiou o Pica-pau. E espiou as mulheres nuas.
De repente a árvore grande caiu em cima do curioso.
Os companheiros mal ouviram os gritos do curioso, porque o Pica-pau estava bicando o tronco da árvore, de propósito, com mais força.
— Bem feito, disseram. E continuaram a viagem.
Mais adiante, ouviram um Inhambu cantar. Um dos companheiros disse:
— Ninguém deve espiar o Inhambu que está cantando. Ninguém deve espiar mulheres.
E foram andando, de cabeça baixa.
Mas um companheiro quis ver como era o Inhambu daquele lugar.
Os outros disseram:
— Então fica para trás.
E o homem foi espiar o Inhambu e procurar uma mulher para se deitar com ele.
Mas ficou doido, andando de um lado para outro, até que morreu. O corpo dele ficou seco e, debaixo da pele, lhe saía um pó esbranquiçado, como o que tem a pele do Inhambu.
Os outros disseram:
— Bem feito.
E só dois companheiros continuaram a viagem, sem panrar, todo o dia.
À tardinha um disse:
— Vamos buscar bastante lenha para fazer nossa fogueira Fogueira grande. Boa para espantar os bichos que este lugar deve ter.
Foram para o mato. Mas um só trouxe muitos bons paus para a fogueira. O outro só trouxe ramos e gravetos. Não queria fogueira grande porque fazia muito calor e ele queria ver como eram os morcegos daquele lugar.
O outro deitou-se sozinho, bem perto de uma fogueira grande.
Mais tarde veio o Morcego-Grande. Muitos Morcegos-Grandes.
Apagaram o fogo da fogueira pequena e chuparam todo o sangue do pescoço do curioso.
No outro dia, de manhã, o companheiro foi chamar o curioso. E o encontrou morto.
Então voltou para sua maloca sozinho.
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