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Estória dos curiosos

Colhida por Nunes Pereira entre os índios cauaiua-parintintim

Um dia cinco Cauaiua-Parintintim foram fazer uma viagem por terras que não conheciam.

Ia um atrás do outro, com bons arcos e boas flechas.

Chegando à beira de um rio resolveram dormir ali.

Um dos viajantes disse:

— Vamos fazer um cercado com paus bem unidos e cobrir tudo com folhas bem trançadas de palmeiras.

Todos concordaram. Um deles, porém, disse que queria dormir pelo lado de fora do cercado. Queria ver como era a noite daquele lugar. E se aparecia alguma mulher para se deitar com ele.

Escolheu os galhos de duas árvores. Armou a rede e deitou-se.

Mas não viu a noite porque dormiu logo. E nenhuma mulher apareceu para se deitar com ele.

Os outros dormiram no cercado.

Pela manhã saíram para continuar a viagem. Foram chamar o companheiro. E este não respondeu.

Os quatro companheiros espiaram e viram o corpo do outro no fundo da rede, só pele e ossos.

Os companheiros disseram:

— Bem feito.

E continuaram a viagem.

Mais adiante viram uma árvore alta e ouviram vozes de mulheres, banhando-se no porto, e o toque-taque-toque de um Pica-pau fazendo buracos num tronco e comendo cupins.

Um dos companheiros disse:

— Ninguém deve espiar as mulheres e o Pica-pau. Ninguém. Vamos passando de cabeça baixa, um atrás do outro.

Foram andando assim.

Um deles quis espiar o Pica-pau. E quis também espiar as mulheres.

Os outros disseram:

— Então fica para trás. E espiou o Pica-pau. E espiou as mulheres nuas.

De repente a árvore grande caiu em cima do curioso.

Os companheiros mal ouviram os gritos do curioso, porque o Pica-pau estava bicando o tronco da árvore, de propósito, com mais força.

— Bem feito, disseram. E continuaram a viagem.

Mais adiante, ouviram um Inhambu cantar. Um dos companheiros disse:

— Ninguém deve espiar o Inhambu que está cantando. Ninguém deve espiar mulheres.

E foram andando, de cabeça baixa.

Mas um companheiro quis ver como era o Inhambu daquele lugar.

Os outros disseram:

— Então fica para trás.

E o homem foi espiar o Inhambu e procurar uma mulher para se deitar com ele.

Mas ficou doido, andando de um lado para outro, até que morreu. O corpo dele ficou seco e, debaixo da pele, lhe saía um pó esbranquiçado, como o que tem a pele do Inhambu.

Os outros disseram:

— Bem feito.

E só dois companheiros continuaram a viagem, sem panrar, todo o dia.

À tardinha um disse:

— Vamos buscar bastante lenha para fazer nossa fogueira Fogueira grande. Boa para espantar os bichos que este lugar deve ter.

Foram para o mato. Mas um só trouxe muitos bons paus para a fogueira. O outro só trouxe ramos e gravetos. Não queria fogueira grande porque fazia muito calor e ele queria ver como eram os morcegos daquele lugar.

O outro deitou-se sozinho, bem perto de uma fogueira grande.

Mais tarde veio o Morcego-Grande. Muitos Morcegos-Grandes.

Apagaram o fogo da fogueira pequena e chuparam todo o sangue do pescoço do curioso.

No outro dia, de manhã, o companheiro foi chamar o curioso. E o encontrou morto.

Então voltou para sua maloca sozinho.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.616-618)

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