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Estória da mucura e do acurau

Colhida por Nunes Pereira entre os índios maué

Colhida por Nunes Pereira entre os índios maué

 

Um casal de Mucuras velhos só tinha duas filhas, moças e bonitas.

Quando elas chegaram à idade de casar, seus pais as deram ao Acurau e ao Caraxué.

O Acurau levantava-se muito cedo e ia logo para a roça, mas o Caraxué ficava dormindo até alta hora do dia.

Os sogros do Acurau estavam muito contentes com ele e não se cansavam de gabá-lo, censurando, porém, o preguiçoso Caraxué, grande dorminhoco, que só tarde do dia ia para a roça.

Isso, porém, não era bem verdade.

O Acurau trabalhava somente enquanto o sol não esquentava, porque, quando o sol estava alto, se escondia entre a folhagem de uma árvore. Ali dormia à vontade.

O Caraxué, embora começando a trabalhar com o sol quase no meio do céu, não descansava nunca, brocando, roçando, encoivarando, queimando o mato e plantando o guaraná, o milho, a mandioca. Já à noitinha era que voltava para casa.

Seus sogros, enganados pelo Acurau, não se cansavam de elogiá-lo e de censurar o Caraxué.

Um dia os velhos resolveram ir ver a roça do genro Acurau.

Foram.

E, em pouco tempo, haviam percorrido toda a roça do Acurau.

Procurando-o, em seguida, foram encontrá-lo dorminhocando num pau, na sombra de uma ramagem.

Voltando, então, para casa, e contando tudo à filha, aconselharam-na a que abandonasse o Acurau.

A filha obedeceu aos velhos. O Acurau foi-se embora.

Apareceu o Ariramba e propôs à mulher do Acurau viver com ela.

A Mucura aceitou e os velhos aprovaram a união que o Ariramba lhes propunha.

O Ariramba disse à mulher que não sabia trabalhar, mas sabia bem pescar.

A mulher aceitou assim mesmo o Ariramba.

No dia seguinte ao da primeira noite em que haviam dormido juntos, o Ariramba disse à mulher:

— Vamos, minha velha. Pega o aturá para carregar o peixe que eu vou pescar.

A mulher com o aturá às costas, seguiu o Ariramba até à beira do rio.

Subindo a um pau, bem à beira d'água, o Ariramba sacudiu um maracazinho.

Logo apareceu um tucunaré, depois outro e mais outro, e mais outros.

E o Ariramba os pescava e jogava ao aturá que a companheira tinha às costas, até vê-lo cheinho.

Só assim voltaram para casa.

Os pais da Mucura, ao ver a quantidade de peixes que o Ariramba havia pescado, ficaram assombrados e perguntaram à filha:

— Como já, então, teu companheiro pegou tantos tucunarés?

— Ora, pescando.

— Pescando como?

— É fácil. Depois de trepar num pau, bem à beira d'água, sacudiu o seu maracazinho e os tucunarés foram vindo.

— Bem, disseram os velhos.

E, à noite, na rede, combinaram que, no dia seguinte, iriam tentar uma pescaria igual.

E assim fizeram.

A Mucura velha pôs um aturá às costas e o companheiro dela a seguiu até à beira do rio.

Lá subiu ele a um pau e sacudiu o seu maracá.

Veio o tucunaré, mal ouviu o toque do maracá.

E o Mucura velho, ao ver o peixe, atirou-se do alto do pau sobre ele, mas foi cair-lhe direito na boca.

O tucunaré engoliu o Mucura velho.

A companheira, vendo o que acontecera ao velho, correu e foi chamar a filha e pedir que lhe salvasse o marido.

O Ariramba foi salvar o sogro.

Subiu no pau, tocou o seu maracazinho. E veio o tucunaré com o Mucura velho no bucho.

O Ariramba pescou o tucunaré, rasgou-lhe o bucho com o bico e as garras.

E tirou de dentro o velho quase morto.

O velho voltou para casa e aconselhou a filha que abandonasse o Ariramba.

A filha obedeceu ao velho, abandonando o companheiro. O Ariramba foi-se embora.

Veio o Camaleão, então, e propôs casamento à antiga mulher do Acurau e do Ariramba.

A Mucura aceitou a proposta do Camaleão e os velhos aprovaram a resolução da filha.

O Camaleão, como o Ariramba, preveniu a mulher de que não sabia trabalhar, mas, também, era bom pescador.

Dormiram juntos.

E, na manhã seguinte, pondo o aturá às costas, a Mucura acompanhou o Camaleão à pescaria.

Chegado à beira do rio, o Camaleão mandou a mulher fazer uma fogueira.

A mulher fez.

O Camaleão, metendo-se entre as chamas da fogueira, sapecou bem o corpo todo e atirou-se n'água.

Com o corpo todo chamuscado, as peles do Camaleão atraíram os peixes, principalmente os tucunarés gordos que as iam bicorando e devorando.

Isso facilitava ao Camaleão pegá-los para os jogar ao aturá da mulher.

Ao voltarem eles para casa, os velhos Mucuras viram o aturá cheio de peixes e procuraram saber com a filha como o marido pescara tucunarés.

A filha contou o que vira o marido fazer.

À noite, na rede, os Mucuras velhos combinaram ir pescar à maneira do Camaleão.

E foram.

A velha levava o aturá às costas.

E, chegando à beira do rio, o Mucura velho mandou a mulher fazer uma fogueira e sapecou o corpo todo nas chamas, ficando com a cauda pelada.

Como as queimaduras doessem muito, o Mucura voltou para casa para curar-se.

E brigou com a filha, aconselhando-a a deixar o companheiro.

A filha assim fez.

O Carrapato, sabendo que a Mucura, moça e bonita, havia deixado o marido, foi propor-lhe casamento.

A Mucura aceitou, porque o Carrapato, embora não soubesse fazer roça como o Acurau, nem pescar como o Ariramba e o Camaleão, sabia apanhar frutos.

No dia seguinte, depois de dormirem juntos, o Carrapato convidou a mulher para ir com ele apanhar frutos.

E a levou para o pé de uma castanheira com um aturá às costas.

Aí subiu à árvore e pôs-se a jogar os ouriços no aturá da mulher até enchê-lo.

Depois, agarrando-se a uma folha da castanheira, atirou-se do galho na direção do aturá.

Aparecendo em casa com o aturá cheio de castanhas, os sogros do Carrapato perguntaram à filha como haviam apanhado tantas castanhas.

A filha contou tudo o que o marido fizera.

À noite, na rede, os velhos combinaram ir, no dia seguinte, apanhar castanhas.

Foram.

A Mucura velha ficou ao pé da castanheira com o aturá às costas.

O velho subiu à árvore e lá do alto começou a jogar ouriços no aturá, até enchê-lo.

Depois, apertando uma folha de castanheira ao peito, jogou-se de um galho, na direção do aturá.

Mas, como era muito gordo e pesado, esborrachou-se no chão.

A velha voltou sozinha para casa.

 

(Pereira, Manuel Nunes. Monronguêtá: um Decameron indígena. 2ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1980, p.723-727)

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